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Pelbart, Peter Pál. Biopolítica

Pelbart, Peter Pál. Biopolítica

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PELBART, Peter Pál. (2007) “Biopolítica”.
Sala Preta
, n.7, p.57-65.
Biopolítica
 
Peter Pál Pelbart
*
 u queria dizer duas palavrinhas antes de começar a abordar o tema ao qual eu mepropus. Filosofia é uma matéria volátil, impalpável, mas que afeta o corpo e opensamento. Eu vou seguir aqui um trajeto que eu elaborei. Nem tudo vai sercompreensível, nem tudo vai ser entendível, e isso não tem a menor importância. Entãovocês podem surfar à vontade naquilo que forem ouvindo, podem se conectar com algumascoisas e se desconectar de outras.Serei fiel aqui a uma concepção de Gilles Deleuze, que dizia que dar uma aula éalgo como pôr em movimento uma matéria esquisita, a matéria pensamento. Masobviamente nem tudo interessa a todos, e cada um leva o que lhe servir, o que lheinteressar. Há alunos, dizia ele, que nos cursos dele dormiam por meses a fio. E de repente,chegava o conceito de que eles necessitavam. Eles despertavam. Era o conceitodespertador. Então, sintam-se à vontade para levar daqui o que lhes interessar, e o restodeixem cair... Podem até se embalar na sonolência, se quiserem.Eu queria então lhes falar da relação entre poder e vida. E sobretudo em duasdireções principais, que a meu ver caracterizam o contexto contemporâneo. Por um ladohaveria hoje uma tendência que poderia ser formulada como segue: o poder tomou deassalto a vida. Isto é, o poder penetrou todas as esferas da existência, e as mobilizouinteiramente, e as pôs para trabalhar. Desde os genes, o corpo, a afetividade, o psiquismo,até a inteligência, a imaginação, a criatividade. Tudo isso foi violado, invadido, colonizado;quando não diretamente expropriado pelos poderes. Mas o que são os poderes? Digamos,para ir rápido, com todos os riscos de simplificação: as ciências, o capital, o Estado, a mídiaetc.
*
Peter Pál Pelbart é filósofo e professor do Departamento de Filosofia e do Núcleo de Estudos daSubjetividade do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica da PUC-SP.
E
 
Os mecanismos diversos pelos quais se exercem esses poderes são anônimos,esparramados, flexíveis. O próprio poder se tornou pós-moderno. Isto é, ondulante,acentrado (sem centro), em rede, reticulado, molecular. Com isso, o poder, nessa sua formamais molecular, incide diretamente sobre as nossas maneiras de perceber, de sentir, deamar, de pensar, até mesmo de criar.Se imaginávamos, algumas décadas atrás, ter espaços preservados da ingerênciadireta dos poderes, por exemplo, o corpo, o inconsciente, [p.58] ou a natureza, e tínhamoscom isso a ilusão de preservar nessas esferas alguma autonomia em relação aos poderes,hoje nossa vida parece integralmente submetida a esses mecanismos de modulação daexistência. Até mesmo o sexo, a linguagem, a comunicação, a vida onírica, mesmo a fé,nada disso preserva já qualquer exterioridade em relação aos mecanismos de controle e demonitoramento.Para resumi-lo numa frase simples: o poder já não se exerce desde fora, desde cima,mas sim como que por dentro, ele pilota nossa vitalidade social de cabo a rabo. Já nãoestamos às voltas com um poder transcendente, ou mesmo com um poder apenasrepressivo, trata-se de um poder imanente, trata-se de um poder produtivo. Este poder sobrea vida, vamos chamar assim, biopoder, não visa mais, como era o caso das modalidadesanteriores de poder, barrar a vida, mas visa encarregar-se da vida, visa mesmo intensificar avida, otimizá-la. Daí também nossa extrema dificuldade em resistir. Já mal sabemos ondeestá o poder e onde estamos nós. O que ele nos dita e o que nós dele queremos. Nóspróprios nos encarregamos de administrar nosso controle, e o próprio desejo já se vêinteiramente capturado. Nunca o poder chegou tão longe e tão fundo no cerne dasubjetividade e da própria vida, como nessa modalidade contemporânea do biopoder.É onde intervém um segundo eixo que seria preciso evocar. Sobretudo em algunsautores que eu vou mencionar ao longo da minha fala, provenientes de um movimentochamado "Autonomia Italiana". Eu resumo este eixo da seguinte maneira: quando, comodiz o rap, parece que "tá tudo dominado", no extremo da linha se insinua uma reviravolta.Aquilo que parecia submetido, controlado, dominado, isto é, a vida, revela, no processomesmo de expropriação, sua potência indomável.
 
Tomemos um exemplo: o capital hoje precisa não mais, como há décadas atrás, demúsculos e de disciplina. Ele precisa de inventividade, de imaginação, de criatividade. Eleprecisa do que se poderia chamar da força-invenção das pessoas. Esta força-invenção deque o capitalismo se apropria e que ele faz render em seu beneficio próprio, essa força-invenção não emana do capital. E no limite pode até prescindir dele. É o que se vaiconstatando aqui e ali. A verdadeira fonte de riqueza hoje é a inteligência das pessoas, é asua criatividade, é a sua afetividade. E tudo isso pertence, como é óbvio, a todos e a cadaum. Essa potência de vida disseminada por toda parte nos obriga a repensar os própriostermos da resistência hoje. Poderíamos resumir este movimento do seguinte modo: aopoder sobre a vida responde a potência da vida. Mas esse responder não significa umareação, já que o que se vai constatando cada vez mais é que essa potência de vida já estavalá e por toda a parte, desde o início. A vitalidade social, quando iluminada pelos poderesque a pretendem vampirizar, aparece subitamente na sua primazia ontológica. Aquilo queparecia inteiramente submetido ao capital, ou reduzido a mera passividade, isto é, a vida,aparece agora como um reservatório inesgotável de sentido, como um manancial de formasde existência, como um germe de direções que extrapolam, e muito, as estruturas decomando e os cálculos dos poderes constituídos.Seria o caso então de percorrer essas duas vias maiores, como numa fita de
 Moebius
, o biopoder e a biopotência. O poder sobre a vida e as potências da vida. São comoo avesso um do outro. Se você seguir em linha reta você chega ao outro e vice-versa. E agente poderia, para testar essa hipótese, tomar algo que hoje em dia é cada vez maisessencial, a saber, o corpo. Tanto o biopoder como a biopotência passam necessariamente,e hoje antes do que nunca, pelo corpo. Então vou trabalhar três modalidades de vida, isto é,três conceitos de vida acompanhados de sua dimensão corporal correspondente,percorrendo, assim, de um lado a outro, essa banda de
 Moebius
, esse poder sobre a vida e opoder e a potência da vida.Eu então vou começar pelo mais extremo: o mulçumano. Vou retomar brevementeuma descrição feita por um filósofo italiano contemporâneo [p.59] chamado GiorgioAgamben. O autor acompanha aqueles que, num campo de concentração, durante aSegunda Guerra Mundial, recebiam essa designação terminal de mulçumano. O que era um

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