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Mudra e Yoga

Mudra e Yoga

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Mudrá é uma palavra sânscrita que significa gesto, selo ou matriz. Os mudrás são a fonte de uma linguagem gestual e corporal que se origina na tradição tântrica...
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Yoga e mudrá - Pedro Kupfer; Brahma Mudra, o mito da Criação - Rosana Biondillo; Mudras, os gestos do Yoga - Lúcia Maria de Oliveira Nabão; O jñána mudrá - Pedro Kupfer.
Mudrá é uma palavra sânscrita que significa gesto, selo ou matriz. Os mudrás são a fonte de uma linguagem gestual e corporal que se origina na tradição tântrica...
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Yoga e mudrá - Pedro Kupfer; Brahma Mudra, o mito da Criação - Rosana Biondillo; Mudras, os gestos do Yoga - Lúcia Maria de Oliveira Nabão; O jñána mudrá - Pedro Kupfer.

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Yoga e mudrá
Pedro Kupfer 
Um arquétipo é como um curso d‘águaque a água da vida formou com o correr dos séculos,cavando um leito fundo para si.C. G. Jung
Mudrá é uma palavra sânscrita que significa gesto, selo ou matriz. Os mudrás são a fonte de uma linguagemgestual e corporal que se origina na tradição tântrica, e está indissoluvelmente associada ao registroakáshico, o espaço sutil onde estão armazenados todos os conhecimentos e feitos da Humanidade desdeseus primórdios.Essa linguagem busca a realização de determinados estados de consciência através da simbologia e dasmensagens contidas em certos gestos arquetípicos que atuam por ressonância e associação neurológica.Tocam os estratos mais profundos do ser humano, permitindo-nos redescobrir o conhecimento escondido emcada gesto e transportar-nos aos processos de consciência a que eles aludem.Muito pouco tem se escrito sobre estes gestos. Menos ainda, sobre as formas em que eles podem utilizar-sena prática, seja de Yoga, seja de dança. Quando os mudrás são mencionados na literatura, figuram apenascomo símbolos que se referem às diferentes deidades hindus, a eventos artísticos ou religiosos, ou ainda noteatro, na dança e em cerimônias religiosas, como meios para identificar os deuses.Algo que freqüentemente deixa de ser mencionado, mas que nós estudaremos neste livro, são os aspectosenergéticos e metafísicos dos gestos. Eles influenciam a forma como percebemos a energia vital,aumentando seu caudal e canalizando-a através de diversas técnicas do Yoga, que visam a aumentar oestado geral de saúde, expandir as percepções, disciplinar a mente e aprofundar os estados de meditação.O termo deriva das raízes mud, encanto, magia, satisfação, e rati, dar, doar. Literalmente pode traduzir-secomo aquilo que outorga encanto, força ou poder. Em algumas obras aparece incorretamente traduzidocomo símbolo, porém, embora alguns mudrás sejam simbólicos, existe outro termo (yantra) para designar ossímbolos em si. Pronuncia-se sempre com a tônico.Possui três significações bem diferentes: por um lado designa os gestos feitos com as mãos; por outro, emalguns textos (principalmente de Hatha Yoga, modalidade de Yoga tântrico, surgida no século xi d.C.)designa outras técnicas fisiológicas, como ásanas (posições físicas) ou bandhas (contrações de plexos eórgãos); e ainda, no contexto do tantrismo, mudrá designa a Shaktí, a parceira com quem se pratica omaithuna, a união sexual ritual. A primeira acepção é a que nos interessa.No Yoga e na dança, a palavra mudrá designa exclusivamente os gestos feitos com mãos e dedos. Ariqueza da linguagem gestual reside no fato de que estes gestos revelam significações distintas, de acordocom o contexto e a pessoa que os percebe. Eles aludem a verdades eternas, valores, idéias, conceitos ouestados emocionais que são diferentes para cada um de nós, pois, a partir de suas múltiplas interpretações,falam diretamente ao eu profundo.O Yoga e as danças tradicionais da Índia nos revelam o significado dos gestos, em que idéias e sentimentossão manifestados por meio de símbolos. Eles formam parte do legado da Humanidade e de nossas vidas,impregnando-nos até o mais íntimo do ser, muitas vezes sem que o percebamos. Mostram-nos a unidadeessencial das coisas, as correspondências entre o mundo sensível e o mundo das idéias.O hinduísmo como um todo se nos apresenta cercado de símbolos e emblemas, representação de idéias epropriedades da Natureza que muitas vezes revelam qualidades ou poderes das suas diferentesmanifestações, sob a forma de deidades. Tudo é significativo, convergente e recíproco: o segredo está emsaber ver, decifrar o que a Natureza, o Yoga, o Tantra e as culturas chamadas primitivas nos mostram. Assim,poderemos remontar-nos à origem, resgatar a liberdade e os valores eternos do ser, dos quais fomosafastados pela tirania moral, patriarcal e religiosa das civilizações industriais e urbanas.
