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Bases Da Coexistência

Bases Da Coexistência

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06/16/2009

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Franco, Afonso Arinos de Melo.
 Evolução da Crise Brasileira.
São Paulo,Companhia Editora Nacional, 1965.
Bases da Coexistência
As reações favoráveis que me chegam, de várias procedências, a propósito do artigo CoexistênciaInterna, e os estímulos para que prossiga no exame de outros aspectos dos problemas ali focalizados levam-me atentar, novamente, desta tribuna (hoje com repercussão maior do que a abafada tribuna parlamentar de Brasília),alguns desdobramentos necessários daquelas idéias. Ou, mais precisamente, alguns elementos acrescidos aodiagnóstico do , moderno radicalismo brasileiro, observado na sua contradição ideológica.O aspecto mais marcante desta contradição ideológica reside na oposição polêmica, e mesmo belicosa,entre os conteúdos e o dinamismo destes conteúdos, que as alas radicais da esquerda e da direita atribuem aonacionalismo. Cada um dos grupos em choque atribui-se o direito de acoimar o outro de traidor da Nação.O femeno o é, als novo, se considerado exclusivamente no plano das idéias. O que éverdadeiramente novo, e, ao mesmo tempo extremamente arriscado, é o fato de que o choque entre as duasconcepções de nacionalismo extravasou do debate de doutrinas para a luta política; transferiu-se, visivelmente,dos livros e das academias para as ruas, os sindicatos, as Câmaras e as casernas.A primeira observação a se fazer - e ela é de magna importância - é que, sendo o nacionalismo um fatohistórico que obedecia precipuamente ao impulso de união dos povos, transformou-se, hoje, em certos paísescomo o Brasil, em símbolo e instrumento da divisão nacional. Por que isto? Simplesmente porque ele perdeu,nesses países, o seu conteúdo histórico característico, e passou a tema ideológico, quando não - e é o nosso caso!a instrumento da luta internacional que se processa no nosso território e à nossa custa. Sim, à nossa custa, porque, embora não lhe / pg. 17 / paguemos um preço ativo, dispendemos com ela o enorme preço passivo do prosseguimento do nosso atraso e da paralisia do nosso progresso.Sem qualquer petulante intenção didática e apenas para firmar nosso raciocínio, lembremos que onacionalismo foi o cimento que uniu a fundação do Estado moderno. A liquidação do medievalismocomunitário, do poder político do papado, e do isolamento europeu, (graças aos descobrimentos geográficos),deu lugar ao aparecimento do fenômeno Nação, como alicerce do Estado. Lutero e suas idéias religiosas,Maquiavel e suas doutrinas políticas, Bodin e suas teses jurídicas exprimem na Alemanha, na Itália e na França,a mesma coisa, diferentemente. A destruição da Monarquia de direito divino com a vitória da grande revoluçãorepublicana nos Estados Unidos e na França, acabou com o último entrave oposto à integração nacional. Onacionalismo (chamado pelos franceses de então de patriotismo) foi a força unificadora da grande revoluçãorepublicana. Por isto mesmo, é que a idéia de patriotismo se confundia, na América e na França revolucionárias,com a de republicanismo.Mas logo o nacionalismo, indo além dos sistemas políticos passou a atuar no terreno social. O primeiroesforço consciente de unir nacionalismo e socialismo em uma doutrina única, fundindo massas e elites em ideaisnacionais comuns, veio de Maurice Barres, na sua juventude criadora. Homem da direita e da
revanche
o jovemBarres, em fins do século passado, já fazia a sua propaganda eleitoral na base de um socialismo nacional, anti-semita, popular e vagamente militarista. A tese nacionalista tornou-se, então, apanágio das direitas, enquanto o pensamento socialista-marxista se mantinha rigorosamente internacionalista.Mas a vitória da Revolução socialista na Rússia, o cerco do Estado Soviético pelas potênciasocidentais, e a necessidade de defesa da chamada pátria dos trabalhadores começaram obrigatoriamente a criar um novo nacionalismo, o de extrema esquerda. A luta de Stalin contra Trotsky, é, afinal, o processo desta criaçãodo nacionalismo esquerdista. O nacionalismo deixava de ser privilégio da direita. Passara a ser, também, armade luta da esquerda. E, na medida em que esta luta se amplia até os limites do mundo subdesenvolvido, Qnacionalismo bicéfalo vai abrindo as suas frentes contraditórias nos países distantes.Os povos africanos, embora primitivos, não deixam de se aperceber disto. Os grandes pensadoresnegros, como Leopold Senghor, o têm declarado. E a estrutura simples dos Estados africanos permite uma uniãodefensiva mais fácil do que a nossa já complexa organização nacional: Isto não quer dizer, porém, que não possa / pg. 18 / mos identificar as fontes do ataque, e que não tenhamos, ainda, forças para nos premunir contraele.
 
