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“Artesanato” — Enciclopédia Einaudi, vol.3
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ARTESANATO
Manlio Brusatin
in: Enciclopédia Einaudi, Lisboa, IN-CM, 1989, vol.3 - Artes —
Tonal / Atonal, p.177-211.
Índice do ensaio:

1. O falso artesanato
2. Utensílio e instrumento
3. O artesão inventor no mundo clássico
4. O valor do trabalho artesanal
5. O tempo e o espaço artesanal
6. A «artisticidade deficiente»

Bibliografia
1. O falso artesanato

No grande mercado do acessório e do supérfluo, os produtos correntes do
artesanato moderno são cotados por atributos que, pretendendo distingui-los dos
produtos industriais pela «qualidade», introduzem um gosto arbitrário: o típico, o
pitoresco e o espontâneo, na medida em que são provocados, representam
categorias predominantes de um comércio especial, não identificáveis com a
«natural simplicidade e beleza» do manufacto artesanal. Dizer então que o
artesanato já não existe ou está a decair poderá ser esquemático e redutor não só
em relação à variedade de peças que produz, como ramo inferior da indústria mas,
acima de tudo, se o considerarmos como um processo de trabalho livremente
programado na origem e, em seguida, condicionado e limitado.

Existe ainda artesanato em zonas limítrofes entre o campo e a cidade, à custa
da dupla função que leva o camponês a desenvolver também actividades
artesanais, nos tempos livres do trabalho nos campos. É uma disponibilidade
laboral que se serve de algumas liberdades pré-industriais mas na qual, com igual
facilidade, amadurecem as condições que vão transformar o camponês-artesão em
camponês-operário, a ser utilizado no trabalho da fábrica, com horário (parcial)
acrescentado ao horário agrícola que ele mesmo fixa livremente.

As actividades artesanais, através de um cálculo oportuno de deslocação do
próprio centro de actividades, abandonam as faixas periféricas da cidade e invadem
o campo, dispondo-se ao longo das vias de tráfego, para mais facilmente poderem
recolher esta mão-de-obra, a mais barata do mercado e a menos permeável à
formação de uma consciência de classe. Esta actividade seria definida com mais
propriedade como pequeno-industrial, pois que dispõe de um número limitado de
empregados não especializados: a distribuição da actividade laboral efectua-se em

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relação directa com o tipo de comissões, frequentemente diferenciadas em índices
que, em termos de quantidade/qualidade, só poderão ser moderadamente
calculáveis. A provisão semi-artesanal de alguns produtos acabados é alternada
com o trabalho dec o o p er a ç ã o de manufactos mais complexos, em que colaboram
outras oficinas ou pequenas empresas. A construção da casa, por exemplo, resiste
como produção artesanal e contribui para a manutenção de uma esfera artesanal
que ambiciona à indústria, embora origine, frequentemente, a regressão a uma fase
subartesanal, devido à exploração da força de trabalho da serventia ou dos
aprendizes de origem camponesa. A produção artesanal (a olaria, o trabalho da
madeira, do ferro) organiza-se com base em pequenas encomendas e ocupa uma
mão-de-obra escassa, aparentemente sujeita a ritmos de trabalho bastante lentos.
Mas este mundo produtivo agrícola-artesanal reapresenta-nos o cálculo
especulativo das origens da manufactura. Normalmente o arranque económico da
oficina artesanal, que não esconde a sua aspiração à pequena indústria, é
assinalado por uma fase típica: o momento em que o artesão principal (a passagem
manifesta-se sobretudo com o salto de gerações) se torna proprietário, escapando
ao trabalho materialmente prestado na oficina, e assume um novo papel de
vigilância administrativa no ciclo de trabalho e na venda dos produtos. Esta fase
micro-industrial — um artesanato falsificado — é tendencialmente a mais crítica no
processo laboral, onde o cálculo da acumulação pesa, de maneira relevante, sobre
o escasso número de empregados, submetidos a uma sobrecarga produtiva que
não investiu na mecanização e à autoridade paternalista de quem demonstra
também ter sido operário.

