Eis que surge o problema que persegue toda alingüística moderna, a relação “forma:sentido”, que muitoslingüistas queriam reduzir a noção única de forma, semporém conseguir libertar-se do seu correlato, o sentido. Oque não se tentou para evitar, ignorar ou expulsar osentido? É inútil: essa cabeça de medusa está sempre aí,no centro da língua, fascinado os que a contemplam. Emvez de ziguezaguear com o sentido e imaginar processoscomplicados – e inoperantes – para deixá-lo fora do jogo,retendo somente os traços formais, é preferível reconhecerfrancamente que ele é uma condição indispensável naanálise lingüística
(Benveniste, 1976: 130 e 131).Recusando-se a descartar o sentido, Benveniste abreo continente da lingüística para seu interdito – a fala, aenunciação, o discurso. Desde então, se ainda há uma lingüísticaque segue investigando a língua em si mesma e por si mesma,há também uma lingüística que se interessa pelos usos da língua,pelo discurso. Tal lingüística postula que o discurso se engendranum quadro espaço-temporal determinado, é histórico, concernea referentes particulares (idéias, entidades, acontecimentos,estados de coisas do contexto extralingüístico), abre-se ao mundofora da língua, põe em jogo co-enunciadores e constitui o lócusde uma interação incessante. Enquanto a lingüística da línguase debruça sobre fonemas, sílabas, morfemas, palavras e frases,a lingüística do discurso, grosso modo, se debruça sobre oenunciado e sobre o texto, unidades em torno de que definições,teorias e até mesmo disciplinas se multiplicam, não contrariandoos temores daqueles que vislumbraram a complexidade de taisobjetos e os descartaram. Como diria Barthes (1988), o quecaracteriza o texto é
sua resistência subversiva (...) àsclassificações
. Assim, lidando com as múltiplas faces do texto edo discurso, o campo da lingüística expande-seconsideravelmente na segunda metade do século XX e início doséculo XXI, com a constituição de disciplinas como: lingüísticatextual, pragmática, sociolingüística interacional, análise daconversação, análise de discurso, dentre outras.Se a lingüística da forma muito pouco afeta o paradigmaprescritivo de ensino de língua, secularmente assentado norepasse de conhecimentos gramaticais herdados da tradição