Literatura Portuguesa II2008-2009Agrupamento de Escolas do Cerco _____________________________________________________________________________2Vinham as cantigas, risos as mulheres do Sul venciam os homens da planície naquelesprimeiros dias.Mas, agora, tudo mudava a pouco e pouco. Já a malta arrastava um coro pesado pelasquebradas e a voz das mulheres esmorecia. Começavam a sentir na carne a faina dolorosa,desde a manhã a noite, debaixo de um sol abrasador. O ar escaldante da planície secara afrescura do mar. Só as cantigas dolentes soavam pela calada da noite.Valdanim tomava fôlego deitando a cabeça para trás, os olhos fitos em Maria Altinhacomo se cantasse só para ela, embora a sua voz se perdesse na toada igual das outras vozes damalta. Embora. Valdanim cantava para ela e, já quando a via, não era só aquele sorriso parado— uns dentes enormes debaixo do bigode —, era também uma frase atrevida:Maria Altinha, uma noite destas hei-de falar-te a preceito!...Mas a moça não respondia e Valdanim enrolava-se na manta, pensando que um casodaqueles não queria conversas, mas sim uns braços bem fortes em volta da cintura de MariaAltinha. Um torpor tornava o corpo do homem; parecia afundar-se. Puxava a manta para acabeça, os olhos voltados para o céu fechavam-se lentamente. Num momento era só MariaAltinha em todos os sentidos. E adormecia. Um sono toda a noite, sem pesadelos nem sonhos.Lá pela madrugada, aquele despertar doloroso, o corpo torcendo-se todo numa ânsiarevoltada. Mal acordado ainda, toca a andar com a malta a caminho da várzea. Era a água friado charco, subindo pelas pernas, que os acordava a todos de vez.Pareciam condenados.O céu baixo limitava, em volta, o horizonte escurecido. Outeiros e cabeços nus, ondeem onde um sobreiro engelhado com os ramos torcidos, solitário. No meio da várzea, pernasenterradas até as coxas, cintura dobrada, em fila, as mulheres metiam os braços na águaremexendo no fundo. Aqui e além um homem.Desde que o sol vinha, desfazendo os véus húmidos da madrugada e depoisqueimando como lume, até que se ia embora, as mulheres, de saias repuxadas entre aspernas, mangas arregaçadas, chapinhavam no pântano mondando o arroz.Mosquitos zumbindo riscavam a água barrenta, um fedor acre entupia as narinas eparecia entrar por todos os poros da pele. Com o meter das mãos para o fundo, pequeninasondulações partiam, concêntricas, ao redor dos braços, e bolhas de ar vinham gorgolejando erebentavam a superfície, avivando o fedor, mesmo por baixo do nariz. Porque o rosto dasmulheres quase roçava no lodo, quando davam um passo em frente, farrapos de madeixascaídas sobre a testa oscilavam pingando. E as mulheres acamavam os cabelos e coçavam asbabas dos mosquitos com os dedos engelhados.O capataz, na vala, olhava duro, mandando. Aqui e além, um homem. O sol de brasapegado nas costas, o horizonte escurecido. Pareciam condenados.Por um anoitecer pesado de tristeza, campos fora só se ouvia o ralhar das cigarras egrilos, Maria Altinha sentiu as primeiras febres. Esteve dez dias sem ir a várzea. Dez diassozinha, tremendo de frio e suores em cima da saca, tapada com a manta, a um canto da casada arrumação. Vinha o carreiro da vila com a caixinha redonda cheia de hóstias e Maria Altinhasem ir a monda. Sem ganhar a jorna.Um dia fez como os outros: meteu-se no arrozal amarelinha de sezões. Quandocomeçavam a bater-lhe os dentes, sala da água e deitava-se na terra, a tremer dos pés acabeça. Era um quartel perdido. O capataz lá estava traçando o risco no papel.
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