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Declaracao de Demissao

Declaracao de Demissao

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12/07/2012

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Declaração do professor José Maria Cardoso, representante da Área Disciplinar deGeografia da Escola Secundária Alcaides de Faria – Barcelos
“as metodologias de avaliação correspondem a construções científicas queactuam sobre «juízos de valor» de forma a transformá-los em «juízos comutilidade»”.
E. G. Guba e Y. S. Lincoln (1989)
A presente exposição de fundamentos tem por intenção solicitar a demissão do cargo deavaliador de desempenho dos docentes da Área Disciplinar que represento.Começo por dizer que esta declaração deve ser entendida como uma posição pessoal queninguém mais vincula do que eu próprio e que nada tem contra alguém em particular,nomeadamente a professora-coordenadora do departamento curricular de Ciências Geográficase Matemáticas ao qual pertenço que, tal como está determinado nas suas competências, foiquem me atribuiu o supracitado cargo. Aliás, atesto com autenticidade que, dentro da lógicafuncional invocada, as decisões e a metodologia de delegação de poderes e competênciasutilizado pela coordenadora foi um processo sensato, democrático e ajustado à realidade profissional dos elementos que compõem o departamento.Também quero referir que o motivo do protesto aqui apresentado não é pelo facto de existir uma avaliação profissional, até porque considero esta importante e necessária como forma deregular a qualidade do ensino ministrado na Escola Pública enquanto serviço universal,gratuito e garante de igualdade de oportunidades. O que ponho em causa e contesto é o paradigma, a conduta e os objectivos subjacentes à regulamentação avaliativa que nos estão aimpor. Manifesto veementemente total e absoluta discordância com o processo de avaliaçãodo desempenho dos docentes instituído pelo decreto regulamentar nº 2 / 2008 de 10 deJaneiro.Sob pena de adulterar a dignidade de ser professor dentro da dialéctica do ensinar/aprendendo, não posso nunca aceitar esta perspectiva hierarquizante e unilateral, burocrática eredutora, que concebe a avaliação como um correctivo numa espécie de produto a quantificar cujo objectivo é que alguns - poucos, os raros, alcancem o mérito, pelo demérito dos outros -muitos, os vulgares.Sempre defendi, como um princípio basilar de postura pessoal e profissional, a lisura de procedimentos, a lealdade de relacionamentos e a justeza de apreciações.Evocando a ideia deque a escola
é um território de construção do homem
e que a sua função
é mais do ser doque do sabe
e entendendoa nossa profiso como uma simbiose sinergética de1
 
conhecimento/aprendizagem e formação/educação num processo de contextualizaçãosócio-formativa, é lógico de admitir que os valores e atitudes por nós demonstrados evivenciados são referência e modelo para os nossos alunos. Temos de saber construir a escolacom uma cultura profissional colaborativa e de avaliação conjunta e com a justa percepçãode que o que se passa na escola marca a personalidade de quem formamos e a qualidade doensino que ministramos.O que o ME nos apresenta como modelo de avaliação intencionalmente subverte todos estesvalores e perigosamente abre o caminho do individual, bem ao jeito selvático do “salve-sequem puder”.Como é que nós vamos explicar aos nossos alunos que a avaliação é um processotransparente, democrático e com igualdade de oportunidades, se o que fazemos entre nós écontrário? - modelo impositivo, selectivo e nebuloso.Como é que nós vamos explicar aos nossos alunos que a avaliação é um processoformativo, que se desenvolve no tempo e por reflexão individual e colectiva, se o que fazemosintra-pares é oposto? - modelo piramidal, quantitativo e unilateral.Como é que vamos explicar aos nossos alunos que a avaliação é um processo de negociaçãoa construir, que se deve pautar por uma metodologia de contínua interacção através de umaanálise critica e de auto-confrontação entre o obtido e o pretendido, se o que fazemosconnosco é antagónico? - modelo funcionalista, burocrático e punitivo.Considerando, como é óbvio, que o conceito de avaliar não é unívoco, é hoje consensualque existe uma clara distinção entre avaliação e medição, sendo aceite genericamenteconsiderar avaliação como a investigação sistemática do valor ou mérito de um objecto,mesmo que este possa ter diferentes acepções.Tendo como base o princípio da chamada
quarta geração
da avaliação, onde o avaliador assume o papel de orquestrador num processo de negociação, bem ao jeito do paradigmaconstrutivista em que os avaliados são (co)autores de todo o decurso, entendo que a avaliaçãosó faz sentido se for integradora e de co-participação em todos os procedimentos numalógica de responsabilização repartida pelo papel que cada um desempenha para o benefíciocolectivo.Um modelo de avaliação do desempenho docente tem, em primeiro lugar, de ser conhecido ecompreendido pelos professores, e estes têm que sentir a garantia que a sua efectivaexequibilidade é uma mais-valia pessoal e profissional. Por outro lado, tem de prospectivar,realística e consensualmente, propósitos que contribuam para o progresso da qualidade dotrabalho pedagógico que vise um verdadeiro aperfeiçoamento da aprendizagem dos alunos.2
 
Avalia-se dentro de uma pedagogia interactiva em que a definição de objectivos teráobrigatoriamente de ser a melhoria das partes para um melhor sistema, contribuindodecisivamente para o desenvolvimento das escolas, do ensino e da educação.Tenho muitas dúvidas se o interesse da avaliação que nos estão a impor é esse e tenho muitacerteza que o resultado nunca esse será.Em função do exposto e considerando que…1 – …não aceito que a avaliação de desempenho da minha profissão se transforme num mero procedimento de controlo burocrático-administrativo que hierarquiza professores pelas tarefase não pelas competências, pelos níveis classificativos dos alunos e não pelos resultadossociais, pelo número de faltas a que legalmente têm direito e não pela eficiência e condições da presença, pela obediência acrítica e não pela confrontação de ideias;2 – …não pactuo com um sistema que nos quer transformar em ordeiros criadores de fichas,em sapientes fazedores de planificações, em verdugos controladores de lacunas, em zelososexaminadores de aulas e em indefectíveis classificadores de pares, ao serviço de um podeque hierarquizou a carreira para confundir a classe, contaminando e destabilizando o ambienteescolar bem ao jeito do “dividir para reinar”. Não nos retirem tempo e paciência que obste amissão digna que nos foi confiada que é a de ensinar;3 – …não consinto que a lógica estrutural de concepção que subjaz ao modelo de avaliaçãosubmetido decorra de uma estrita preocupação economicista ao estancar a progressão decarreira a cerca de 75% dos professores, na medida que ao impor quotas para as menções de“Excelentee “Muito Bom”, desvirtua qualquer perspectiva de rito assente nosconhecimentos, capacidades e competências. … a leviandade de um processo ao préstimo daconveniência do momento sem tão-pouco precaver os efeitos perversos de futuro;4 – …não me sinto convenientemente preparado para avaliar os meus colegas, até porque nãome foi oferecida qualquer formação nesse sentido. Não me sinto vocacionado para exercer ocargo de avaliador inter-pares, até porque nunca considerei ser essa uma das atribuiçõesenquanto professor. Não me sinto identificado com o modelo institucionalizado, até porqueo acredito minimamente nos seus instrumentos de operacionalizão nem na suacredibilidade da melhoria do sistema de ensino. Antes pelo contrário, tenho a convicção que aaplicação deste pseudo-modelo de avaliação, sustentado pela arbitrariedade de decisões e3

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