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AAREVOLUÇÃOREVOLUÇÃODOSDOSBICHOSBICHOS
 por George Orwell
Edição Eletrônica por Rafael Palma
Sobre a EdiçãoEste e-texto pode ser livremente:1º Distribuído com ou sem fins comerciais.2º Modificado, desde que retirado o título, onome do autor e do editor. 
Obra de domínio público e patrimônio cultural.
[ Seg 14/Ago 06 — 10:42:03 ]
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CAPÍTULO I
O Sr. Jones. proprietário da Granja do Solar,fechou o galinheiro à noite, mas estava bêbadodemais para lembrar-se de fechar também asvigias. Com o facho de luz da sua lanternabalançando de um lado para o outro, atravessoucambaleante o pátio, tirou as botas na porta dosfundos, tomou um último copo de cerveja do barrilque havia na copa, e foi para a cama, onde suamulher já ressonava.Tão logo apagou-se a luz do quarto, houve umgrande alvoroço em todos os galpões da granja.Correra. durante o dia, o boato de que o velhoMajor, um porco que já se sagrara grande campeãonuma exposição, tivera um sonho muito estranhonoite anterior e desejava contá-lo aos outrosanimais. Haviam combinado encontrar-se noceleiro, assim que Jones se retirasse. O velhoMajor (chamavam-no assim, muito embora elehouvesse comparecido a exposição com o nomede "Beleza de Willingdon") gozava de o altoconceito na granja, que todos estavam dispostos aperder uma hora de sono só para ouvi-lo.Ao fundo do grande celeiro, sobre uma espécie deestrado. estava o Major refestelado em sua camade palha, sob um lampião que pendia de uma viga.Com doze anos de idade, já bastante corpulento,era ainda um porco de porte majestoso, com um ar sábio e benevolente, a despeito de suas presas jamais terem sido cortadas. Os outros animaischegavam e punham-se a cômodo, cada qual a seumodo. Os primeiros foram os três cachorros,Ferrabrás, Lulu e Cata-vento, depois os porcos,que se sentaram sobre a palha, em frente aoestrado. As galinhas empoleiraram-se nas janelas,as pombas voaram para os caibros do telhado, asovelhas e as vacas deitaram-se atrás dos porcos eali ficaram a ruminar. Os dois cavalos de tração,Sansão e Quitéria, chegaram juntos, andandolentamente e pousando no chão os enormescascos peludos, com grande cuidado para nãomachucar qualquer animalzinho porventura ocultona palha. Quitéria era uma égua volumosa,matronal chegada à meia-idade, cuja silhuetanão mais se recompusera após o nascimento doquarto potrinho. Sansão era um bicho enorme, dequase um metro e noventa de altura, forte comodois cavalos. A mancha branca do focinho dava-lheum certo ar de estupidez e, realmente, não tinha láuma inteligência de primeira ordem, embora fossegrandemente respeitado pela retidão de caráter epela tremenda capacidade de trabalho. Depois doscavalos chegaram Maricota, a cabra branca, eBenjamim, o burro. Benjamin era o animal maisidoso da fazenda, e o mais moderado. Raras vezesfalava e, normalmente, quando o fazia, era paraemitir uma observação cínica para dizer, por exemplo, que Deus lhe dera uma cauda paraespantar as moscas e que, no entanto, seria maisdo seu agrado o ter nem a cauda nem asmoscas. Era o único dos animais que nunca ria.Quando lhe perguntavam por que, respondia nãover motivo para riso. Não obstante, sem que oadmitisse abertamente, tinha certa afeição por Sansão; normalmente passavam os domingos juntos no pequeno potreiro existente ats dopomar, pastando lado a lado em silêncio.Mal se haviam acomodado os dois cavalos quandouma ninhada de patinhos órfãos desfilou celeiroadentro, piando baixinho e procurando um lugar onde não fossem pisoteados. Quitéria protegeu-oscom a pata dianteira e os patinhos ali seaconchegaram, caindo no sono. No último instante,Mimosa, a égua branca, vaidosa e fútil, que puxavaa aranha do Sr. Jones, entrou, requebrando-segraciosamente e chupando um torrão de açúcar.Tomou um lugar bem a frente e ficou meneando asua crina branca, na esperança de chamar atençãopara as fitas vermelhas que a adornavam.Finalmente, chegou o gato, que procurou, comosempre, o lugar mais morno, enfiando-se entreSansão e Quitéria; ressonou satisfeito durante todaa fala do Major, sem ouvir uma só palavra.Todos os animais estavam presentes, excetoMoisés, o corvo domesticado, que dormia fora, numpoleiro junto à porta dos fundos. Quando o Major osviu bem acomodados e aguardando atentamente,limpou a garganta e começou:"Camaradas, ouvistes, por certo, algo arespeito do estranho sonho que tive a noitepassada. Entretanto, falarei do sonho mais tarde.Antes, as coisas a dizer. Sei, camaradas, que nãoestarei convosco por muito tempo e antes demorrer considero uma obrigação transmitir-vos oque tenho aprendido sobre o mundo. vivibastante e muito tenho refletido na solidão daminha pocilga. Creio poder afirmar quecompreendo a natureza da vida sobre esta terra,tão bem quanto qualquer outro animal. É sobre issoque desejo falar-vos."Então, camaradas, qual é a natureza da nossavida? Enfrentemos a realidade: nossa vida émiserável, trabalhosa e curta. Nascemos,recebemos o mínimo de alimento necessário paracontinuar respirando e os que podem trabalhar sãoforçados a fazê-lo até a última parcela de suasforças; no instante em que nossa utilidade acaba,trucidam-nos com hedionda crueldade. Nenhumanimal, na Inglaterra, sabe o que é felicidade oulazer, após completar um ano de vida. Nenhumanimal, na Inglaterra, é livre. A vida de um animal éfeita de miséria e escravidão: essa é a verdade nuae crua."Será isso, apenas, a ordem natural das coisas?Será esta nossa terra tão pobre que não ofereçacondições de vida decente aos seus habitantes?o, camaradas, mil vezes o! O solo daInglaterra é fértil, o clima é bom, ela pode oferecer alimentos em abundância a um número de animaismuitíssimo maior do que o existente. Só esta nossafazenda comportaria uma dúzia de cavalos, umasvinte vacas centenas de ovelhas — vivendo todosnum com uma dignidade que, agora, estão além de