Mudrá, dança e mitologia hindu
Para o homem arcaico, a dança ocupa um lugar essencial na vida da comunidade; dança-se paradespertar o psiquismo coletivo da tribo, para aceder à sacralidade, para renovar as relações entre o céu e aterra através das chuvas, para promover a fertilidade ou a benevolência das forças da Natureza, paracolocar-se em sintonia com o ritmo do Cosmos.A dança indiana é tão antiga quanto o próprio Yoga, havendo-se achado estatuetas de dançarinos edançarinas em escavações arqueológicas da cultura do vale do Indus, com mais de 5000 anos deantigüidade. Para os hindus, a dança não é criação humana nem produto de uma cultura: é o fruto de uma
 
revelação de origem divina. Antiqüíssimos mitos contam que o próprio Brahmá, o criador, haveria compostoa pedido dos deuses os tratados originais considerados escrituras sagradas sobre dança, teatro e mímica.“‘Assim seja‘, disse Brahmá e dispensando Indra, o rei dos deuses, aquele que conhece a essência darealidade recorreu ao Yoga para relembrar os quatro Vedas. Então decidiu: ‘Farei um quinto Veda, que seráchamado Nátya (teatro); nele, todos os temas da mitologia e da tradição épica estarão combinados. EsteVeda levará à retidão e à justiça (dharma), à prosperidade e à plenitude (artha). Ele trará celebridade,transmitirá conhecimento, estará regulado por uma série de aforismos, mostrará ao mundo futuro qualquer possível ação, conterá o significado e de todo o conhecimento sagrado, trará à vida cada faceta das artese as fará prosperar.‘ “Então, concentrando em sua mente toda a sabedoria, o venerável Brahmá compôs oNátya Veda, escolhendo à vontade alguns dos aspectos dos quatro Vedas. Do Rig Veda ele tomou a fala,do Sama Veda, a melodia, do Yajur Veda a mímica e o movimento corporal (abhinaya) e, do Atharva Veda,a emoção estética (rasa). Nesse momento, o Nátya Veda passou a existir, vinculado como estava aosgrandes e aos pequenos Vedas. Brahmá então revelou este Veda a Bhárata (o ‘homem‘) e a seus cemfilhos.”O Bhárata Nátyam, a dança clássica, constitui-se assim em expressão humana do ritmo cósmico, portadorado conhecimento filosófico e religioso da cultura indiana. Não há nada nesta dança que não possua umadimensão sagrada: Não há pensamento, afirma Brahmá, nem conhecimento, nem arte, nem obra, nemsabedoria, nem valor, nem princípio de Yoga que não possa achar-se nesta Arte superior. Nátya Shastra.Para entender os mitos por ela narrados, precisamos antes compreender a função que a mitologia exercenesta cultura.Esta função, exemplificante, formativa e construtiva, é equivalente à que ostenta o ensino da História noOcidente. As mãos se movimentam com graça e harmonia; os gestos, trabalhados através de longos anosde intenso treinamento, evocam diferentes aspectos da sabedoria e o conhecimento, paisagens, camposde batalha, combates entre deuses e demônios, rufar de trompas e tambores, encontros amorosos e umainfindável quantidade de sentimentos e emoções, que variam segundo o contexto. Nesta manifestaçãoartística, os mudrás trabalham em três níveis: esteticamente, como expressão do que está sendo narrado;energeticamente, como movimentos feitos pelo dançarino mas que atingem a audiência; e,iconograficamente, como representações simbólicas que assumem uma significação metafísica, histórica oureligiosa.Como a maioria das danças é a recriação de sagas e mitos do hinduísmo, existe uma identificação (nyása)que se estabelece a partir dos mudrás que falam desses mitos. O dançarino sente essa identificação, que seprocessa no plano emocional e através de longos anos de preparação