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Lutas culturais: relações raciais,antropologia e política no Brasil

Lutas culturais: relações raciais,antropologia e política no Brasil

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O autor, neste ensaio, pretende encaminhar duas proposições. Em primeirolugar, formular uma leitura, parcial e fragmentada, sobre a consolidação de determinadasquestões que seriam constituintes do campo dos estudos de relações raciais, a partir daperspectiva das ciências sociais e notadamente da antropologia no Brasil. Em segundolugar, a intenção é apontar a crescente politização desse campo, que acompanha a politizaçãodas identidades raciais, assim como a consolidação e a expansão de uma “agenda” políticanegra no Brasil contemporâneo. Procura, ademais, demonstrar, a partir dos estudos sobreidentidade negra em Salvador, na Bahia, aspectos do processo de formação de identidadesnegras contemporâneas, ponto de apoio para a politização das lutas culturais em torno daraça. Tais proposições podem ser compreendidas contra o pano de fundo mais amplo damodernização conservadora que o Brasil tem vivido nas ultimas décadas e em relação aosefeitos dessa modernização na formação de sujeitos sociais dentro e fora da universidade.
O autor, neste ensaio, pretende encaminhar duas proposições. Em primeirolugar, formular uma leitura, parcial e fragmentada, sobre a consolidação de determinadasquestões que seriam constituintes do campo dos estudos de relações raciais, a partir daperspectiva das ciências sociais e notadamente da antropologia no Brasil. Em segundolugar, a intenção é apontar a crescente politização desse campo, que acompanha a politizaçãodas identidades raciais, assim como a consolidação e a expansão de uma “agenda” políticanegra no Brasil contemporâneo. Procura, ademais, demonstrar, a partir dos estudos sobreidentidade negra em Salvador, na Bahia, aspectos do processo de formação de identidadesnegras contemporâneas, ponto de apoio para a politização das lutas culturais em torno daraça. Tais proposições podem ser compreendidas contra o pano de fundo mais amplo damodernização conservadora que o Brasil tem vivido nas ultimas décadas e em relação aosefeitos dessa modernização na formação de sujeitos sociais dentro e fora da universidade.

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Lutas culturais: relações raciais,antropologia e política no Brasil
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Resumo
: O autor, neste ensaio, pretende encaminhar duas proposições. Em primeirolugar, formular uma leitura, parcial e fragmentada, sobre a consolidação de determinadasquestões que seriam constituintes do campo dos estudos de relações raciais, a partir daperspectiva das ciências sociais e notadamente da antropologia no Brasil. Em segundolugar, a intenção é apontar a crescente politização desse campo, que acompanha a politizaçãodas identidades raciais, assim como a consolidação e a expansão de uma “agenda” políticanegra no Brasil contemporâneo. Procura, ademais, demonstrar, a partir dos estudos sobreidentidade negra em Salvador, na Bahia, aspectos do processo de formação de identidadesnegras contemporâneas, ponto de apoio para a politização das lutas culturais em torno daraça. Tais proposições podem ser compreendidas contra o pano de fundo mais amplo damodernização conservadora que o Brasil tem vivido nas ultimas décadas e em relação aosefeitos dessa modernização na formação de sujeitos sociais dentro e fora da universidade.
Palavras-chave:
relações raciais; campo acadêmico; modernização; ação afirmativa.
O front racial na antropologia brasileira
Gostaria, neste breve ensaio, de encaminharduas proposições. Em primeiro lugar, formularuma leitura, parcial e fragmentada, sobre aconsolidação de determinadas questões, queseriam constituintes, a partir da perspectivasocioantropológica, do campo dos estudos derelações raciais no Brasil. Em segundo lugar,minha intenção é apontar a crescente politizaçãodesse campo, entendido como um conjunto deposições estruturadas em torno do jogo concor-rencial eminentemente acadêmico (Bourdieu,1989), que acompanha a politização das identi-dades raciais, assim como a consolidação deuma “agenda política negra” no Brasil contempo-râneo. Ambas as proposições podem ser com-preendidas contra o pano de fundo mais amploda modernização conservadora que o Brasil temvivido nas ultimas décadas e em relação aosefeitos dessa modernização na formação desujeitos sociais. Mas, antes, é preciso fazer umapequena digressão sobre os pressupostos teóri-cos que me auxiliam.Em primeiro lugar, minha leitura almeja serhistórico-processual. O que significa dizer queprocura compreender o processo em tela de umponto de vista efetivamente histórico, ou seja,determinado pela ação humana contingente,ambientado no mundo das sedimentações histó-ricas e configurado como concreto ou “síntesede muitas determinações”. Este é, assim, umestudo de discursos e interpretações, socioan-tropológicas e políticas, tal como estes têm seconstituído historicamente ao longo de umperíodo considerado. Esse interesse históricopode ser traduzido como o interesse de recuperara historicidade do processo em seus diversosdesdobramentos, porque é sobre a História que
* Bolsista de pós-doutorado (Fapesp) no Departamento deAntropologia da Unicamp. Texto apresentado na Reuniónde la Red de Estadísticas Étnico-Raciales Brasil, Colombia,México, Francia. 12 y 13 de Octubre, México. Ciesas –Centro de Investigación de Antropología Social y el IRD.
 
