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LeitorComoCriador_MarcelinoPeixoto

LeitorComoCriador_MarcelinoPeixoto

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Categories:Topics, Art & Design
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10/14/2011

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O leitor como criador
Marcelino Peixoto
Vejo o artista do meu tempo como pesquisador, investigador. Maurice Merleau-Ponty fala em
artepensamento 
como um pensamento ativo ou uma açãopensante. Distingue arte e pensamento de pensamento sobre a arte. O segundoseria o lugar da crítica, que chega às artes sabendo o que são, podendo julgá-lase avaliá-las. Ao passo que a filosofia, acolhendo o trabalho dos artistas, aprendecom eles e através de suas obras alcança uma via de acesso a si própria comoum saber que não é outra coisa senão a experiência interminável da interrogação.
 
Tenho a clareza e a tranqüilidade de saber que mesmo sendo o mais objetivopossível (ainda que o máximo de objetividade seja permeado pelo meu universosubjetivo), serei compreendido de maneira singular, como naquele conto deBorges
1
, onde buscando traçar a cartografia de um território desconhecido, oprotagonista constata que os contornos e linhas por ele traçadas acabam porcorresponder aos ângulos e contornos de seu próprio rosto
.
Cada leitura que se faz do mundo (das falas, das imagens, dos sons, dospensamentos) é pautada pelo histórico pessoal de cada leitor. As dores e osamores que se vive, as delícias dos sabores que se saboreia, os livros, filmes eimagens que se viu, as vicissitudes sócio-econômicas do mundo em que se viveue se vive: tudo isso faz da leitura de cada um, uma leitura
sui-generis 
.
 
Um sujeito adâmico, puro e desvinculado das leis desse mundo, começa a deixarde existir (se é que na concepção e gestação existiu) quando tal sujeito emcontato com o seio materno inicia a construção de seus elos de ligação, passandopaulatinamente a conhecer as leis sob as quais a sociedade em que vive seestrutura.Quando da produção ou mesmo do contato com uma obra de arte uma questãome assalta de imediato: a busca de uma objetividade possível na leitura damesma. Mas seria possível tal objetividade? Será que todos nós dominamos osmesmos conhecimentos – o que possibilitaria tal diálogo de entendidos? E ainda
 
que o conhecimento fosse algo homogêneo, será que manipulamos os signos damesma maneira?A autoria não está localizada na objetividade da manipulação de “dados” comuns.Tal pensamento ligaria a arte tão somente ao universo da comunicação. E a arte,ainda que busque a semelhança, deve ser compreendida como um meio dedestruir tais automatismos perceptivos. Trabalhamos com, e apesar, dos signosdeste mundo, lidando com o que não está dado, com algo que escapa aoconhecido, ao instituído. Mas como, então, ler uma obra de arte?Objetividade é um conceito que nos diz da qualidade do que e objetivo, imparcial,não evasivo. Ao passo que a subjetividade caracteriza o que é particular,individual e que, portanto, não tem objetividade.Na abordagem de uma obra de arte, esses dois conceitos trazem-nos duasconcepções distintas acerca da verdade. A objetividade trabalha com a idéiametafísica de que existe uma Verdade universal passível de ser descoberta. Aopasso que a subjetividade trata de como o sujeito constrói
uma 
verdade.Durante muito tempo, várias correntes de pensamento no campo da filosofia e dasartes tentaram entender o processo de leitura. Essas correntes nem semprecompartilhavam as mesmas idéias e acabaram por desenvolver teorias bastantedistintas sobre esse processo. Alguns críticos acreditavam que o texto
2
seconstituiria em uma série de enigmas a serem decifrados sem, contudo, haverespaço para que o leitor completasse os enigmas apresentados de outra formaque não aquela previamente definida pelo autor.Tais teóricos acreditavam que o sentido estava no texto, que o texto eraautônomo, ou seja, existia independente do leitor. Qualquer elemento dasubjetividade do leitor que entrasse em conflito com aquilo que o autor propuseraestava errado. Dessa forma, existiria apenas uma única leitura correta para cadaobra, determinada previamente pelo autor (ou pela crítica) e o ato da leituraconsistiria em concretizar essa visão esquemática da obra.
 
1
BORGES, História Universal das Infâmias. 1978.
2
Do latim:
textus,
significando qualquer textura, obra construída.
 
 
Em síntese, num primeiro momento temos autor e obra/texto. A obra conteria umaverdade e qualquer leitura diferente de tal verdade estaria equivocada. Em talconcepção, a obra seria um equivalente de um mundo imutável, exterior a ela. Oautor dominaria as técnicas que possibilitariam a reprodução de tal verdadeexterior a obra.Tal momento estaria vinculado a idéia da arte como mimese. Como na
Poética 
,de Aristóteles (1992) a arte imita a Natureza. O valor da obra decorreria dahabilidade do artista para encontrar a melhor forma de obter o efeito imitativo.Imitar não significa reproduzir, mas representar a realidade através da obediênciaa regras para que a obra figure algum ser. O valor do artista estaria diretamenteligado à capacidade de domínio das técnicas, materiais e regras que o auxilie naexecução mais próxima possível da Natureza.O período moderno da filosofia (a partir do séc. XVII) marca a separação dohomem da natureza. As verdades que antes se deduziriam de Deus passam a serbuscadas pelo homem através do exercício da razão. Tal período marca amudança de uma concepção unitária do mundo para uma concepção dialética,formulando-se a relação sujeito-objeto. A natureza não é mais a ordem revelada eimutável da criação, mas o ambiente da existência humana.Até esse período as artes seguiam uma classificação proposta pelo historiadorromano Varrão entre artes liberais (própria dos homens livres) e artes mecânicas(própria dos trabalhado manual), que durou do século II d.C. até o século XVItendo como pano de fundo um padrão calcado na estrutura social fundada naescravidão, que despreza o trabalho manual. A partir da Renascença, com acultura humanista, que dignifica o corpo humano, assistimos a uma valorizaçãodas artes mecânicas. Além disso, à medida que o capitalismo se desenvolve, otrabalho passa a ser considerado fonte e causa de riquezas.No final do séc. XVII e a partir do XVIII, distinguiram-se as finalidades das artesmecânicas: as que tem por finalidade serem úteis aos homens (medicina,agricultura, culinária, artesanato) e aquelas cuja finalidade é o belo (pintura,

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