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29 Julho 2011
Raízes e folhas
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...háanos
 Aqui estAmos
em mais um exer-cício de reconstituição da memóriado que aconteceu há 50 anos! 1961foi sem dúvida um ano especial,particularmente para os paísesafricanos de expressão portugue-sa. Já abordámos, em edições ante-riores, vários dos acontecimentosque fizeram desse ano o ano trans-cendente que realmente foi. 1961foi o ano dos massacres da Baixade Kassanje, do 4 de Fevereiro, do15 de Março, da criação da CONCP, edo avolumar das tensões entre Por-tugal e os seus tradicionais aliados,particularmente os Estados Unidosda América, na altura já sob a lide-rança de John Kennedy. Angola, por ter sido palco dos acon-tecimentos que referimos, lideravaa agitação política na comunidadede estudantes lusófonos de origemafricana, que estavam em Portu-gal na altura. O facto de aqui se teriniciado a luta armada, associadaà decisão de Salazar de vir ‘para Angola, rapidamente e em força’,para combater o movimento inde-pendentista, e à obrigatoriedadede incorporação militar nas forçasarmadas coloniais dos jovens nas-cidos nas colónias, tudo isso, e oaumento da consciência políticados jovens estudantes que seguiamatentamente o movimento de auto-determinação dos povos africanos,através da independência dos seuspaíses, tornaram o desejo de aban-donar Portugal um imperativo. Éassim que se viria a materializaresta memorável ‘fuga’ que permitiuengrossar num só acto e de formasignificativa, o número de nacio-nalistas que, já desde o início dadécada de 50, vinham optando peloabandono do espaço controlado porPortugal, para preparar as condi-ções para a independência dos seuspovos. Outras saídas se seguiriam,num movimento incontrolável dereforço das estruturas dos movi-mentos que emergiam, e ganhavamcapacidade de luta. Elas viriam acrescer com as independências afri-canas não só em Portugal, como apartir de Angola, para os continen-tes americano, europeu, mas prin-cipalmente africano.Em todo o espaço controlado porPortugal, em 1961, apenas havia 3centros de ensino superior: Coim-bra, Lisboa e Porto. Era assim natu-ral que os jovens das ex-colónias ti- vessem que passar pela ‘metrópole’,como era chamado o Portugal con-tinental da altura, para que pudes-sem prosseguir os seus estudos. Issocriou a oportunidade de juntar umaparte considerável da inteligênciadesses territórios, o que se fazianão apenas nas universidades, mastambém no local de acolhimentomais preponderante, que era a Casade Estudantes do Império (CEI). Eraa situação ideal para a criação deuma consciência colectiva, muitobem aproveitada por aqueles que sepreocupavam com a causa da inde-pendência dos seus países.Necessitados de quadros para aluta, mas enfrentando dificuldadespara os enquadrar, os líderes dosMovimentos de Libertação, entãoem Conakry e Leopoldville, ajuda-ram a fomentar a necessidade desacrifício das carreiras pessoais dosque iam para Portugal ‘ser doutorou engenheiro’, dedicando-as àscausas dos seus povos. Em 1961, há50 anos portanto, num mundo po-litizado e de grandes causas, coma guerra fria, e as independênciasdos países colonizados em Áfricae Ásia nos processos que se segui-ram à segunda guerra mundial, eque tiveram o seu auge entre 1947e 1960, os estudantes africanos emPortugal estavam preparados paraabraçar a causa da independênciados seus países. O início da luta ar-mada em Angola foi o último sinal de clarim, sinal de urgência e exi-gência de definição.É neste ambiente, com intensa
A caminho da luta
Sentados à frente, da esq. pª a dtª: Maria da Luz Boal; Isabel de Sá Hurst; Lucília Wilson; Fátima Wilson; Elisa Andrade; Virgínia Vieira Lopes e o filho Johny; Amélia Araújo e a filha;Embaixador do Ghana em Paris; Margarida Mangueira; Ilda carreira; Ângela Guimarães e o filho Chico; Ana Maria Videira; Ana Wilson e Teresa Gomes.Na 2ª fila, de pé: Manuel Boal; Tomás Medeiros; Jorge Hurst; Osvaldo Lopes da Silva; Mário Assis; Luís Alves Monteiro; Aladino Van-Dúnem; Carlos Pestana Heineken; José E. F. Araújo;Gentil Viana; Bento Ribeiro; José Lima de Azevedo; Rui de Carvalho; Rui V. de Sá; Armindo Fortes; Manuel Videira; Carlos Rúbio; Antonette José Carlos.Na última fila, de pé: Fernando Chaves Rodrigues; Fernando França Van-Dúnem; Pedro V. Pires; Augusto T. Bastos; Higino P. Gomes; Francisco X. B. Rodrigues; Henrique Carreira;Africano Neto; Augusto Lopes Teixeira; Fernando C. Paiva; João Vieira Lopes; Henrique Santos; Salvador Ribeiro.Autocarro quetransportou os estudantesem França
Foto: Kimball Jones
 
CAMINHOS CRUZADOS EM HISTÓRIAE ANTROPOLOGIA, HOMENAGEM À JILL DIAS.