constante. Segundo oVishnudharmottara, tratado clássico sobre as artes, a teoria estética da dança, bem como de outrasmanifestações artísticas (principalmente a pintura e a escultura) trabalha com dois recursos, rasa e bháva.Rasas são as nove qualidades essenciais ou sentimentos: erótico, cômico, patético, furioso, heróico, terrível,odioso, maravilhoso e pacífico.Bhávas são as expressões ou inclinações da consciência, que funcionam como uma resposta natural aosrasas. Os bhávas correspondentes são: amor, alegria, piedade, raiva, energia, medo, desgosto, surpresa etranqüilidade. O dançarino deve manipular esses recursos de forma tal que, no final de uma apresentação, aplatéia fique com uma sensação de alegria e bem-estar. Os bhávas se transmitem não apenas através domovimento do tronco, braços e pernas, mas igualmente pelas mudanças sutis dos olhos, sobrancelhas ededos. A linguagem assim constituída ajuda a identificar situações, estados de ânimo ou atributos dosdiferentes deuses hindus.O panteão hindu constitui uma tentativa formidável (e bem-sucedida) de definir os distintos aspectos daenergia que anima o mundo. Sendo estas manifestações reflexo do imanifestado (que pode ser chamadoShiva, Om, Purusha ou Brahman), todas as formas de existência são em essência iguais a ele. Unidade napluralidade, dentro da mitologia hindu incluem-se todas as possibilidades: deuses, semideuses, seres celestiais,anjos, demônios e vampiros cujas sagas e peripécias serviram desde antigamente para alimentar oimaginário e os ideais de elevação e realização do seu humano.Apesar desta inegável multiplicidade, o hinduísmo não é tão politeísta quanto aparenta; tirar essa conclusãoseria tão leviano como concluir, olhando para o santoral cristão, que o cristianismo é politeísta. Desde seusmais diversos pontos de vista, o hinduísmo sempre vê no Cosmos uma unidade essencial, um campovibratório todo penetrante que ao mesmo tempo permanece imanifesto e inatingível:Armas não conseguem cortá-lo,fogo não pode queimá-lo,água não consegue molhá-lo,ventos não podem secá-lo...Ele é eterno e tudo permeia, sutil, imóvel e sempre o mesmo.
 
Bhagavad Gítá
.“Segundo a cosmologia hindu, o Universo não tem substância. A matéria, a vida e o pensamento sãoapenas relações energéticas, ritmo, movimento e atração mútua. Podemos então conceber o princípio quedá origem aos mundos, às diversas formas de ser, como um princípio harmônico e rítmico, simbolizado peloritmo dos tambores, pelo movimento da dança. Shiva, na qualidade de princípio criador, não profere omundo, dança-o.” Alain Danielou, Shiva e Dionisos.Shiva, ‘o benéfico‘, é o patrono do Yoga, das artes, da filosofia e dos empreendimentos intelectuais. Nele,encontram-se todos os aspectos contraditórios da natureza humana (talvez pudéssemos afirmar o contrário;as contradições dos humanos são espelho das de Shiva). É Pashupati, senhor das feras, Natarája, senhor dadança, Bhairava, destruidor de demônios, Dakshinamurti, o mestre perfeito, Mahadeva, o yogi nu,Ardhanaríshwara, o hermafrodita.Na mitologia purânica aparece como o dançarino cósmico, marcando com seus movimentos o ritmo doUniverso manifestado. Shiva Natarája. Bronze. Sul da Índia, s. x. Em sua representação mais conhecida (umbronze da dinastia Chola, século x) podemos vê-lo carregado de símbolos e atributos: uma caveira, a Luacrescente e as miríades de estrelas flutuam entre seus dreadlocks, longas tranças desgrenhadas das quaisigualmente emana a deusa Gangá (a que vai veloz como a correnteza), o rio Ganges. Uma serpente serve-lhe de colar. Com os pés derrota