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A história da Filosofia fornece uma imagem canônica e bem instituída desse campo de saber ou dessa forma de existência, que é a filosofia, que a coloca numa relação tensa com a sociedade1, mormente com a que se organiza em moldes democráticos. Essa tensão é bem representada na clássica contraposição do pensamento filosófico socrático-platônico e também do aristotélico com a sofística ou na distinção derivada que dicotomiza e piste me edo xa.
O núcleo desse confronto só pode ser enxergado a partir de uma discussão do que seja a racionalidade, o conhecimento e os tipos de finalidades a que devem estar ou não subordinados. Pressupõe, também, a existência de uma sociedade ampla como topos dadoxa, por um lado, e de uma comunidade de “sábios” destacada dessa enquanto espaço da e piste me, por outro. O ponto de diferenciação seria o saber ou mesmo o desejo específico de conhecer que caracterizaria essa comunidade, identificando-a a um modo de vida específico.
A expressão canônica dessa questão pode ser perspectivada, ainda, na clássica divisão aristotélica, pela qual se hierarquizada a atividade humana e cognoscente em prática, poética e teorética, com
como um domínio que incluía apenas as pessoas com tempo para o lazer e desfrute cultural , ampliou-se com o advento da sociedade de massas em que o elemento de compartilhamento e inclusão de todos é o entretenimento. Essa seria a via pela qual se constituiria uma sociedade inclusiva.
Quando a Filosofia assume-se como busca autotélica do conhecimento que teria compromisso, fundamentalmente, com a verdade enquanto adequação do ente com o pensamento, ela se afasta da sociedade enquanto um coletivo no qual, inegavelmente, espera-se “resultados” práticos e produtivos do conhecimento em consonância a uma diversidade de situações e relações, como tão bem percebeu a sofística.
Pensamos, pois, que essa questão é fundante em qualquer reflexão que relacione Filosofia e sociedade, não apenas como um dado histórico cujo sentido se circunscreve, em grande parte ao pensamento grego, mas especialmente enquanto uma inscrição que, de modos diversos, mantém o seu vigor contemporaneamente.
Acrescente-se que a problemática supramencionada constituiu- se em íntima relação com o importante questionamento do que é ou não possível de ensinar para o exercício da cidadania democrática, o que inclui a atividade filosófica como forma de conhecimento e modo de vida.
Com base nesse quadro teórico apresentado, procurar-se-á entender de que modo a racionalidade e o existir filosófico precisariam ser pensados para atender as expectativas de uma sociedade democrática2.
Jean-Pierre Vernant (1989) sustentou a tese de que na Grécia Antiga estabeleceu-se uma tradição de relação extremamente ambígua da Filosofia e do filósofo com a polis democrática3. Ao
mesmo tempo em que nesse tipo de organização social, o debate público, o questionamento e a argumentação constituíam-se nas regras do jogo intelectual e político - favorecendo a racionalidade filosófica -, essa tenderia a se isolar e desqualificar a experiência comum da sociedade4.
Desse modo, uma Filosofia emblemática como a platônica, por exemplo, ao exaltar o conhecimento universal e necessário de uma realidade estável em detrimento da opinião acerca do aparente, acaba, inevitavelmente, por apresentar argumentos que fortalecem visões não democráticas das relações sociais. Sabe-se que a democracia funda-se nesse saber flutuante, mutável e feito de uma diversidade de opiniões sem os quais não haveria abertura da vida política ao futuro como tempo ao qual se refere às deliberações.
Assim, o existir sócio-político não se subordinaria a uma lógica universal na qual, presente, passado e futuro fossem indiscerníveis, embora deva transcender o que é absolutamente inapreensível. Colocar-se-ia entre a universalidade identitária e fixa e o fluxo incessante, a igual distância de uma verdade fundada no definitivo e do desespero de uma completa ausência de quaisquer consensos provisórios.
Tal valorização da contingência do mundo, afirma-se contra a “onto-gnosiologia” da identidade que remonta a Parmênides e se solidifica em imagem privilegiada da filosofia na qualidade de saber que transcenderia a cosmovisão comum. A fundamentação gnosiológica do exercício de discussão e decisão dos problemas sociais numa sociedade democrática não poderá ser, também, qualquer saber ou racionalidade especializada que concedam uma competência própria a grupos particulares.
Filosofia e do seu ensino no Brasil, vistos como ameaças históricas aos regimes ditatoriais e, portanto, enquanto uma poderosa arma da democracia, especialmente no que concerne aos debates públicos e às decisões políticas.
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