Lisboa, ICS (Instituto deCiências Sociais), 2010.
CONTRIBUIÇÃO AO ESTUDO DAGÉNESE DO NACIONALISMO MODER-NO ANGOLANO.
Edmundo Rocha.Lisboa, Edição do autor, 2003.
DEPOIMENTOS PARA A HISTÓ-RIA.
Helder M. Barber D. Santos &Drumond A. J. Mafuta. Luanda, Ed.Autores, 1999.
ESPERANÇA. ÉPOCA DE IDEIAS DAINDEPENDÊNCIA E DIGNIDADE(1954-1975).
Jorge Alicerces Valen-tim. Luanda, Nzila, 2005.
HISTÓRIA DO MPLA
, Centro de Do-cumentação e Investigação Históricado CC do MPLA. Luanda, CDIH, 2008,vol. 1.
MEMÓRIAS.
Iko Carreira. Luanda,Nzila, 2005.
O MEU TESTEMUNHO. UMA LUTA,UM PARTIDO, DOIS PAÍSES.
AristidesPereira. Lisboa, Notícias Editorial,2003.
PARTICIPEI, POR ISSO TESTEMU-NHO.
Sérgio Vieira. Maputo, Ndjira,2010.
UM AMPLO MOVIMENTO – ITINERÁ-RIO DO MPLA ATRAVÉS DE DOCU-MENTOS DE LÚCIO LARA (Vol. I:até Fev. 1961; Vol. II: 1961-1962)
,Lúcio Lara. Luanda, 1997-2006.
 VIDAS, LUGARES E TEMPOS.
 Joaquim Alberto Chissano. Maputo,Texto Editores, 2010.
 
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 Angola, por ter sido palco dos acontecimentos quereferimos, liderava a agitação política na comunidadede estudantes lusófonos de origem africana, queestavam em Portugal na altura.
10 SUGESTõESde LEITURA
1958
8 DE JUNHO
- Eleições Presi-denciais em Portugal. HumbertoDelgado é derrotado.
SETEMBRO E OUTUBRO
- Chega-da a Portugal de bolseiros meto-distas vindos de Angola. Entreeles: Jonas Savimbi, JerónimoWanga, Jorge Valentim, Desidé-rio da Graça, Pedro Felipe, RuthNeto.
20 DE OUTUBRO
- AgostinhoNeto termina o seu doutoramen-to em medicina e casa com MariaEugénia Neto em Lisboa.
1959
MARÇO
- Lúcio Lara, da direcçãodo MAC, deixa Portugal e vai paraa Alemanha com a família.
MARÇO
- Início das prisões emLuanda que darão origem ao“Processo dos 50”.
MAIO
ou
JUNHO
- Detenção deIlídio Machado em Lisboa e suatransferência para Luanda.
 JULHO
- Passagem de KwameNkrumah por Lisboa. Detençãode estudantes africanos presen-tes no aeroporto para o saudar.
AGOSTO
ou
SETEMBRO
- CarlosRocha abandona Portugal e re-fugia-se na Alemanha. Contactacom o MAC por recomendação deAgostinho Neto.
SETEMBRO
ou
NOVEMBRO
- Jo-nas Savimbi abandona clandes-tinamente Portugal e segue paraa Suíça depois de uma passagempela França.
NOVEMBRO
- Agostinho Netoprofere uma palestra na Casa dosEstudantes do Império.
22 DE DEZEMBRO
- Partida deAgostinho Neto de Portugal paraAngola.
1960
INÍCIOS DO ANO
- Criação clan-destina do Movimento de Estu-dantes Angolanos em Portugal com J. Vieira Lopes, AP Felipe,Bento Ribeiro, Graça Tavares,Edmundo Rocha em Lisboa, Da-niel Chipenda e Manuel Videiraem Coimbra e Lima de Azevedono Porto.