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. Lutas culturais: relações raciais, antropologia e política no Brasil.
o processo se volta para reconstituir identida-de(s) afrodescendente(s) ou negra(s) e parafazê-la(s) “falar” do interior de narrativas hege-monizadas, como a inscrição antropológica. Emsegundo lugar, parte dos argumentos desenvol-vidos apóia-se naquilo que está descrito como“análise de classe” (Guimarães, 2002), o queimplica dizer que a análise da mudança social,entendida como baseada na prática dos homenscomo agentes cognoscentes, é feita através doestudo da formação de sujeitos sociais, que, emuma interação dialética com as estruturas, asconstituem ao tempo em que se estruturam reci-procamente. Esse espaço de formação é umterritório de lutas e conflitos. Descrever a mu-dança na formação das identidades, e suarepresentação na prática antropológica, signifi-caria, então, descrever essas lutas como disputaspor identificação, reconhecimento e hegemonia.Esse aspecto histórico, “artefactual”, dis-cursivo, estratégico e combativo é o que gostariade destacar, na medida em que é esse aspectoque parece ligar a “reinvenção de si” do negro,e das novas subjetividades afrodescendentes, àstransformações históricas e tensões presentesno debate antropológico recente sobre o tema,notadamente neste momento, em que as políticasde ação afirmativa para negros são reivindicadasno Brasil. Ora, grande parte das críticas a essareivindicação é feita a partir de um lugar marcadopela
expertise
antropológica. E antropólogos sãoalguns dos intelectuais brasileiros mais loquazesa argumentar contra as cotas para negros nauniversidade (Fry & Maggie, 2004; Fry, 2005).De qualquer modo, ao invés de enfatizar oaspecto essencializante das identidades negras,preferiria, de outro modo, apontar suas caracte-rísticas críticas e pôr em relevo, em contrapar-tida, o peso cristalizado das representações,discursos e práticas racializados que constituemo ambiente para as relações raciais no Brasil, oqual, ao contrário do que normalmente se ima-gina, é excessivamente essencializado, inclusivepelo concurso das ciências sociais (Pinho &Figueiredo, 2002). Desse modo, é possívelcompreender a racialização do negro, de suaspráticas e identidades, como algo produzido noteatro de operações das disputas por poder ehegemonia, ao longo de um movimento históricoestratégico, pontuado por tomadas de posição eformação de
 fronts
e linhas de combate. Aoassumir uma perspectiva antifundacional,procuro assim descontruir esses objetos petrifi-cados e algo encantados, sacralizados pelaideologia e consagrados à dominação e aoobscurecimento.
Desigualdade e representação
O desenvolvimento dos estudos sobrerelações raciais marca o momento de profissio-nalização e institucionalização das ciênciassociais brasileiras nos anos 50. Florestan Fernan-des e a chamada Escola de Sociologia Paulista,ao mesmo tempo em que fundam as ciênciassociais modernas, também inauguram a proble-mática central do campo, em oposição, inclusive,aos chamados estudos afro-brasileiros, voltadosprincipalmente para o Nordeste tradicional epara práticas negras consideradas “culturais”e/ou tradicionais.Florestan e seus alunos interessaram-sepelo problema do negro na sociedade de classes,e a cidade de São Paulo seria o sítio privilegiadopara a investigação, na medida em que seria opólo dinâmico do capitalismo brasileiro e o lugaronde a nova sociedade de classes estava sendoforjada. Tais estudos sofrem inflexão definitivaquando, a partir da Escola Sociológica Paulista,os números, ou dados estatísticos agregados,passam a fazer parte da argumentação. Esta-tísticas e ciências sociais têm uma relação longae duradoura, mas no Brasil a ênfase culturalistados estudos afro-brasileiros inibiu essa utilização.No bojo do processo de profissionalização dasciências sociais, o uso de estatísticas ganha forosrelevantes porque estas são vistas como evidên-cias objetivas de realidades sociais determi-nantes e como modelos fiéis de registro (Arruda,1996).Alain Desroisières faz uma discussão inte-ressante sobre as relações entre a produção doconhecimento estatístico e o desenvolvimentodas ciências sociais e do Estado moderno(Desroisières, 1990). A objetificação estatísticasignificaria o processo de realização cognitiva einstitucional mais importante das ciências sociais;usando-as, cientistas sociais conseguiramtranscender particularismos e contingências,sem perder de vista a concretude e o individual,
 
