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Pontifícia Universidade Católica do ParanáCurso de Pós-Graduação em História Contemporânea e Relações InternacionaisTrabalho apresentado à disciplina de Direito Internacional
 – 
Prof. Dr. Augusto DergintAluna: Fernanda C. Cruzetta
 E
 NSAIO SOBRE O CASO
 E
 ICHMANN SOB A ÓTICA DO
 D
 IREITO
 I 
 NTERNACIONAL
 
I
NTRODUÇÃO
 
No ano de 1960, o ex-tenente-coronel da SS(
)
Otto Adolf Eichmann (1906-1962) é capturado no subúrbio de Buenos Aires. Na capital argentina, Eichmann vivia sob onome falso de Richard Klementz (ou Ricardo Klement) e levava uma vida bastante humilde. Nodia 11 de maio daquele ano, agentes do serviço secreto israelense sequestraram Eichmann e olevaram a Israel, onde veio a ser julgado no ano seguinte e condenado à morte, em 29 de maio de1962.Talvez o evento não tivesse chamado tanto a atenção do mundo não fosse o alarde (etransmissão) feito sobre o caso pela imprensa israelense e, sobretudo, americana.No presente ensaio, busco mostrar como o caso de Eichmann repercutiu na comunidadeinternacional. Para isso, apresento primeiramente duas obras escritas sobre o julgamento do ex-oficial nazista: uma de caráter mais sensacionalista
 – 
 
Eichmann: o assassino de milhões
, deComer Clarke
 – 
e outra de caráter acadêmico
 – 
 
Eichmann em Jerusalém
, de Hannah Arendt.Por fim, procuro fazer uma breve análise desse caso que, assim como outros casos de crime deguerra julgados após a 2ª Guerra Mundial, influenciou na responsabilização de indivíduos porcrimes internacionais.
A
VERSÃO DE
C
OMER
C
LARK
 
Como mencionado, o julgamento de Eichmann teve bastante repercussão na imprensa,tendo gerado diversas discussões no meio acadêmico e também fora dele. Possivelmente, o livro
 
2
do jornalista inglês Comer Clarke,
Eichmann: o assassino de milhões
, é fruto dessasdiscussões. Nessa obra percebemos que o discurso adotado pelo autor tende a ser um tantoquanto sensacionalista.Primeiramente, Comer Clarke relata a primeira-infância de Adolf Eichmann e a suaconvivência em família na cidade alemã onde nasceu, Solingen.
1
Em seguida, Clarke faz umabreve biografia de Hitler, para então aproximar a história de vida deste personagem à deEichmann: ambos viveram parte da infância na cidade austríaca de Linz; ambos eram filhos de
“membros respeitáveis da classe média”; quando
crianças frequentavam a igreja regularmente
(mesmo que, segundo o autor, não tenham “prestado atenção às palavras do Cristianismo”) e,
tanto Hitler quanto Eichmann, desde pequenos, interessavam-se pela guerra,
com sua exaltaçãode nacionalismo, raça e poder
.
2
Após tratar desse período Clarke revela as relações de amizadeque Eichmann estabeleceu com algumas famílias judaicas quando de suas constantes viagenspara Viena.
3
 Em meados da década de 1920, começaram a ocorrer profundas mudanças na vida deEichmann. A crise econômica se abateu na Alemanha e na Áustria, ocasionando a derrocada dosnegócios da família Eichmann. Segundo Clarke, as únicas possibilidades que lhe sãoapresentadas
 – 
no sentido de criar melhores perspectivas de vida
 – 
partem de Adolf Hitler.Eichmann passou a entrar em contato com os discursos de Hitler e, a partir de então, mudar suasatitudes com relação aos judeus, passando a vê-los como inimigos da nação. Pouco tempodepois, em 1931, tornou-se membro do Partido Nazista Austríaco.
4
 
5
 Comer Clarke segue relatando a trajetória pessoal de Eichmann e seu percurso no regimeNazista, até tornar-
se um “especialista em judeus” e ascender ao car 
go de tenente-oficial da SS
 – 
 
quando participou da “solução final” de extermínio dos judeus, em 1941.
6
 Nos capítulos finais, Clarke descreve o aprisionamento de Eichmann por tropas aliadas,em maio de 1945, e a sequência de fugas que o ex-tenente empreendeu até conseguir documentos
1
CLARKE, Comer.
Eichmann:
o assassino de milhões. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1961, p. 16-19.
2
 
 Ibid.,
pp. 20 e 21.
3
 
 Ibid.,
pp. 23 e 24.
4
 
 Ibid.,
p. 25-28.
5
De acordo com Comer Clarke, no momento em que Eichmann ingressou no Partido Nazista, ele ainda nãoalimentava um ódio profundo contra os judeus. Isso só veio a ocorrer depois de um suposto episódio em queEichmann teria apanhado, após ter sido confundido com um judeu (por conta de sua aparência), nas ruas deSalzburg. O episódio teria feito com que Eichmann culpasse os judeus não somente pelas mazelas que atingiam seupaís, mas também pelo que se abateu sobre ele próprio (Ver CLARKE, Comer.
Eichmann...,
pp. 36, 37 e 38).
6
 
 Ibid.,
p. 52-153.
 
 
3
falsos (sob o nome de Richard Klementz) e chegar à Argentina, em 1950.
7
De acordo comClarke, após inúmeras investigações e 15 anos de procura, Eichmann é capturado pelo serviçosecreto israelense a caminho de sua casa, em maio de 1960.
8
 Aparentemente, o livro foi escrito durante o julgamento de Eichmann e, como será vistoadian
te, tudo indica que Clarke o assistiu e o assimilou da forma que aqueles que „armaram‟ o
tribunal desejavam
: como um „teatro‟ em que o personagem principal é um vilão típico – 
semescrúpulos, frio e dado a vícios mundanos e, por que não, doentios; ou ainda, como coloca
Clarke: o “assassino mais frio e sádico de homens, mulheres e crianças que o mundo jamaisconheceu”
9
. O livro de Clarke possui um aspecto mais romanceado: conta a trajetória de Adolf Eichmann como se fosse uma narrativa literária, inclusive com alguns diálogos. Segundo o autor,as fontes utilizadas na elaboração de seu livro foram os inúmeros documentos por ele analisadoem arquivos na Alemanha e na Áustria e também entrevistas que realizara com membros dafamília Eichmann e com a irmã de Adolf Hitler.
10
Interessante notar que, em nenhum momento,Clarke referencia devidamente quais arquivos e documentos são esses, e quando e em quecircunstâncias realizou tais entrevistas.
A
ANÁLISE DE
H
ANNAH
A
RENDT
 
Para cobrir o julgamento Otto Adolf Eichmann, iniciado em abril de 1961, na cidade deJerusalém, a revista norte-americana
The New Yorker 
enviou sua correspondente
 – 
a renomadafilósofa alemã, de origem judaica, Hannah Arendt.A partir dos relatos produzidos sobre o julgamento para a revista da qual eracorrespondente, Arendt lançou, no ano de 1963, o livro
Eichmann em Jerusalém.
Além dadescrição de momentos do julgamento, a autora se foca na análise de outros elementos epersonagens inseridos no que Arendt chamou de
espetáculo
11
.
7
 
 Ibid.,
p. 191-201.
8
 
 Ibid.,
p. 213.
9
 
 Ibid.,
p. 13.
10
 
 Ibid.,
p. 7-10.
11
ARENDT, Hannah.
Eichmann em Jerusalém
. Um retrato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia dasLetras, 1999, p.15.
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