INTRODUÇÃO
O presente escrito tem uma origem prática.Atuando como juiz em uma das Varas Criminais da Zona Norte da Comarca de Natal, começamos a nos deparar com uma série de prisões em flagrante por tráfico de drogas,todas seguindo um mesmo padrão, isto é, oriundas de denúncias anônimas. Ouvira falar daexistência de um grupo de extermínio integrado por policiais e de extorsões, torturas e outrosabusos policiais nos referidos flagrantes, mas nenhuma informação concreta nos chegava.Até que dois fatos nos chamaram atenção. Um dos policiais que mais realizavaesses flagrantes, que tanto a Defensoria Pública denunciava serem forjados, foi morto sob asuspeita de estar extorquindo um traficante da região, e um companheiro seu de batidas foi preso à mesma época sob a acusação de integrar um grupo de extermínio.Paralelamente a isso, deparamo-nos com um dramático caso de um rapaz quedenunciou na televisão a existência de abusos da polícia nos bairros mais carentes e nominouum dos policiais que invadiram sua casa indevidamente, só porque ela ficava na mesma vilaem que procuravam um suspeito de tráfico. Contou ele na televisão que os policiais entravamà força nas casas, a qualquer hora, e ameaçavam quem reclamasse. Dias depois policiais, soba alegação de que teria havido uma denúncia anônima contra o rapaz, foram a casa dele,teriam encontrado maconha e crack, e o prenderam.Ao interrogá-lo, fomos saber dos inúmeros abusos que esse jovem rapaz sofreuantes e durante a prisão. Percebemos que ele foi transferido, sem motivos aparentes, diversasvezes, nos dois meses que passou preso, segundo ele, como forma de causar ainda mais terror à família e para facilitar espancamentos. Seu interrogatório foi um dos mais convincentes que já tínhamos visto nos, até então, dez anos de magistratura. O Ministério Público, em suasalegações finais, não só pediu a absolvição como também solicitou a remessa de peças parainvestigar a tortura e o abuso de autoridade contra o acusado.Demo-nos conta, então, da possibilidade de que tais fatos pudessem estar acontecendo rotineiramente. E passamos a olhar com mais cautela os casos semelhantes deflagrante nessas mesmas condições de preexistência de denúncia anônima.Mas, infelizmente, a prática, na Justiça estadual, tem sido a de ter pouca atenção para essa situação. Não para menos, o crime em que mais se atribui tais excessos é o detortura (nem vamos nos referir ao abuso de autoridade, pois a lei lhe deu penas tão pequeninasque, na verdade, o chancelou como método de atuação das forças policiais). E as estatísticas
2 06/06/2011
Rosivaldo Toscano dos Santos Júnior