 JUNHO
- Prisão em Luanda daprimeira direcção do MPLA comAgostinho Neto, P. Pacavira, C.Costa, J. Silas, A. Sebastião, JPAndrade e outros, seguido poruma revolta da população deCatete.
30 DE JUNHO
- Independên-cia do ex Congo-Belga. JosephKasa-Vubu é o novo Presidente ePatrice Lumumba o 1º Ministro.
9 DE JULHO
- Designado o Comi-té Director do MPLA em Conakry.Entre os seus conselheiros estãoestudantes em Portugal comoJ. Vieira Lopes, C. Pestana, G.Viana, E. Rocha, T. Medeiros, G.Tavares e outros.
15 DE OUTUBRO
- AgostinhoNeto, depois de ter sido transfe-rido de Luanda para a cadeia deAljube em Lisboa, é desterradopara Cabo Verde. Manifestaçãode solidariedade dos estudantesà sua partida. Alguns são poste-riormente detidos pela PIDE.
6 DE NOVEMBRO
- Chegada aPortugal de J. Chissano e P. Mu-cumbi para estudos de Medici-na.
24 DE NOVEMBRO
- Detenção deJosé Luandino Vieira em Lisboa.
1961
17 DE JANEIRO
- Assassinato dePatrice Lumumba. Generaliza-ção de uma onda de protestos anível internacional.
20 DE JANEIRO
- Tomada deposse de John F. Kennedy, novoPresidente dos EUA.
21 DE JANEIRO
- Eduardo Mon-dlane, a convite de AdrianoMoreira efectua uma visita a Mo-çambique onde permanecerá atéMaio.
22 DE JANEIRO
- Desvio do pa-quete Santa-Maria por HenriqueGalvão que ameaça dirigir-separa Angola.
FEVEREIRO
e
MARÇO
- Inícioda luta armada em Luanda eno norte de Angola. As notíciaschegam a Portugal. A vaga derecrutamento militar estende-seaos estudantes africanos.
MARÇO
ou
ABRIL
- J. Savimbiadere à UPA depois de longoscontactos com o MPLA.
20 DE ABRIL
- 15ª Sessão daAssembleia-Geral das NaçõesUnidas, incluindo os EUA, apro-va resolução contra a políticacolonial de Portugal.
25 DE ABRIL
- Joaquim P. An-drade é transferido de Príncipepara Aljube em Portugal.
ABRIL-MAIO
- Edmundo Rocha eGraça Tavares seguem de Lisboapara França e Alemanha ondeprocedem ao contacto com or-ganizações ecuménicas para aorganização da saída de estu-dantes africanos de Portugal.
MAIO
- O Pastor Jacques Be-aumont do CIMADE estabelececontactos em Portugal para aorganização da designada “Ope-ração Angola”.
Contexto cronológico
guerra de repressão em Angola,particularmente no Norte, cor-pos expedicionários a partir dePortugal para Angola, e a PIDE aprocurar controlar os africanosque se encontravam a estudar emPortugal, que se dá este aconteci-mento extraordinário: em Junhode 1961 saem de Portugal cerca de100 jovens das ex-colónias africa-nas, uma parte significativa deles,em duas acções que os levaram aatravessar o Rio Minho, e todo onorte de Espanha, rumo a França,e a uma participação activa na lon-ga guerra de libertação nacional dos seus países, que os conduziuà sua independência. As peripé-cias, a organização, procuraremosdescrever com mais detalhe naspeças que compõem este trabalho,o resultado foi a incorporação nosmovimentos que lutavam pela in-dependência de jovens que viriama ser Presidentes, como JoaquimChissano e Pedro Pires, Pimeiros-Ministros, como França Van-Dú-nem e Pascoal Mucumbi, Generaise Ministros, como “Iko” Carreira,Jorge Valentim, Lopes Teixeira,Henrique Santos “Onambwe”,Jerónimo Wanga, Bento Ribeiro“Kabulo”, Osvaldo Lopes da Silva,José Araújo, Maria da Graça Amo-rim e Tomás Medeiros, médicos eintelectuais como Gentil Viana,João Vieira Lopes, Carlos Heineken“Katyana”, marcando a história em Angola, Moçambique, Cabo Verdee São Tomé e Príncipe, e desempe-nhando um papel decisivo na con-dução dos seus países. A partir de Portugal, esta acçãoseria seguida por várias outras, jácom maiores cautelas, tendo sidoprotagonizadas a pé ou de barco,por Espanha ou pelo Atlântico. De Angola, centenas de quadros aban-donariam os seus estudos em Lu-anda e noutros pontos do país para,também de barco ou a pé, se junta-rem aos Movimentos de Libertação,principalmente no Congo. A Associação Tchiweka de Docu-mentação, no quadro do seu traba-lho em torno dos acontecimentossurgidos “Há 50 anos…” aproveitaesta ocasião para apresentar al-guns testemunhos recolhidos peloprojecto Angola – Nos Trilhos daIndependência, de participantesna referida Operação.
