Os mercadores no templo da comunicação:o consumo espiritual na cultura contemporânea
para Tony Potter
Resumo:
O relativismo moral e epistemológico que caracteriza a pós-modernidade não impediu o florescimento e oêxito de novas formas de manifestação religiosa. Porém, sua sobrevivência exige o estabelecimento deum pacto com o relativismo e com as estruturas discursivas que caracterizam a comunicação nasociedade tecnificada. O resultado é o surgimento de paradoxos conceituais, combinando, na esferareligiosa, opostos como visível-invisível, material-espiritual e relativo-absoluto.
Palavras-chave: religiosidade, relativismo, comunicação, tecnologia, pós-modernidade.O cenário acadêmico contemporâneo vive sob o domínio de um preceito filosófico cujo forma demanifestação - essencialmente dogmática - conflitua paradoxalmente com sua própria natureza. Trata-sedo relativismo, noção tão difusa e pregnante no mundo intelectual que muitos de seus defensores sequertêm consciência das implicações teóricas mais amplas daquilo que sustentam. Contudo, fazem-no com talconvicção que muitas vezes acabam por absolutizar o que deveria ser em princípio avesso a toda formade absolutismo. Alan Sokal e Jean Bricmont definem o princípio sumariamente como "qualquer filosofiaque proponha que a verdade ou falsidade de uma afirmativa é relativa a um indivíduo ou grupo social"(1999: 51). Os autores refinam a definição apontando a existência de categorias diferentes de relativismo- epistêmico, moral, estético, etc -, mas deixam claro que nossa época se encontra sob o domínioindistinto de todas elas. Em outras palavras, no império do relativismo contemporâneo tornar-se-iaimpossível estabelecer qualquer verdade última, seja no âmbito da ciência, dos juízos estéticos ou daética.Seria de se esperar que essa difusão do relativismo atingisse, de maneira especialmente aguda, a esferada religião, cuja existência depende essencialmente do estabelecimento de verdades incontestáveis apriori. Porém, algo curioso parece passar-se com a experiência religiosa na sociedade pós-industrial:paralelamente a um progressivo processo de fragmentação das instituições tradicionais, manifesta-se umcrescente sucesso das chamadas formas "alternativas" de vivência do sagrado. A desintegração dehierarquias, a valorização da experiência individual, a multiplicação de seitas e subgrupos são fenômenosque traduzem, na especificidade do campo religioso, características aparentemente constitutivas dospróprios modos de organização social da pós-modernidade. Sente-se, assim, por um lado, a força desserelativismo finissecular que favorece a multiplicidade de experiências e pontos de vista: o conflito dasdiferentes visões de mundo interdita a afirmação de uma verdade única e transparente. Por outro lado, aatual vitalidade do sagrado em sua pretensão de apontar um fundamento metafísico para o mundo choca-se frontalmente contra o império do relativismo. A cultura resiste assim a seu "desencantamento"(Entzauberung), e o sagrado chega a contaminar impiedosamente até mesmo as fortalezas da ciência eda tecnologia, instituições que em nossa civilização se propunham como a grande alternativa secular aometafísico.De fato, em um fascinante estudo sobre a presença do irracionalismo na ciência contemporânea,Dominique Terré-Fornacciari denuncia o investimento de imagens éticas e estéticas no campoepistemológico, celebrando assim o casamento simbólico de Apolo e Dioniso, onde "o racional e oirracional fazem aliança, se sustêm e se reforçam multuamente" (1991: 11). Esse estudo mostra, aliás,que a preocupação de Sokal e Bricmont com a apropriação indevida de conceitos científicos pelo discursorecente da filosofia deveria ser complementada pela preocupação com um perigo ainda maior: o dacontaminação mística do próprio campo científico, perpetrada insistentemente pelos arautos de um novoholismo tecno-ecológico, como Fritjof Capra e Gregory Bateson. A imaginação mítica desforra-se, dessemodo, na arena de seu próprio oponente. É a "vingança dos deuses" de que fala o antropólogo eentusiasta do imaginário Gilbert Durand (1970:16). Esses autores, é bom lembrar, tornaram-serapidamente sucesso de público, e o êxito de seus livros pode inclusive ser descrito em termos deconsumo massivo.Eis aí um tema ao qual os pesquisadores da comunicação não têm prestado a devida atenção. Em nossasuniversidades, os estudos de religião ainda constituem uma área marginal, dominada pela antropologia epela sociologia, mas na qual a importância dos fenômenos comunicacionais não foi suficientementedestacada. No caso da América Latina, e mais especificamente do Brasil, a relevância da teoria dacomunicação para o entendimento dessas novas formas de manifestação religiosa é patente.Transformações profundas e recentes no cenário das religiões no país levaram a antropóloga Maria LuciaMontes a falar em um "rearranjo global do campo religioso no Brasil", em que as esferas pública e privadase mesclam e os modernos meios de comunicação de massa são "postos a serviço da conquista dasalmas" (1998: 68-9). Compreender esse inusitado atributo da mídia é tarefa que se impõe à teoria dacomunicação.