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EM TEMPO: SOZINHO, MAS NÃO SEM OS OUTROS*
Paulo Vidal

Em análise com Freud, o psicanalista americano Smiley Blanton, envergonhado certa vez por chegar atrasado à sessão, logo que se estirou no divã lhe disse: “Estou com medo de que meu relógio esteja um pouco atrasado. É melhor que o acerte pelo seu”. Obteve como resposta “meu relógio está usualmente certo” de um Freud que, nem por isso, – detalhe que surpreendeu Blanton – lhe “disse as horas1.

A questão do tempo para um sujeito não se regula portanto em espelho pelo relógio de algum mestre, a psicanálise procede na contramão da sincronização que rege as nossas sociedades; afinal, o caos e o pânico tomariam conta dos transportes, do mundo dos negócios e das finanças, das indústrias, caso os relógios deixassem de bater em uníssono.

Se o inconsciente para Freud ignora o tempo, é porque a medida única que conhece é o falo, só que este não provê os sujeitos de identidades sexuais, pois não existe no Outro significante que lhe corresponda, lhe faça par. Na hora do amor, que faria de dois um, os relógios nunca marcam a mesma hora, tornando sempre faltoso o encontro com o Outro sexo. Na falta da boa hora para o sexual, o sujeito faz do tempo sintoma, entendido como aquilo que não anda no compasso da medida.

Na clínica psicanalítica, a função do tempo se presentifica para o sujeito desde a urgência na demanda de análise até à pressa em concluir. Por isto, a relação entre subjetividade e temporalidade se acha no cerne do ensino de Jacques Lacan, no qual encontra uma articulação original, cujo marco é O tempo lógico e a asserção de certeza

antecipada(1945)2, escrito que polarizou o trabalho de nossa oficina O despertador e o
Real. Texto de caráter aporético, cuja opacidade parece renascer a cada leitura, exigindo
* Este texto de Paulo Vidal é fruto do trabalho desenvolvido na Oficina II: O despertador e o real, coordenada
por Paulo Vidal e Marcus André Vieira, cujo trabalho é preparatório para as XVII Jornadas Clínicas da EBP-
Rio de agosto próximo, que gira em torno do tema: Para que serve um pai? Usos e versões. Fazem parte desta
oficina, entre outros, Clarissa Ramalho, Elisa Werlang, Flávia Hasky, Gal Ferraz, Gláucia Barbosa, Marci
Dória, Rodrigo Abecassis, Rodrigo Lyra, Tatiane Grova.
1Blanton, S. Diário de minha análise com Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1975, p. 20.
2 Lacan, J. O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada. Em: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
editor, 1998, pp. 197-228.
sempr de novo um tempo para compreender, tem suas arestas demarcadas com precisão
no indispensável comentário que dele faz J.-A. Miller no curso Los usos del lapso3.
Apresento em seguida alguns dos resultados que colhi dessa leitura com outros:

1. Único nome próprio citado em O tempo lógico, Descartes atinge a certeza (“penso, logo sou”) nasMeditações depois de levar a dúvida ao extremo; ao passo que, na solução proposta por Lacan ao apólogo dos prisioneiros, a certeza é obtida de maneira antecipada, sendo posta à prova da dúvida por meio de duas escansões.

2. É que, para a lógica, o emprego do verboser na cópula lógica, sob o modo por exemplo do “todox éy”, prescinde do tempo ou o considera instantâneo. De certo modo, a lógica supõe o olhar de Deus, na sua eternidade. Ora, diversamente da implicação lógica tradicional, no tempo lógico a conclusão (“logo”) incide, retroage sobre as premissas.

3. Posto que a conclusão (antecipada) é condição de verdade das premissas, enquanto sujeito me precipito agindo em função de dados que só depois de meu ato serão (ou não) validados. O tempo lógico não é uma lógica do tempo, mas uma lógica do ato na qual o tempo toma o valor de significante.

4. O tempo lógico privilegia a função da pressa, acentuada já no escrito sobre o estágio do espelho, no qual lemos que a prematuração da criança induz esse “drama cujo impulso interno precipita-se da insuficiência para a antecipação” (1949)4. Tentando suturar a hiância entre a experiência que tem do corpo e a forma ideal percebida no espelho, a criança se precipita numa identificação com um objeto – a imagem do outro – que toma emprestado do Outro. Intuição da divisão do sujeito que, formulada a hipótese do inconsciente estruturado como uma linguagem, será concebida como a divisão do sujeito entre dois significantes, submetido portanto a uma batida temporal: ao se identificar com umS1, o sujeito desaparece sob o significante que o representa para outro significante

3 Miller, J.-A. Los usos del lapso (1999-2000). Buenos Aires: Paidós, 1ª edição, 2004.
4 Lacan, J. O estádio do espelho como formador da função do eu. Em: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
editor, 1998, p. 100.

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