Necessitados dequadros para aluta, os líderesdos Movimentosde Libertação,ajudaram a fomentar anecessidade de sacrifício dascarreiras pessoais” 
Alguns recortes de imprensa que saíram na época
Arquivo CIMADE
 
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“Nós pensávamos sempre em sair  pela via legal ou pela via ilegal.…Nessa altura, nós não estávamostão desinformados como as pessoas pudessem pensar.” “E foi esse Movimento deEstudantes Angolanos que recebeua ordem de mandar lá para foraalguns elementos mais conscientes,mais mobilizados para ir reforçar o grupo de Conakry” 
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...háanos
De Portugal
para o mundo, pas-sando as fronteiras de Espanha eFrança, seguiram em 1961 cercade 100 estudantes africanos. Des-tes, cerca de 30 actores da históriareuniram-se de 29 de Junho a 3 deJulho de 2011 na Cidade da Praiaem Cabo Verde, para assinalar a efe-méride e partilhar memórias. A ATDapresentou no evento, um trabalhoem vídeo com depoimentos recolhi-dos no âmbito projecto ATD “Angola- Nos Trilhos da Independência”.Com base em alguns desses de-poimentos, reconstituímos, nestaedição de “há 50 anos…” o percur-so guardado na memória dos quedecidiram escolher os caminhos domundo para chegar à luta de liber-tação nacional.
orgaNIZaÇÃo Da oPeraÇÃoNa VoZ De PeDro PIres
Nós pensávamos sempre em sairpela via legal ou pela via ilegal. Euma outra coisa que é preciso terem conta… nessa altura, nós nãoestávamos tão desinformados comoas pessoas pudessem pensar. Nós se-guimos o processo das independên-cias africanas, sabíamos perfeita-mente o que se passava no Senegal,não diria com toda a profundidade,mas o que se passava na Guiné Co-nakry, a independência da Guiné,tudo isso… acompanhámos isso… A independência do Ghana, um boca-dinho menos, mas a personalidadedo Kwame Nkrumah, também… Nóstivemos acesso a alguma informa-ção sobre o Quénia, sobre o JomoKenyatta, sobre o livro
no Sopé do Monte Kenya
… quer dizer, tínhamosalguma informação. E mais do queisso, também líamos alguma litera-tura brasileira, o Jorge Amado, al-guma literatura americana traduzi-da em português sobre a luta para osdireitos cívicos… Olhe que o LutherKing foi o nosso contemporâneo etoda a luta pelos direitos cívicos nosEstados Unidos, nós acompanhá-mos isso. (…) o John Kennedy (…)e o movimento da senhora Parker…Não estaríamos tão informadoscomo os jovens de hoje, mas tínha-mos informação. (…) E que se note,eu acho que também em Portugal ena Casa dos Estudantes do Impériohá dois outros factores ou elemen-tos que também nos influenciavamum pouco. Um era a literatura,poesia, literatura, havia pessoal à volta da revista
 Imbondeiro
e ou-tras actividades, e havia a música. A música foi um grande factor deaproximação e alimentação, diria
a “fug dos 100” n voz
de alimentação emotiva… A música
 
angolana particularmente, o
 Ngola Ritmos
chegou a Portugal nessa al-tura e a gente cantava, tocava, etc.E então vivíamos esse ambiente...O assassinato de Lumumba, a in-dependência do Congo, a guerra de Argélia… Portanto, com tudo issonão estávamos tão fora disso, pelocontrário, seguíamos com bastanteatenção… Mas dizia, nós queríamossair de toda a maneira.
