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Rev. Bras. Cienc. Esporte, Capinas, v. 32, n. 1, p. 93-107, setebro 2010 93
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O presente trabalho contou co nanciaento da Facitec (odalidade bolsa de estrado). Nohouve confitos de interesses para realiao do presente estudo.
 AS CULTURAS DA EDUCAçãO FÍSICA 
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LEONARDO LImA RODRIGUES
mestre e educao ísica pelo Centro de Educao Física e Desportos da Universidade Federal doEspírito Santo (CEFD/Ues)Proessor de educao ísica da Rede municipal de Vitória (PmV/ES) (Espírito Santo – Brasil)E-ail: leoliarodrigues@gail.co
 VALTER BRACHT
Proessor titular do Centro de Educao Física e Desportos (CEFD) da Universidade Federal doEspírito Santo (Ues), Doutorado na Universidade de Oldenburg (Aleanha)Laboratório de Estudos e Educao Física (Lese/CEFD/Ues) (Espírito Santo – Brasil)E-ail: valter.bracht@pq.cnpq.br 
RESUmO
 A desestabilização das certezas proporcionou à educação ísica a sinalização da urgência em superar a busca de uma concepção e prática ofcial, verdadeira. Por isso, novas exigênciasrecaem sobre os estudos interessados na inserção desse componente curricular nas escolas, ganhando status o esorço de compreensão das decisões e das lógicas com as quais operamos proessores que vivem nos cotidianos escolares. Isso implica novas exigências/cuidados,como o risco de uma relativização radical e um aastamento, em um grau indesejado, dasquestões estruturais mais amplas. Este texto visa à exposição dos desafos enrentados, ao se afrmar a importância de compreender que tipo de culturas de educação ísica tem sidocriado nas escolas. Para tanto, apresenta e baseia-se em um estudo etnográfco de dois casosde inserção da educação ísica no cotidiano de duas escolas públicas.PALAVRAS-CHAVE: Cultura escolar; educação ísica; ação docente.
 
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 AS CULTURAS DA EDUCAçãO FÍSICA: DA “mODERNIDADE SÓLIDA” À “mODERNIDADE LÍQUIDA” A cultura da educao ísica (EF), esse conjunto de saberes e aeres, de valores e coportaentos que congura sentidos e signicados vinculados àspráticas corporais teatiadas e construídas por essa prática social no âbito dainstituio escolar, e uno exataente da sua radicao social, oi inicialente(do início até eados do século XX) orteente infuenciada pela ética do trabalhocoo ua das construões e u dos suportes da chaada “odernidade sólida”(
B
 AuMAn
, 2001). A prática social EF aia jus ao seu tepo, enaltecendo e aendosuas as ideias de vigor ísico aliado à ora de vontade, vida ascética orientada naética do trabalho (daí a condenao recorrente dos jogos de aar), de lipea easseio do corpo, de retido corporal e coportaental, e sua, coerentes coa ética e a estética tipicaente odernas. A educao ísica da populao alejavaa orao de pessoas saudáveis e aptas sicaente orientadas nos valores do trabalho, condio para a construo de ua nao tabé orte e orientada nocresciento e no desenvolviento.O descrito anteriorente oi sepre ais u ideário ne sepre seguido àrisca nos cotidianos das escolas. Esse ideário deveria ser concretiado pelos étodosginásticos, as desde logo se e presente na prática da EF ua prática corporal queposteriorente viria a subordinar a EF aos seus princípios (quase toar o seu lugar ou tornar-se sinônio de): o esporte. So conhecidos os debates entre aqueles quedeendia o esporte coo elhor eio de EF e aqueles que deendia a ginástica(uitos absorvia o esporte nos seus étodos de ginástica ou de EF). O esportecolocou-se no início do século XX no Brasil coo u indicador de oderniaodas cidades (e das naões) e seu cresciento, coo prática cultural, e sua presenaarcante na vida nacional ora eleentos que era co que crescesse suapresena na EF e, portanto, na escola. Coo ele oi recebido na EF co ressalvase receios pedagógicos, o esporte que é absorvido pela EF é o “esporte virtuoso”, na eli expresso de Lipovetsky (1994). Portanto, u esporte pensado coo ua pe-dagogia. Se ele deve ser praticado, é porque proove ua série de valores, aqueles já identicados coo proovidos e prootores da “odernidade sólida”. À edida que o esporte se oi arando no plano da cultura (corporal) cooaniestao hegeônica, a de aior peso político (e econôico), a EF oi-se ren-dendo a ele. As décadas de 1960 a 1980 do século passado ora decisivas nesseprocesso, já que a situao política undial (Guerra Fria) colocou as condiões depossibilidade para o engendraento de políticas governaentais que vincularadenitivaente a EF ao sistea esportivo, ento já orteente estruturado e
 
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escala undial. A cultura da EF vai ser a cultura esportiva (esportiviao da EF), ocultivo do esporte (ne sepre) virtuoso.O apresentado até o oento, e a correspondente opo teórico-etodológica adotada, no privilegia os processos concretos que se desdobra nocho das escolas. So generaliaões próprias de análises que tê coo objetivoabarcar tepos históricos aplos e produir ua viso sintética desses processos. A diversidade de práticas produidas no contexto de deterinada hegeonia nopode ser conteplada nesse tipo de análise (so liitaões que precisa estar claraspara nós). De qualquer ora, parece válida a arao de que, no oento atual, teos enos espao para a arao de ua EF “ocial”
1
. Assi, ebora os estudos diagnósticos ostre ainda a hegeonia doensino dos esportes nas escolas, portanto, congurando-se ua tradio bastantecristaliada, a desaeco das tradiões está ais presente no oento atual,criando espao para a construo de culturas escolares de EF que postula outrossignicados para a sua insero na vida da escola. A seguir apresentaos u estudo etnográco sobre o processo de construode duas culturas escolares de EF. Co isso, buscaos suprir ua lacuna e superar asliitaões de análises ais estruturais coo a que apresentaos na prieira partedeste texto, ocando o cotidiano escolar,
buscando compreender como são construídasconcretamente dierentes culturas escolares de EF, identifcando quais atores (de ordemcontextual, de ormação profssional etc.) atuam nessas construções
. As inoraões ora obtidas a partir da ierso de u eso pesquisador,siultaneaente, no cotidiano de duas escolas durante o período de u ano. Asobservaões ora registradas e caderno de capo e as entrevistas gravadas eposteriorente transcritas. As duas culturas escolares de EF die respeito a duas construões dessecoponente curricular e duas escolas do ensino undaental do unicípio de Vitória (ES). Nessas duas escolas, dois proessores, J e m, atua na organiaodesse coponente, escrevendo, no cotidiano e no currículo das escolas, duas edu-caões ísicas co roupagens dierentes e unões distintas, ebora apresentando, tabé, traos couns.Duas so as vertentes de trabalho que sustenta teoricaente a pesquisa,ua no âbito do currículo e outra no âbito do cotidiano. No havendo espao- tepo para o desenvolviento dessas discussões, inoraos, ao enos, que
1. Aqui nos reerios a ua concepo de educao ísica “patrocinada” pelo Estado, que na oderni-dade sólida, na viso de Bauan (2001), é entendido coo o principal responsável pela construoda orde.
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