e submete o demônio Avidyá, a ignorância. Ao dançar, desprende-se doseu corpo uma aura de fogo (representada plasticamente como o círculo ígneo que o envolve), chamas detrês línguas que transformam e destroem o Universo no final de cada era cósmica (yuga).Aqui, com a presença de elementos antagônicos como o são a água e o fogo, torna-se evidente apolissemia do mito de Shiva. Jagadamba, o mundo, é “aquele que está em perpétuo movimento.” ShivaNatarája personifica esse eterno movimento, dançando e fazendo diversos gestos com seus quatro braços:com a mão superior esquerda, ele faz ardhachandra mudrá, o gesto da meia lua, dentro do qual apareceuma chama, símbolo do poder transformador que queima o véu do tempo e permite vislumbrar aeternidade; com o braço inferior esquerdo estendido como uma tromba de elefante em gajahasta mudrá,alude a seu filho, Ganesha, o guardião das portas e destruidor dos obstáculos; com a mão superior direitasegura o dhamaru, que marca o ritmo da manifestação e aniquilação do mundo, associado ao tattwa(elemento) éter, o ákásha; enquanto com a outra faz abhaya mudrá, o gesto de dissipar o medo.As danças de Shiva representam ao mesmo tempo criação e destruição: são ordenações rítmicas quecontribuem para a manifestação e a absorção do Cosmos. As três principais são: nadánta, a dança celestialem seu aspecto de Natarája, com quatro braços e a esfera de fogo; mulyalaka, chamada igualmenteavidyá ou asura, na qual ele dança sobre o demônio que representa a ignorância, derrotada; e tándava (detandu, saltar), que é a dança da morte e da destruição, na que Shiva, ao fim de cada ciclo cósmico,aniquila o mundo saltando sobre seus calcanhares, com um crânio em uma mão e uma naja na outra.Encontramos na literatura diversas descrições destas danças, carregadas de gestos manuais muito fortes esignificativos.“Tendo instalado a Mãe dos três mundos no trono de ouro ornado de pedras preciosas, o portador dovenábulo dança nos cumes do monte Kailasha, rodeado por todos os deuses. Saraswatí toca a víná, Indra aflauta, Brahmá cuida dos címbalos, marcando o compasso, Lakshmí entoa os mantras, Vishnu toca o tambor.Todos os deuses o rodeiam.“Os músicos celestes, os gnomos, as serpentes, os bem-aventurados, os realizados, os guardiães do mundo, osimortais, as ninfas do céu e todos os habitantes dos três mundos reúnem-se para ver a dança celeste e ouvir a música da orquestra divina na hora do crepúsculo.” Shiva Purána.Shiva é um destruidor, gosta dos locais de cremação, mas o que ele destrói? Não apenas os céus e a terrano final do ciclo, mas os elos que ligam cada alma individual. O que é o local de cremação? Não é o lugar onde são queimados os restos mortais, mas o coração dos seus fiéis, reduzidos a um deserto. O lugar onde oego é destruído representa o estado em que a ilusão e as ações são reduzidas a cinzas. É ali que dança oNatarája.Ánanda Kúmaraswámi,
The Dance of Shiva
, p. 75.No tándava, Shiva revela-se em sua forma terrível, como Bhairava, ou aniquilador, como Vírabhadra. Dançacom a sua consorte, Shaktí, acompanhado por gnomos e gênios aéreos (gandharvas). É uma dança viril,selvagem e frenética, acompanhada de gesticulação violenta, que se faz em cemitérios e crematórios,sobre as cinzas das piras funerárias, onde se consuma a destruição do eu. Pauta a manifestação,manutenção e destruição do Cosmos e esconde a verdade metafísica daqueles que não merecemconhecê-la, enquanto a revela àqueles que estão aptos para compreendê-la.
Extraído do livro
Mudrá, gestos de poder 
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