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PROCESSO FITO-PEDOLÓGICO APLICADO NO TRATAMENTO DE EFLUENTES DOMÉSTICO
Leopoldo Paulo Rodolfo1 , Conte Maria de Lourdes2
(1) FCA/UNESP, Cx. Postal 237, 18603-970 Botucatu - SP, Brasil.(*)
(2) PG Energia na Agricultura, FCA/UNESP e UNIFAC, Botucatu - SP, Brasil
RESUMO

Como consequência da explosão demográfica, em conjunto com aquela de ordem tecnológica, a água, embora quantitativamente abundante, vem se tornando um produto cada vez mais escasso quanto a sua pronta disponibilidade, não só pelo constante aumento na sua demanda, mas sobretudo pela degradação de suas qualidades. Essa realidade tem gerado, de forma crescente, o desenvolvimento de pesquisas voltadas ao estudo de processos aplicados na sua recuperação, visando a possibilidade de sua reutilização para os mais diversos fins ou mesmo no sentido de atenuar o seu impacto ambiental.

Dentro desses propósitos, relata-se os resultados obtidos através da implantação de um sistema de tratamento de efluentes domésticos originários de uma comunidade rural, baseado na utilização de solos filtrantes de alta permeabilidade juntamente com plantas de características próprias e já conhecidas quanto a recuperação de águas degradadas, dentre elas, taboa (Typha sp.), juncus (Juncus sellovianus) e lírio do brejo (Hedychium coronarium).

Durante o período experimental, da ordem de dois anos, foi observado o comportamento do sistema através de diversas variáveis, tais como, temperaturas do ar e da água, pH, condutividade elétrica, turbidez, material sólido em suspensão, oxigênio dissolvido, demanda bioquímica de oxigênio, matéria graxa, e oito espécies químicas dissolvidas.

Com relação a demanda bioquímica de oxigênio, obteve-se, em valores médios, uma significativa redução, passando de 203 mg.l-1 na entrada para 22mg.l-1 em seu ponto de saída, cuja redução correspondeu a 89,2% da carga poluidora inicial. Para o material sólido em suspensão essa recuperação foi da ordem de 92%, enquanto que para o fósforo total obteve-se uma remoção de apenas 49,6% em relação ao teor inicial.

Considerando-se os resultados obtidos para as variáveis analisadas, pode-se deduzir que o processo empregado mostrou-se promissor quanto as possibilidades de seu emprego na recuperaão de efluentes originários do meio rural, pequenas comunidades urbanas ou mesmo no caso de agroindustrias.

Palabras clave: águas servidas, esgoto, tratamento, recuperação, fito-pedológico
INTRODUÇÃO
A água, sem qualquer dúvida, se constitui em um dos bens naturais mais importantes encontrados na
natureza, imprescindível para a vida como a se conhece.

Contudo, em função de uma expansão populacional em conjunto com outros aspectos inerentes ao comportamento da sociedade atual, o produto passou a ser motivo de sérias preocupações face a possibilidade de se ter, no futuro, uma acentuada crise de disponibilidade, decorrente não só de sua pronta quantidade, como também, e sobretudo, de sua qualidade que impediria a sua imediata reutilização antes de um prévio tratamento, por vezes complexo e oneroso para o poder público ou mesmo para o setor privado.

BERTHET (1976), já relatava que alguns países da Europa vinham con-sumindo mais água do que realmente dispunham, e que outros, a exemplo da Bélgica, Alemanha, Polônia, Ucrânia, encontravam em estado de “penúria crônica” ante a disponibi-lidade do produto. Segundo BERTHET (1976), o consumo de água, principalmente nos países industrializados, vinha sofrendo um aumento de demanda de 3 a 4% ao ano.

Dentro desse mesmo contexto, PESSOA (1989), relatava que em muitas regiões, a quantidade de água obtida através de rios e outras fontes já excedia a taxa de recarga natural. Citando previsões de outros cientistas, PESSOA (1989) salientou que, dada as atuais taxas de retirada de água, o ciclo hidrológico poderá fornecer

água potável para uma população mundial de 8 bilhões de indivíduos, número este que deverá ser atingido por volta do ano 2.020. Cabe comentar que tais previsões, até certo ponto extremas e graves, foram feitas tomando-se por princípio de que o produto deverá se encontrar disponível “onde e quando” for necessário.

O próprio Estado de São Paulo, dotado de recursos hídricos abundantes, cerca de 15 l.s-1.km-2, não disporia de suficiente quantidade de água para implantar, em sua totalidade, o plano de irrigação que havia sido delineado para o Estado.

Por falta de uma educação ambiental, que aos poucos tenta-se corrigir, muitos desperdícios e degradações do bem em pauta tem sido relatados através de diferentes meios, levando as autoridades responsáveis a definirem metas e leis que tenham por finalidade estabelecer adequadas normas de seus uso e manejo. Evolvendo esse particular, pode se citar o plano de gerenciamento dos recursos hídricos do Estado de São Paulo elaborado pelo CONSELHO ESTADUAL DE RECURSOS HÍDRICOS (1990).

Como exemplo dessas observações, ANÔNIMO (1991) cita que os aproximadamente 30 mil irrigantes paulistas absorvem cerca de 40% de toda água superficial existente no Estado, gastando, em média, de duas a três vezes mais do que seria necessário e que somente a cobrança pelo seu uso poderia racionalizar a operação. Ainda, de acordo com ANÔNIMO (1991), os irrigantes franceses, que já pagam pela quantidade de água usada, deverão pagar por uma segunda taxa inerente ao teor de nitrato existente naquela que retorna ao meio, proposta que também apresentada pelo CONSELHO ESTADUAL DE RECURSOS HÍDRICOS (1990).

