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A você leitor,pela honra que me daráem ler este livro.Ao meu paiRafael Chaparro Sanches,por tudo que me deu na vida,inclusive o gosto pela literatura.DUZINDAPRIMEIRA PARTECAPÍTULO 1IEstamos na cidade de São Paulo, no bairro do Tatuapé, no ano de 1933.A maioria da comunidade era constituída por imigrantes estrangeiros oudescendentes.Era uma manhã fria, mas Duzinda a achava morna.O vento batia calmamente na velha casa construída no início do século.Na frente o armazém, no qual seu pai fazia um comércio. Não era grande,entretanto era o maior e mais sortido do “pedaço”. Ele tinha uma situaçãofinanceira melhorzinha que a maioria das pessoas daquela comunidade.Depois o corredor aberto, que se não fosse pela feiúra, poderia serchamado de varanda. Para ali, dava o quarto dos pais, e depois o das filhas.A seguir uma sala sempre fechada e escura. Quase não se lembrava dela.Só era aberta raramente. Para ser limpa ou quando alguém rico ou importanteos visitava. Fato este nada comum.
 
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Além havia a cozinha. Esta ela conhecia bem, era onde se vivia. Porúltimo, o banheiro. Ela estava ali. Depois acabava a varanda e a casa, e vinhao quintal.Já tinha arrumado a casa, iniciado o almoço e dado comida às galinhas.Sua mãe, que se levantara com o pai, já havia trabalhado bem mais.Porém ela estava feliz. Penteava o cabelo e se olhava no espelho. Umespelho pequeno e velho, do qual ela se lembrava desde pequena. Ninguémpodia quebrá-lo, pois se não “eram sete anos de azar” como dizia sua mãe.Duzinda tinha os cabelos pretos e exageradamente lisos, a tez clara e doisgrandes olhos castanhos. O nariz e a boca eram comuns, entretanto tinha osdentes até bonitos. Não um bonito de se notar.Seu sorriso, nesta manhã, estava radiante. Ela estava amando. Por issoiluminaria não só o pequeno banheiro, mas a casa, a rua, o quarteirão, o bairro,a cidade...– Duzinda, vou lá para a frente da venda. O café de teu pai está na mesa.Venha servi-lo!Ao aparecer na porta, olhou com pose para a mãe.– Mãe, eu sou bonita?– Bonita? Que pergunta boba!– É, mãe, eu sou bonita? Não fala que tem mais o que fazer, responde.Dona Maria, a portuguesa, queria se livrar daquela “conversaiada”, pois estavacom pressa, e o Manuel devia já estar impaciente.– É, não és cega nem aleijada, mas anda depressa, que teu pai já está a vir.Ela não gostou muito, entretanto estava tão enlevada que isso não iriaatrapalhar sua grande felicidade.Continuou a se pentear com cuidados a mais.Ninguém dava atenção a ela.IIEla se apaixonara por Ernesto. Ele tinha cabelos pretos, lisos, meio ajeitados,olhos entre o castanho e o verde, um bigodinho, de acordo com a época, e eramuito conversador.– Ai, que cabelos, que bigode, que olhos... Lindo! Lindo!Assim pensava nossa donzela, multiplicando em muito seus atrativos.Era alto mas não atlético, e seu tipo passaria despercebido pela grandemaioria de moças do bairro. Porém na cabeça dela, ele era um galã digno detrabalhar nos filmes que eram exibidos no cinema São Luís. Imaginavatambém que todas as moças dali deveriam estar apaixonadas por ele.

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