Todavia, os saltos quantitativos da produção incidem fortemente e antes de
mais nada, na renovação e na aquisição das máquinas ferramenta; isolam-se então
pequenas fases do ciclo de produção, confiadas ao trabalho domiciliário dos
próprios operários que subdividem as tarefas a desempenhar pelos vários
componentes da família (filhos, mulheres ou velhos), instruindo-os no trabalho e
nos sacrifícios comuns. A dotação de uma maquinaria simples, consignada ao
trabalhador domiciliário, é subtraída do rendimento que produz, na medida em que
o interessado investe a sua propriedade. Com estes apetrechos mínimos e com o
conjunto das peças que falta acabar, passa a ocupar-se o espaço doméstico que se
converte, parcialmente, em local de trabalho, O trabalhador domiciliário é um
subartesão que não dispõe de um verdadeiro espaço de trabalho e que não
conhece o próprio produto, ainda que aparentemente disponha do tempo que leva a
produzi-lo: a fábrica, que ele serve sem conhecer, utiliza, na realidade, todo o seu
tempo possível, tanto mais que esta falsa produção artesanal cria uma relação de
continuidade entre o operário, a família e a fábrica, com a única moral de

produzirem «juntos».

Os trabalhos domiciliários podem ser mais ou menos complexos ou
diversificados, consoante o mecanismo a que estão subordinados, devido à
interligação do artesanato com a pequena, média ou grande indústria. O trabalho
do artesão individual pode fornecer ao intermediário ou ao armazenista um produto

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acabado ou peças permutáveis que podem ser agrupadas ou confeccionadas por
outro ciclo domiciliário. Nesta sequência, o trabalho feito à mão fica valorizado pela
raridade de produtos semelhantes, readquire um valor de uso relacionado ainda
com aqu a lid a d e dos produtos artesanais e é tanto mais produtor de mais-valia
quanto a ocupação de fabricar em casa estes produtos é considerada «tempo
perdido», prestado por indivíduos que nunca tiveram relações de trabalho e se
sentem mais livres (e necessários) com um trabalho feito em casa mesmo que só
minimamente valorizado, do que com o trabalho doméstico que nunca teve valor
algum. E claro que tais prestações de trabalho, de artesanato têm apenas a
individualidade da aplicação; subsistem integradas num produto imperfeito de valor
dificilmente calculável que, por isso, desvaloriza enormemente o trabalho que o
produz: estádio último e «primitivo» da divisão do trabalho.

Encontram-Se também formas de sobrevivência artesanal no caso do operário-
artesão modestamente apetrechado, com uma oficina que oferece os produtos da
sua actividade a uma clientela restrita: são trabalhos «fabris» nos quais sobrevive
uma «virtú» artesanal quase arcaica, que resiste pela sua raridade, a par de uma
habilidade que quase parece fora do tempo. Este artesanato mede a própria
sobrevivência através do mercado e do comércio de velhos produtos artesanais
com certo valor de antiguidades, e dedica-se ao restauro ou à reprodução destes
produtos.

A produção de tipo artesanal, paralelamente à figura do artífice sobrevivente,
está ligada ao artista/operador intelectual (pintor, escultor, músico) que é um
trabalhador domiciliário como um pequeno artesão, com as suas discretas margens
de liberdade relativamente à entrega das peças ou trabalhos e um controlo sobre
os seus ínfimos meios de produção. A procura média de tais objectos provém de um
público que tem afinidades sociais com quem os produz (excepto nos casos de
empresas e mercados culturais) e o enriquecimento terciário do artista é de tipo
idêntico ao do seu cliente, ainda que o bom artesanato esteja, na opinião pública,
subordinado à arte.

Muita sugestão criadora de tipo quase-artístico, fruto de um trabalho artesanal,
resiste entre os poros da indústria, onde o desenvolvimento do maquinismo
alcançou níveis extremos de especialização na confecção dos produtos de
consumo. O objecto industrial é consistente no seu ciclo de produção, mas
extremamente frágil logo que é abandonado ao consumo (o que tradicionalmente
valoriza o produto artesanal, que habitualmente se transmite e não se consome ou
que merece atenção precisamente porque é bem consumido) e sujeita-se a cair

rapidamente em desuso.

Um outro tipo de artesanato prolifera, graças ao elevado número de indivíduos
programados para actividades de manutenção e de reparação; com o seu trabalho,
eles são operários fora da fábrica, encarregados do funcionamento e do controlo do
envelhecimento dos produtos industriais. O nosso século poderia facilmente
dispensar carpinteiros e canteiros, observava Adolf Loos num artigo de 1898 [in

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