Pelo que se expos, bem como pelas observações de AYERS et al. (1991), a preocupação e incertezas com relação ao futuro da qualidade e quantidade da água vem se tornando um assunto cada vez em maior destaque junto as autoridades responsáveis, classe científica e população.

Ante o quadro delineado, pode se afirmar que a classe científica respon-sável pelo assunto tem se empenhado, direta ou indiretamente, oferecendo à comunidade as mais diferentes alternativas possíveis de serem aplicadas no processo de preservação de recursos hídricos.

Dentre tais alternativas, muitas delas complexas e extremamente onerosas, a utilização de macrófitas tem se mostrado como sendo promissora, principalmente nos casos de pequenas comunidades de zonas urbanas e rurais, ou ainda em casos de indústrias com características específicas, provavelmente por se tratar de um processo eficiente, com baixos custos de instalação, operação e manutenção.

Segundo BLAKE (1982), o uso de plantas aquáticas vasculares na depuração de águas servidas de origem doméstica e industrial já vem sendo estudado desde 1955, quando foram apresentados os primeiros trabalhos sobre o tema (Seidel na Alemanha e Volverton nos Estados Unidos). No trabalho desenvolvido por BLAKE (1982) é observado que plantas do gênero Spircus, Typha, Phalaris e outros apresentam propriedades depuradoras, com possibilidades de sua aplicação no controle da carga poluidora de águas residuárias.

A taboa, em particular, tem se apresentado como sendo uma planta que responde significamente a tais objetivos, atuando de modo eficiente na retenção de espécies químicas dissolvidas, como o fósforo e o potássio, além de atuar na redução da taxa de DBO de águas servidas, conforme CONTE et al.(1992). Reduções da ordem de 85% nos valores da turbidez e de sólidos em suspensão podem ser alcançados pelo uso da taboa no tratamento de águas servidas de acordo com relato de REUTER et al. (1992). Conforme ZIRSCHKY (1986), pelos mecanismos da nitrificação e denitrificação, tem-se eficientes respostas quanto a remoção do nitrogênio total, cujo índice pode atingir cerca de 80%.

Resultados similares foram também encontrados por ROSTOM (1993), quando concluiu que um sistema simples, constituído por leitos de macrófitas aquáticas pode apresentar uma eficiência de 90% na remoção da DBO e sólidos em suspensão, mostrando-se como uma interessante alternativa para o tratamento de efluentes de comunidades rurais.

Paralelamente aos autores citados, uma série de outros, entre eles COPELLI et al. (1982), FINGES (1982), HAMMER (1992), ressaltaram a aplicação e eficiência de plantas aquáticas na recuperação da qualidade de águas degradadas.

As plantas empregadas tem por finalidade apenas de servirem como base para o desenvolvimento de microorganismos depuradores e como condutoras de oxigênio para as raízes, onde seria consumido pelos microorganismos aeróbios, de acordo com REED et al.(1988).

No controle da carga bacteriana, de um modo geral, as lagoas de decantação ou mesmo de estabilização tem apresentado eficiência satisfatória, como salientado em BERTHET (1982) e SHIMADA et al.(1987) ao lado de sistemas constituídos por filtros de areia que também atuam de modo aceitável na remoção de microorganismos presentes em águas servidas, como se salienta em MATSUMOTO (1987); PATERNIANI, (1986); e PATERNIANI (1991), entre outros. Em termos de plantas aquáticas que podem atuar nesse aspecto, RASEM (1991) observou que espécies de juncus, através da liberação de determinadas enzimas, tem poder de controlar a contaminação pela presença de coliformes fecais.

STEGEMANN (1995), em seu relato sobre processo empregado pelo Engenheiro Agrônomo Ralf Wagner, enfatizou que plantas aquáticas, como do tipo juncus, apresentam uma grande eficiência na eliminação de coliformes fecais, podendo chegar a 99%.

Dentro desse enfoque, o trabalho que se apresenta relata os resultados obtidos na recuperação de águas servidas, utilizando-se do princípio de solos filtrantes de alta permeabilidade juntamente com plantas aquáticas, tais como a taboa, juncus e lírio do brejo.

METODOLOGIA
Local

A pesquisa foi desenvolvida no Instituto Biodinâmico, localizado na Estância Demétria, que dista cerca de 20 km da cidade de Botucatu, SP. Nesse local encontrava -se implantada a estrutura vista na Fig 1, projetada por RANSEM (1991), destinando-se ao tratamento dos efluentes domésticos originários do referido Instituto.

Estrutura do sistema de tratamento

Conforme pode ser visto no esquema da Fig 1, o processo de tratamento implantado baseia-se no princípio do uso de solos filtrantes, com o emprego de areia grossa de alta permeabilidade, e plantas aquáticas que apresentam características próprias a depuração de águas servidas. Observa-se que, ainda de acordo com a figura 1, a área útil da estrututa foi de 120 m2 , projetada em função da taxa de 1 m2 por pessoa (RASEM, 1991).

Figura. 1 - Estrutura do sistema de tratamento de águas servidas
De acordo com o esquema apresentado para a estrutura empregada (Fig.1), o sistema foi constituído por três
compartimentos distintos, em relação as plantas utilizadas. No primeiro deles, com distribuição da água por

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