Na VoZ De eDmuNDo rocha 
… eu, Vieira Lopes, Gentil Viana,Kabulo, Pedro Filipe e Graças Tava-res que reuníamo-nos sob o nomede Movimento de Estudantes Ango-lanos. E foi esse Movimento de Es-tudantes Angolanos que recebeu aordem de mandar lá para fora algunselementos mais conscientes, maismobilizados para ir reforçar o grupode Conakry (…) E foi a partir dessadata que nós considerámos esse pe-dido e escolhemos o Graças Tavares eeu para irmos lá para fora organizar-nos. Entrámos em contacto com Co-nakry (…) Pediram-nos de Conakry para entrar em contacto com o Luísde Almeida que estava na AlemanhaFederal. [… Foi o] Desidério quenos pôs em contacto com um bispoprotestante, de Frankfurt o qual nospôs em contacto com o Bispo em Ge-nebra [o bispo Melvin Blake].
charles harPer “roy”(d cImaDe)
… Um dos organizadores do grupo,Pedro António Filipe, faz um apelourgente ao Conselho Ecuménico dasIgrejas [COE]. (…) Um bispo meto-dista americano, Melvin Blake, depassagem por Lisboa a caminho deGenebra, cumpriu o papel de men-sageiro. (…) Respondendo a esteapelo, o COE vira-se para o CIMA-DE, em Paris a pedir a organizaçãoda evasão destes homens e mulhe-res que queriam sair de Portugal.Na época, o holandês W.A. Visser’tHooft era secretário-geral do COE.Madeleine Barot, ligada à direcçãodo CIMADE, exercia altas funções noCOE (…). Era necessário agir rapi-damente porque os passaportes demuitos deles tinham sido confisca-dos pelas autoridades portuguesas.(…) O Ministro francês dos negó-cios estrangeiros, Maurice Couvede Murville, foi avisado através dopastor Marc Boegner, presidente doCIMADE e da Federação Protestantede França.(…) Eis o plano: haveria uma equi-pa no CIMADE [Paris] de plantãopara assegurar as comunicações(…) Foram Véronique Laufer, AndréRouverand, Yvonne Trocmé e MarieMeylan que asseguravam esta gran-de responsabilidade. Tania Metzel mantinha-se pronta para receber osestudantes em Hendaye [fronteiraEspanha-França]. Em Lisboa, Jac-ques Beaumont dirige a operaçãocomigo, Charles Harper [“Roy”],americano lusófono de origem bra-sileira e a equipa do CIMADE emMarselha (França). Um apoio indis-pensável em Lisboa foi Lewin Vidal ligado a um banco luso-francês(dois anos mais tarde seria preso emLisboa pela sua participação na Ope-ração). Para o trajecto em Espanha,(…) Bill Nottingham, americano doCIMADE recebia os trânsfugas comtrês compatriotas (…) encarrega-dos de rapidamente e discretamen-te encaminhá-los para a fronteirafrancesa.Para essa operação verdadeiros-falsos passaportes foram fornecidosem Paris pelas embaixadas do Ga-bão, Senegal, Níger e da Guiné (…) As fotos de identidade foram rece-bidas algumas em Portugal e outrasfeitas a estudantes africanos em Pa-ris que se predispuseram para tal.(…) Uma Plymouth e um Peugeotconduzidos por Jacques e por mimseguiram com as nossas primeirascargas de Lisboa. Para os outros, en-contro em Coimbra e no Porto.
(Extracto da Carta enviada por Charles Harper aos “Trilhos” a30/5/2011 e Conferência dada a4/06/2010)
Na VoZ De JoÃo VIeIra loPes
Já nessa altura nós sentíamosque a coisa estava a ficar cada vezmais apertada. Aí já havia célulasdo MPLA (…). De tal maneira quequando se desencadeia o 4 de Fe- vereiro, nós aí não tivemos dúvidanenhuma em lançar a palavra deordem “todos para fora de Portu-gal”. Aí outra dificuldade se punha:saber quem é que devia sair e quemé que não devia sair. Só aqueles quenós considerávamos militantes doMPLA e tal... isso era muito pouco...por um lado, por outro lado porquea gente ia pôr em risco os outros queficassem lá. Então dissemos “vamoslevar o maior número possível”. Enão foi fácil fazer a selecção. O certoé que ainda ficaram uma boa dúziade estudantes que estavam connos-co na Casa de Estudantes do Impériomas que sei lá... nós tínhamos umascertas dúvidas, até que ponto é queeles estariam prontos a largar tudo(…). Uma boa parte de nós já esta- va praticamente no último ano dos
Pedro PiresEdmundo Rocha
Foto: Kamy Lara/ATDFoto: Mário Bastos/ATD

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