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Anatomia do Inferno - por Henrik Sylow

Anatomia do Inferno - por Henrik Sylow

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Resenha crítica do filme da cineasta francesa Catherine Breillat "Anatomie de l'Enfer" - por Henrik Sylow (tradução: Renato Araújo)
Resenha crítica do filme da cineasta francesa Catherine Breillat "Anatomie de l'Enfer" - por Henrik Sylow (tradução: Renato Araújo)

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ANATOMIA DO INFERNO
Henrik Sylow
1
Com um profundo ritmo
techno
pulsante, Anatomia do Inferno (
 Anatomie deL’Enfer 
, 2004), o último filme de Catherine Breillat abre com um
close-up
de um jovem chupando um pinto vagarosamente entre latas de lixo num beco.Inimaginável alguns anos atrás, filmes como
Romance
(1999), da própriaBreillat,
Baise-moi 
(Foda-me, 2000) de Virginie Despenters e
Irréversible
(2003) deGaspar Noë, não mais apenas “sugerem” a sexualidade. Até mesmo o cinemaamericano foi capturado nessa mesma tendência como mostra o
The BrownBunny 
(2003) de Vincent Gallo. Mas enquanto que Noë e Gallo só provoquem emprol da badalação, tendo em vista que
Baise-moi 
é um pouco menos que umpornô ruim, Breillat trata a sexualidade com o mesmo respeito que ela tem por qualquer outro traço humano. Para ela, a sexualidade humana é o normalquanto qualquer coisa, então, por que não retratá-la?Baseada em seu romance
Pornocratie
, Breillat fez desse seu décimo filme –o filme X sua mais ambiciosa apresentão da sexualidade humana daatualidade, ou devo dizer apresentação da “desconstrução da psicosexualidade?”Breillat nunca retratou a sexualidade em um sentido amplamente pornográfico,mas em um sentido quase lacaniano. Para Breillat, as imagens e as palavras sãoimportantes, tão importantes de fato que ela termina aintrodução que fez na
 première
mundial com o seguinteconselho – ou seria um pedido? : “Vocês estão prestes aver imagens que os chocarão, ofenderão e mesmo osrepulsarão. Por favor, não riem ou se assustem. Apenasobservem o filme em silêncio, por favor.”.Originalmente, Breillat quis adaptar o romance
LaMaladie de La Mort 
, (
 A doença da Morte,
1983) para a tela,mas foram recusados a ela os direitos. Desapontada eraivosa com a classificação “adulto” (
 x rating 
) ao
Baisemoi 
de Despenters, Breillat reagiu escrevendo
Pornocratie
.Sob muitos aspectos a estória é uma alusão à
La Maladiede la Mort 
: um homem contrata uma mulher para passar várias noites com ele. Naúltima noite ele pergunta se ela acredita que alguém possa amá-lo algum dia e elaresponde que não. Na próxima manhã ela se vai.Em
 Anatomie de l’Enfer 
, uma mulher se sente atraída por um gay, mas,[após ser] rejeitada por ele, tenta o suicídio cortando os pulsos com uma lâmina debarbear, porém, ele vai atrás dela e a salva. Como se a levasse pra casa, elepermite que ela lhe faça sexo oral, mas isso o repulsa. “Eu quero que você venhae olhe pra mim de um ângulo do qual eu nunca fui vista” diz. “Isso lhe custará”, dizele. “Eu o pagarei”, ela responde. Pelas próximas quatro noites, o homem faz
1
Henrik Sylow – escritor e crítico de cinema com uma paixão para com os cineastas que ousam desafiar asconvenções, como Kim Ki-Duk, Catherine Breillat, e o não menos importante Takeshi Kitano, para o qual ocrítico dedicou uma página na web:http://www.kitanotakeshi.com/Tradução: Renato Araújo(araujinhor@hotmail.com). Original em inglês: http://www.dvdbeaver.com/film/articles/anatomyofhell.htm 
 