Podemos acompanhar nitidamente, no Brasil, a marcha contraditória do nacionalismo. A princípio elesurgiu, como era de se esperar, sob a forma de tese conservadora. Homem chegando ao fim da maturidade equase que às bordas da velhice, minha vida tem sido uma contínua viagem pelos caminhos das idéias. Por. istomesmo posso acompanhar, nos meus roteiros pessoais, a influência da marcha de certas idéias na nossa geração.Grande ledor de Barrès, na mocidade, (meu culto barresiano me foi incutido por meu irmão Virgílio, admirador entusiasta do
 príncipe loreno
) eu sonhava, antes dos trinta anos, com uma reforma brasileira fundada emnacionalismo tradicionalista e conservador, embora de fundo popular. Data de então meu livro Preparação ao Nacionalismo que chegou a ser muito citado pelos integralistas. Mas cedo pressenti tudo aquilo que omovimento de Plínio Salgado tinha de falsamente nacional e de substancialmente servil ao fascismo estrangeiro.Sempre me mantive dele afastado, apesar de alguns amigos que nele possuía, e nunca aceitei aquela mistura dehisteria e palermice. De resto, o nacionalismo direitista se instalaria em pouco com o chamado Estado Novo, aoqual nunca me pude submeter também.A primeira manifestação importante do nacionalismo esquerdista ocorreu, entre nós, com a Aliança Nacional Libertadora, pouco antes do Estado Novo. No seu programa e nas suas manifestações já encontramos;embora obscurecidos pelo desejo de absorção de muitas correntes diversas, os temas que agora surgem, comcaráter mais nítido e concreto, entre os comunistas e os demais grupos extremistas da esquerda. Também nuncaaceitei a Aliança Nacional Libertadora, apesar dos amigos que nela tinha e com os quais debatia as suas tesesnas salas da sucursal carioca da Folha de Minas, jornal que Virgílio e eu dirigíamos. O choque entre os doisnacionalismos levou aos golpes frustrados de 1935 (comunista) e de 1938 (fascista). Ontem foram golpessucessivos. Amanhã serão concomitantes.O Estado Novo exibe de resto, na sua evolução, a marcha dos dois tipos de nacionalismo. Iniciado sobas teorias da direita, com a Constituição de Campos e o golpe de Dutra, ele termina com a libertação de Prestes,a farândola dos marmiteiros e os comunas reclamando a Constituinte de Vargas, em nome do nacionalismo brasileiro.Estava assim instalada entre nós a contradição, não apenas teórica, mas operativa, dos dois tipos denacionalismo, contradição / pg. 19 / que prossegue e se aprofunda constantemente, até chegarmos ao quaseimpasse de hoje.Será possível, uma vez reconhecidos os fatores acima resumi, os quais facilitam a identificação dadoença; será possível, digo dos , tentarmos o remédio, ou seja, a reunião do povo brasileiro em torno deobjetivos realmente nacionais? L o que procuraremos esclarecer, sem ilusões mas com confiança, nas linhas quese seguem.Há uma coisa que, por cima da divisão, reúne infelizmente os dois grupos extremados ou, pelo menos,grandes setores desses dois grupos no Brasil. Esta coisa é a áspera vontade de vitória a qualquer custo, digamoslogo a palavra rude mas verdadeira: esta coisa é o imoralismo.Bem sei que o imoralismo e a corrupção são fatos sociais quase inseparáveis da inflação. O fenômeno éconhecido, e tem sido estudado desde a vida romana. Mas, no Brasil, ele assume agora aspectos especiais eextremamente alarmantes que urge sejam apreciados e definidos. Nosso País está hoje como uma espécie de terra ocupada pelos setores mais atuantes dos grupos políticos em luta. Somos como uma imensa colônia, explorada pelos próprios brasileiros. Não tendo intuitos polêmicos, mas racionalmente analíticos, e com o supremo desejo de servir realmente ao meu País, não meinteressa, aqui, proceder a julgamentos ou emitir críticas individuais ou setoriais. Principalmente porque as práticas imorais decorrem muitas vezes do tipo de luta que se está travando, e estigmatizam, assim, mais umasituação do que alguns homens.A prova disto é que neste grave caso da influência do dinheiro público ou privado nas eleições (casosobre que pretendo voltar mais desenvolvidamente em próximo artigo) alguns homens reconhecidamenteausteros foram envolvidos, pelo ardor imprudente de uma luta ideológica sem quartel. A vergonhosa batalha pelo Poder se trava, às escâncaras, com dinheiro público e com dinheiro estrangeiro.Se quisermos encontrar uma saída para a divisão brasileira, manifestada pelo choque dos falsosnacionalismos da direita e da esquerda, temos de conseguir objetivos realmente nacionais. Objetivos que façamapelo e encontrem resposta na consciência nacional, e que não sejam somente armas para a conquista, não tantodo Poder, quanto das suas influências e vantagens. Para tanto, devemos julgar menos os homens
 
