Tradução de: Deleuze, Gilles (1981)
Francis Bacon: Logique de la Sensation
. Paris: auxéditions de la différence.
por Silvio Ferraz e Annita Costa Malufe – sem revisão.
3um fundo do qual surgiria a forma, nem um informal, claro-escuro, espessura da cor ondese dão as sombras, textura onde se dão as variações. Iremos rápido, no entanto. É claroque existem as Figuras-paisagens, no início da obra, como em
Van Gogh
de 1957; existetexturas extremamente nuanceadas como em
Figura em uma paisagem
ou
Figura estudo I
, de 1945; existe ainda a espessura e a densidade como
Cabeça II
, de 1949; e sobretudoexiste um período superposto de dez anos, do qual Sylvester diz ser dominado pelasombra, o obscuro e a nuance, antes de retornar ao preciso
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. Mas não se exclui queaquilo que é destino passa por contornos que parecem contradizê-lo. Pois as paisagens deBacon são a preparação daquilo que aparece mais tarde como um conjunto de curtas“marcas livres involuntárias” arranhando a tela,
traços assignificantes
destituídos defunção ilustrativa ou narrativa: donde a importância da erva, o caráter irremediavelmenteherbáceo de suas paisagens (
Paisagem
, 1952,
Estudo de figura na paisagem
, 1952,
Estudo de babuino
, 1953, ou
Duas figuras na grama
, 1954). Quanto às texturas, àespessura, à sombra e ao fluido, eles já preparam o grande processo de limpeza local,com papel chiffon, vassourinha ou escova, em que a espessura é estendida sobre umazona não figurativa. Portanto, precisamente, os dois procedimentos de limpagem local edo traço assignificante pertencem a um sistema original que não é nem o da paisagem,nem o do informal ou do fundo (bem que eles sejam aptos, em virtude de sua autonomia,a “fazer” paisagem ou a “fazer” fundo, e mesmo a “fazer” sombra).De fato, o que ocupa sistematicamente o resto do quadro são os grandes chapados de corviva, uniforme e imóvel. Finos e duros, eles têm uma função espacializante. Mas eles nãoestão sob a Figura, atrás dela ou além dela. Eles estão estritamente ao lado, ou antes emtorno, e são tomados por e em uma vista próxima, tátil ou “háptica”, enquanto Figura-ela-mesma. Nesse estágio não há nenhuma relação de profundidade ou de distanciamento,nenhuma incerteza das luzes e das sombras, quando se passa da Figura ao chapado.Mesmo a sombra, mesmo o preto, não é sombra (“tentei tornar a sombra tão presentequanto a Figura”). Se os chapados funcionam como fundo, é sobretudo em virtude de suacorrelação estrita com a Figura,
é a correlação de dois setores sobre um mesmo Planoigualmente próximo.
Esta correlação, esta conexão, é ela mesma dada pelo lugar, pelapista ou pelo redondo, que é o limite comum dos dois, o seu contorno. É isto o que dizBacon em uma declaração importante, à qual voltaremos diversas vezes. Ele distingue nasua pintura três elementos fundamentais que são: a estrutura material, o redondo-contorno, a imagem-erguida. Se pensamos em termos de escultura é preciso dizer que: aarmadura, o pedestal que poderia ser móvel, a Figura que passeia na armadura com seupedestal. Se fosse necessário ilustrar (e é preciso em certos momentos, como em
H omemcom o cachorro
de 1953), falaríamos em: uma calçada, umas poças, personagens quesaem das poças e fazem seu “passeio cotidiano”
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.
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E. I, pp.34-35.
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Citemos então o texto completo, E.II, pp.34-36: “Pensando nelas como esculturas, a maneira na qual euposso fazê-las em pintura, e de fazê-las melhor em pintura, me veio de repente ao espírito. Um tipo depintura estruturada na qual as imagens surgirão, diga-se assim, de um mar de carne. Esta idéia soaterrivelmente romântica, mas vejo isto de um modo bastante formal – e que forma será que isto tem? – Elassurgirão certamente sobre estruturas materiais – Demais figuras? – Sim, e haverá sem dúvida uma calçadaque se elevará mais alto do que na realidade, e sobre a qual elas poderão se mover, como se as imagens seelevassem de charcos de carne, se possível, de pessoas determinadas fazendo seu passeio cotidiano. Esperoser capaz de fazer as figuras surgindo de sua própria carne com seus chapéus coco e seus guarda-chuvas, e
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