visitas a ela em sua casa à beira praia, parcamente decorada, onde ele é expostoa imagens revoltantes e à aspectos do sexo feminino. Isso o intriga a tal ponto queele, por fim, faz sexo com ela. Cheio de emoções conflitivas, ele tenta apagar aexperiência e memória dela com a bebida, mas ela deixou sua marca nele.Retornando a sua casa, ele a encontra na beira de um penhasco. Ao tentar seaproximar, ela se afasta e finalmente cai para a morte. Tipicamente, Breillat colocao racionalismo de lado e distila – seus críticos bradariam que ela reduz – asexualidade humana aos elementos distintos que ditam o que seus personagensdizem, no entanto, criam uma forma de lógica desconstruída quase surreal. Écentral aqui que nenhuma outra emoção além da luxúria (lust) e da repulsão estejapresente: é a dualidade da sexualidade. Ela sente luxúria (lusts) por ele, não por causa de sua aparência física, mas porque é repulsiva a ele. No mundo de Breillata sexualidade está acima do corpo; sexo e sexualidade não são necessariamentea mesma coisa.Por exemplo, na primeira noite, o homem pega o batom enquanto a mulher dorme; primeiro pinta ao redor da vagina e o ânus, então ao redor de sua boca.Aqui, Breillat sugere que todos os três são meros orifícios. Isso é posteriormenteressaltado na segunda noite, durante a qual ele penetra o dedo na vagina dela eproduz um vazamento líquido (saliva) em sua boca, e, de modo definitivo, quandoele pega o rodo (
rake
) e o insere no ânus dela enquanto dorme.
2
Reduzindo ocorpo a meros orifícios, Breillat destila o mote de que a sexualidade está paraalém do corpo, então continua a elaborar isso numa cena posterior, onde a mulher pega um absorvente interno: “Olhe. Ele tem o mesmo tamanho de um pênis, euposo inseri-lo sem nenhuma espécie de preliminar e eu não sinto nada fazendoisso. Se isso é assim, por que eu devo sentir algo fazendo sexo? Não é o coitoque importa, mas o ato em si mesmo.” Nesse sentido, datando sua mais brutaldesconstrução da sexualidade, Breillat sugere que o ato físico do sexo não temsignificado, que só o ato mental importa. A sexualidade é da mente, não do corpo.Assim como Breillat mostra que o sexo e sexualidade não estão necessariamenterelacionados, do mesmo modo ela toca no tema que a tem acompanhado desde oprimeiro filme. Em
Romance X 
, ela explora as distinções estritas entre amor esexo. Como se pode amar um homem que o te fode?” A resposta ésignificativa: “Eu não gosto de homens que me fodem.” Mais tarde, Breillat lançouesse comentário: “Eu não quero contar uma estória a respeito de pessoas que seamam, mas pessoas que se desejam”.Mas, em
 Anatomie de l’Enfer 
o desejo só é ummotivo por procuração (
by proxy 
). Para Breillat omotivo da repulsividade é o mais importante a seexplorar. Nada a respeito da repugnância (
disgust 
)no passado, em
Romance X 
, 1999) a mulher sepergunta: Por que os homens que nos sãorepugnante (disgusted) entendem-nos melhor queaqueles que nos atraem (appealed)”, em
 A ma
2
Notem, por favor, que, enquanto “rodo” (rake) em inglês também significa libertino (
libertine
), entre outrascoisas, não tem esse duplo sentido em francês, assim uma desconstrução paradigmática da cena deve ser feitaem francês e não nos termos de uma tradução. O que é importante na cena é que se trata de um objeto inseridoem um orifício. N. do A.
 
Soeur! 
(Fat Girl, 2001) a irmã pouco atraente afirma o seguinte: “Eu quero perder minha virgindade com um homem feio, assim, eu não tenho de me lembrar disso”.Breillat, em
 Anatomia de l’Enfer 
, torna isso o motivo central, como o homem gaysente repulsa pela carne feminina, “Ela é enganosa (
deceptive
) em suasuavidade”, ele diz, e ainda mais por seu sangue.Ambos, o conceito de sangue e o sangue em si mesmo, são significativos.O homem é primeiramente introduzido ao sangue dela quando corre ao seusocorro de sua tentativa de suicídio. Mais tarde,quando explora a vagina dela, seu dedo é cobertocom secreção vaginal e sobretudo sanguemenstrual, o qual ele força a si mesmo a provar.Quando o homem primeiro sente as secreções,então as cheira e por fim, as prova, Breillat força-nos a chegar a termo com nosso próprio senso derepulsão. Ela elabora isso através de reminscências(
flashbacks
). O primeiro exibe três meninos pré-adolescentes que exploram avagina de uma garotinha. O segundo exibe um menino pré-adolescente queencontra um filhote de passarinho doente, que ele acidentalmente esmaga numapolpa sangrenta. Breillat não indica (
imply 
) que a repulsão venha desses doiseventos em geral, mas oferece duas possíveis origens para a repulsão e sugereque ela está enraigada em nossa infância. Mais importante, ela estabelece osangue como um índice associado à culpa, pela incapacidade de ajudar o filhotede passarinho, é por isso que o homem ajuda a mulher no começo; e [sanguecomo] morte e vergonha, por meio da morte do filhote de passarinho.Na
 Anatomie de l’Enfer 
, enquanto explica sua menstruação, a mulher dissolve o sangue de um absorvente num copo com água, como se fizesse chá eentrega-o ao homem e diz: “em épocas passadas, o homem bebia sangue do seuinimigo para adquirir mais força. Se você realmente me odeia, você deve beber meu sangue.” Ele bebe. Finalmente, depois de ter relações vaginais com ela, elaesguicha (
gushes
) seu sangue menstrual sobre seu pênis e na área da virilha.Repelido por sua vermelhidão, ele está, contudo, intrigado por sua liquidez e asensação desse líquido em seu pênis. Pode-se ver o processo como uma intençãoparadoxical para destruir o índice de sangue, notado acima. Longe de sugerir quea homosexualidade é uma neurose, Breillat sugere que a repulsão está baseadaem eventos além do controle. Assim, pode-se vê-lo ficando excitado (
intrigued 
)pela menstruação como uma catarse. Eu conversei brevemente com Amira Casar,a personagem feminina, a respeito do que o sangue representava. Ela disse oseguinte: “Para mim o sangue é primal. Você tem de entender que de acordo coma igreja católica, a menstruação é sangue sujo, impuro. Isso é assim porque é osangue feminino. Aqui, o sangue menstrual é pagão, representa a mulher e afertilidade”.Breillat às vezes faz seus personagens de objetos que por vezes servem sópara falar os pensamentos psicosexuais dela. A
mise-en-scène
de Breillat se tornamuito surreal, quase como o Buñuel tardio: pensamentos desconstruídos, posesem vez de atuação. Em
 Anatomie de l’Enfer 
, Breillat não dirige tanto quantoarranja poses e quadros; ela é um
metteur en scène
[em francês no original –“diretor de cena”]. Não é preciso dizer, a
mise-en-scène
é controlada; na verdade

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