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e focalizariam objetos mais gerais de conhe-cimento. Por outro lado, estatísticas formamparte integral de políticas de Estado e decontrole de população (Foucault, 1992), não deuma maneira derivativa ou marginal, mas intrin-secamente. Assim, a transcendência da contin-gencialidade permite o deslocamento do planeja-mento e do entendimento da imanência do locale do concreto para o universal e o abstrato.Por outro lado, as estatísticas só são possí-veis através da construção de categorias quenão são dadas naturalmente, mas produzidascomo objetos, coisas construídas, em acordo, éóbvio, com circunstâncias sociais determinadas.Como no caso das categorias raciais, as quaisdemonstram exemplarmente o que Desroisièresaponta como a representatividade política e aluta por representação. Basta que pensemos noamplo debate que se estabelece faz vinte anosno Brasil entre o IBGE, acadêmicos e militantesnegros sobre o uso das categorias raciais nocenso para que tenhamos um exemplo bem pró-ximo dessa luta pela representação (Petruccelli,2005).No começo dos anos 80, outra reviravoltanos estudos de relações raciais pôde ser atribuídaao uso de bases de dados maciças. Os trabalhosde Carlos Hasenbalg e Nelson do Valle Silvaparecem dar até hoje o tom das análises. O livrode Hasenbalg,
 Discriminação e desigualdadesraciais no Brasil
, insiste no argumento de queas desigualdades raciais não podem ser atri-buídas ao passado, ao atraso ou a algum fenô-meno de demora cultural, mas formam parteintegrante da modernização capitalista, atenden-do a interesses de exclusão dos negros dacompetição direta com os brancos, concentrandoassim riqueza e benefícios (1979). A classifi-cação ou categorização racial é em si mesma,por outro lado, muito problemática no Brasil. Oscensos oscilaram entre diferentes modos declassificar as pessoas, e uma verdadeira batalhasemiótica trava-se pela denominação correta:negros e brancos, não-brancos e brancos, bran-cos, pardos e negros etc.
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Esses trabalhos citados vieram à luz nosestertores do último período militar brasileiro,inaugurado com o golpe de abril de 1964. Aditadura promoveu a efetiva integração econô-mica do Brasil com o mundo e, internamente,entre suas diversas regiões. Ao mesmo tempo,marcou-se como um período de fortes investi-mentos públicos de caráter desenvolvimentistae estruturante
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(Araújo, 1995; Faria, 1980;Oliveira, 1980). Entre 1969 e 1974, vivemos noBrasil um período no qual se verificou uma taxamédia de crescimento da economia de 10,9%ao ano. Observaram-se uma expansão do crédi-to, com a conseqüente elevação do nível econô-mico dos salários, assim como uma intensificaçãodo deslocamento campo–cidade, daí a impor-tante urbanização etc. (Skidmore, 1998).Se o período em questão representou umdesenvolvimento espantoso da economia, estenão distribuiu igualmente seus efeitos entre apopulação e, como costuma acontecer, a riquezaconcentrou-se nas mãos daqueles melhor posi-cionados na estrutura social. No final do regimemilitar, percebeu-se que a diferença entre ricose pobres aumentou e a riqueza do país, quecrescera nesse período, concentrava-se na mãode uma pequena elite. A crise econômica e adesmoralização internacional do regime (comona crise da escravidão), além de questões inter-nas entre os militares, propiciaram a lenta transi-ção brasileira para um regime de eleições livres.Iniciada com Ernesto Geisel, que assumiu apresidência em 1974, mas levada finalmente aefeito pelo sucessor que ele escolhera, JoãoBatista de Figueiredo, a distensão completou-se através do acordo de cúpula realizado após afrustração da campanha das eleições diretas,levando primeiro Tancredo Neves, e depois seuvice José Sarney, antigo aliado do regime e líderpopulista regional, ao poder (Araújo, 1995;Skidmore, 1998).Ora, foi em meio a tal ambiente político queessa reconversão dos estudos sobre relaçõesraciais deslocou, anos após o ciclo da Unesco,a hegemonia dos estudos culturalistas sobre onegro, que dominavam a perspectiva sociológica,com determinada ênfase para os estudos sobre“cultura negra”, tal como esta havia sido definidanos anos 30 pelos estudos afro-brasileiros, de
1. O quesito cor foi introduzido nos censos de 1872, 1890,1940, 1950 e 1960.2. Além, é claro, de ter promovido todo tipo de violência eabusos, típicos de um regime autoritário e criminoso.

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