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OS TEMPOS DO TEXTO NA SALA DE AULA
Para João Wanderley Geraldi,semeador dos novos tempos. . .
Maria Inês Pagliarini Cox (UFMT/UNIC)
*
RESUMO
: A virada pragmática no campo da lingüística teóricanos anos sessenta acabou por desencadear o desejo de rupturaem relação à tradição de ensino de língua assentada na forma enão no uso. Então, um novo paradigma de ensino começa a seconstituir, tendo o texto como sua base. Porém, o texto temsignificado diversamente no escopo desse paradigma. Este estudoreflete sobre essas diferentes interpretações. Ora o texto é umaunidade de significação. Ora é produto concreto da interaçãoentre co-enunciadores sócio-historicamente situados. Ora é oacontecimento singular, o exemplar de um gênero discursivo. Tais faces individualizam três tempos na história do texto nasala de aula, correspondentes à dança dos conceitos e noçõesno campo de saberes disciplinares em construção.
PALAVRAS-CHAVE:
texto, coesão, condições de produção, gênero
ABSTRACT 
: The pragmatic turning point in the field of thetheoretical linguistics in the sixties ended up unleashing thedesire for a rupture in the tradition of the language teachingcemented on form, not on the use of language. Then a newparadigm of teaching starts coming out having the text as itsbase. However, the text has different meanings in the scope of the new paradigm. This study reflects upon those differentinterpretations. Sometimes it is a unit of meaning. Sometimes itis a concrete product of the interaction between co-enunciatorssocial and historically-situated. Sometimes it is the singularevent, the exemplar of a discursive genre. Such faces individualizethree moments in the history of the text in the classroom
 
corresponding to the dance of concepts and notions in the fieldof on going disciplinary knowledge.
KEYWORDS:
text, cohesion, conditions of production, genreA história do texto na sala de aula começa a ser escritana década de sessenta, tendo como elemento seminal a viradapragmática da lingüística. Na primeira metade do século XX, alingüística se concentra no estudo da forma e expurga de seuraio de investigação os usos da língua, vistos como heterogêneos,desordenados, dependentes do contexto, caóticos, enfim,indomáveis, nos termos do princípio de categoricidade postuladopelo paradigma científico cartesiano, hegemônico à época. Emlinhas muito gerais, fazer ciência sob o signo desse paradigmasignifica desentranhar, da diversidade aparente, universaisabstratos, que são discretos, essenciais, objetivos, eternos e nãoafetados pelas ações humanas. Regida por esse imperativo, umalingüística imanente da língua, envergando o honroso status depiloto das ciências humanas, floresce. Experimenta, durante esseperíodo, sucessivas ampliações de seu objeto: vai da fonologia àsintaxe. Contudo, sua natureza permanece inalterada – é deformas puras, idealizadas, abstraídas dos usos da língua que amaioria dos lingüistas se ocupa. A ênfase no aspecto formal dalíngua responde também ao desejo de manter à distância osentido, incômodo à lingüística imanente. A semânticaestruturalista, ancorada na noção de signo como entidade quevincula arbitrariamente um conceito (= significado) a uma imagemacústica (= significante), não ultrapassa a análise componencialdo significado em semas.Enfim, nessa primeira fase, poucos ousam transporas fronteiras das dicotomias língua/fala e forma/sentido. Sem apreocupação de nomear todos os insurretos que cruzaram oslimites da língua e da forma, lembra-se aqui de Émile Benvenisteque, desde a década de quarenta, se rebela contra amarginalização do sentido, insistindo sempre no seu caráteressencial. Para ele, estar na linguagem é estar no plano dosimbólico, no plano da significação, no plano do sentido. Oshomens falam para significar. Reiteradas vezes assim semanifesta acerca do sentido:
 
Eis que surge o problema que persegue toda alingüística moderna, a relação “forma:sentido”, que muitoslingüistas queriam reduzir a noção única de forma, semporém conseguir libertar-se do seu correlato, o sentido. Oque não se tentou para evitar, ignorar ou expulsar osentido? É inútil: essa cabeça de medusa está sempre aí,no centro da língua, fascinado os que a contemplam. Emvez de ziguezaguear com o sentido e imaginar processoscomplicados – e inoperantes – para deixá-lo fora do jogo,retendo somente os traços formais, é preferível reconhecerfrancamente que ele é uma condição indispensável naanálise lingüística
(Benveniste, 1976: 130 e 131).Recusando-se a descartar o sentido, Benveniste abreo continente da lingüística para seu interdito – a fala, aenunciação, o discurso. Desde então, se ainda há uma lingüísticaque segue investigando a língua em si mesma e por si mesma,há também uma lingüística que se interessa pelos usos da língua,pelo discurso. Tal lingüística postula que o discurso se engendranum quadro espaço-temporal determinado, é histórico, concernea referentes particulares (idéias, entidades, acontecimentos,estados de coisas do contexto extralingüístico), abre-se ao mundofora da língua, põe em jogo co-enunciadores e constitui o lócusde uma interação incessante. Enquanto a lingüística da línguase debruça sobre fonemas, sílabas, morfemas, palavras e frases,a lingüística do discurso, grosso modo, se debruça sobre oenunciado e sobre o texto, unidades em torno de que definições,teorias e até mesmo disciplinas se multiplicam, não contrariandoos temores daqueles que vislumbraram a complexidade de taisobjetos e os descartaram. Como diria Barthes (1988), o quecaracteriza o texto é
sua resistência subversiva (...) àsclassificações
. Assim, lidando com as múltiplas faces do texto edo discurso, o campo da lingüística expande-seconsideravelmente na segunda metade do século XX e início doséculo XXI, com a constituição de disciplinas como: lingüísticatextual, pragmática, sociolingüística interacional, análise daconversação, análise de discurso, dentre outras.Se a lingüística da forma muito pouco afeta o paradigmaprescritivo de ensino de língua, secularmente assentado norepasse de conhecimentos gramaticais herdados da tradição
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