individualmente, na, sua mesquinha ambição e frágil cobiça, do que a situação que se vai criando, possivelmenteum pouco à revelia dos homens que de um e outro lado a exploram e se encontram nela comprometidos. O quenão / pg. 20 / podemos é continuar vendo a pátria, nossa mãe comum, assaltada pelos próprios filhos.A meu ver, a situação brasileira pode encontrar um caminho de paz e reconstrução, desde que sejam procurados os seus objetivos verdadeiramente nacionais mais urgentes, aqueles que possam ter apelo imediatosobre a consciência nacional, graças aos seus elementos autênticos, necessários e concretos. Estes objetivos, nomomento atual, me parecem ser exclusivamente dois, o primeiro que impulsiona e o segundo que executa, umsensível e outro visível, um representando o espírito e outro a vontade nacionais. Estes dois objetivos são arestauração da autoridade moral do meio poli tico, tanto no governo quanto na oposição, e o princípio de exe-cução de um plano de desenvolvimento, seja o trienal existente seja o mesmo adaptado a possíveis novascontingências.Uma das coisas mais idiotas que se pode imaginar é a suposição de que a autoridade moral é qualquer coisa de ideal e de abstrata, sem verdadeira capacidade política operativa. Muito ao contrário disto, a autoridademoral é a força básica da estabilidade dos governos, e também do prestígio das oposições. Situações corroídas pela falta de autoridade moral, como a brasileira de hoje, podem durar, às vezes longamente, mas nunca seestabilizam de forma a atuar. com eficácia no plano social. Não se trata, repito e insisto, de fazer o processo de homens, mas de vontades e intenções.Dentro de um mesmo quadro social ou de uma época histórica, com um mesmo grupo de homens, se podem operar transformações fulminantes neste sentido. Só quem não conhece a história dos sovietes ignora aimportância assumida pelo esforço de restauração moral da vida pública russa na consolidação do Poder so-viético, e de como este esforço foi bem sucedido. Quando estive em Cuba, na numerosa comitiva de JânioQuadros, pude observar, nas conversas com os jovens dirigentes revolucionários daquele país - e creio que todosos do grupo brasileiro ali presente poderão testemunhar a mesma coisa - a preocupação moralizante intensa, para o fim de prestigiar a revolução, depois da corrupção da era de Batista. Não se trata, aqui, de julgar êstessistemas de acordo com a sua moral finalística, em geral. Também penso que nenhuma ditadura opressiva é,nesse sentido, moral. O que tenho em vista, e me parece irrecusável, é acentuar a importância do moralismo, darestauração da autoridade moral, como meio ou processo de despertar a consciência nacional de um povo, emtorno de objetivos nacionais. Esta verdade elementar se revela, em toda sua força, nos exemplos que vim decitar. Outros poderiam ser lembrados. Para que não fiquemos só na órbita comunista, lembremos / pg. 21 /apenas o do General De Gaulle, em França. Até onde a austeridade moralizante do velho soldado terácontribuído para o equilíbrio nacional francês, para a recuperação da França dilacerada? Seguramente muitomais do que outros fatores acaso mais visíveis. De Gaulle não é economista e tem notório desprezo pelosassuntos de dinheiro. Pois a sua forte presença moral foi, na opinião de muitos franceses, auxílio decisivo àrestauração financeira de que ele nada entende. Em suma, só um cidadão que viva no mundo da lua pode negar o caráter realista e concreto da autoridade moral, como fator de estabilidade nacional, qualquer que seja oregime em que se viva.É urgente, é urgentíssimo um esforço de recuperação moral da vida pública brasileira. A marcha visíveldos acontecimentos mostra que, se tal não ocorrer, a divisão nacional acabará em explosão. Desde já, àsescâncaras, os grupos se preparam para vencer a golpes de dinheiro nacional ou internacional, pouco importa, público ou privado, também não interessa. Urge fazer dinheiro, continuar a corrida armamentista das caixinhascomo as superpotências continuavam, até pouco, a corrida nuclear. Mas as caixinhas podem explodir, como as bombas, se a sua fabricação não for interrompida com um gigantesco esforço de ressurgimento da autoridademoral.A prova de que a autoridade moral pode exercer uma influência decisiva na unificação da consciêncianacional, criando um forte sentimento de solidariedade entre as classes mais diversas da sociedade, pode ser encontrada, entre nós, no episódio da. eleição de Jânio Quadras. Nunca o Brasil assistiu a movimentosemelhante de união popular em um impulso de fé e de confiança. Houve uma onda de autodisciplina, dedesprendimento e de sacrifício. A maioria estava decidida a atingir ao saneamento moral da República, e a pequena minoria, que continuava céptica, ou presa aos cálculos utilitários, se encolhia, receosa. Jânio procedeu avárias sondagens, que eram quase provocações, e não encontrava resistência, senão que decidida colaboração.Posso citar um episódio que me foi relatado por um dos grandes corretores da Bolsa do Rio. Um grupo dehomens de negócios se reunira no seu escritório para ultimar uma transação já combinada. Esta transaçãocomportava acertos de contas com entidades públicas. Súbito um dos presentes observou que Jânio, já eleitomas não empossado ainda, poderia considerar irregular a transação, feita à sombra do governo. Foi o suficiente

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