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nossa imaginação. Por que, então, permanecemosnesta miséria? Porque quase todo o produto donosso esforço nos é roubado pelos seres humanos.Eis aí, camaradas, a resposta a todos os nossosproblemas. Resume-se em uma palavra Homem. O homem é o nosso verdadeiro e únicoinimigo. Retire-se da cena o Homem, e a causaprincipal da fome e da sobrecarga de trabalhodesaparecerá para sempre."O Homem é a única criatura que consome semproduzir. o leite, o põe ovos, é fracodemais para puxar o arado, não corre o suficientepara alcançar uma lebre. Mesmo assim, é o senhor de todos os animais. Põe-nos a trabalhar, dá-nosde volta o mínimo para evitar a inanição e fica como restante. Nosso trabalho amanha o solo, nossoestrume o fertiliza e, no entanto, nenhum de nóspossui mais do que a própria pele. As vacas, queaqui vejo à minha frente, quantos litros de leiteterão produzido este ano? E que aconteceu a esseleite, que deveria estar alimentando robustosbezerrinhos? Desceu pela garganta dos nossosinimigos. E as galinhas, quanto ovos puseram esteano, e quantos se transformaram em pintinhos? Osrestantes foram para o mercado, fazer dinheiropara Jones e seus homens. E você, Quitéria, diga-me onde estão os quatro potrinhos que deveriamser o apoio e o prazer da sua velhice? Foramvendidos com a idade de um ano — nunca vocêtornará a vê-los. Como paga pelos seus quatropartos e por todo o seu trabalho no campo, querecebeu você, além de ração e baia?"Mesmo miserável como é, nossa vida não chegaao fim de modo natural. Não me queixo por mimque tive até muita sorte. Estou com doze anos esou pai de mais de quatrocentos porcos. Isto é avida normal de um varrão. Mas, no fim, nenhumanimal escapa ao cutelo. Vós, jovens leitões queestais sentados a minha frente, não escapareis deguinchar no cepo dentro de um ano. Todoschegaremos a esse horror, as vacas, os porcos, asgalinhas, as ovelhas, todos. Nem mesmo oscavalos e os cachorros escapam a esse destino.Você, Sansão, no dia em que seus músculos fortesperderem a rigidez, Jones o mandará para ocarniceiro e você será degolado e fervido para oscães de caça. Quanto aos cachorros, depois develhos e desdentados, Jones amarra-lhes umapedra ao pescoço e joga-os na primeira lagoa."Não está, pois, claro como água, camaradas, quetodos os males da nossa existência têm origem natirania dos seres humanos? Basta que nos livremosdo Homem para que o produto de nosso trabalhoseja somente nosso. Praticamente, da noite para odia, podeamos nos tornar ricos e livres. Quefazer? Trabalhar dia e noite, de corpo e alma, paraa derrubada do nero humano. Esta é amensagem eu vos trago, camaradas: Revolução!Não sei quando sairá esta Revolução, pode ser daqui a uma semana, ou daqui a um século, masuma coisa eu sei, tão certo quanto o ter eu palhasob meus pés: mais cedo ou mais tarde, justiçaserá feita. Fixai camaradas isso, para o resto devossas curtas vidas! E, sobretudo, transmiti estaminha mensagem aos que virão depois de vós,para que as futuras gerações prossigam na luta,até a vitória."E lembrai-vos, camaradas, jamais deixai fraquejar vossa decisão. Nenhum argumento poderá deter-vos. Fechai os ouvidos quando vos disserem que oHomem e os animais têm interesses comuns, que aprosperidade de um é a prosperidade dos outros. Étudo mentira. O Homem não busca interesses queo os dele próprio. Que haja entre s, umaperfeita unidade, uma perfeita camaradagem naluta. Todos os homens o inimigos, todos osanimais são camaradas."Nesse momento houve uma tremenda confusão.Enquanto o Major falava, quatro ratos haviamemergido de seus buracos e estavam sentados naspatinhas de trás, a ouvi-lo. De repente, oscachorros lhes deram, pela presença, e somentedevido à rapidez com que sumiram nos buracos foique os ratos conseguiram escapar com vida. OMajor levantou a pata, pedindo silêncio.— "Camaradas — disse ele —, eis aí um ponto queprecisa ser esclarecido. As criaturas selvagens, taiscomo os ratos e os coelhos, serão nossos amigosou nossos inimigos? Coloquemos o assunto emvotação. Apresento à assembia a seguintequestão: os ratos são camaradas?"A votação foi realizada imediatamente e concluiu-se, por esmagadora maioria, que os ratos eramcamaradas. Houve apenas quatro votos contra, dostrês cachorros e do gato que, depois se descobriuvotara pelos dois lados. O Major prosseguiu:"Pouco mais tenho a dizer. Repito apenas:lembrai-vos sempre do vosso dever de inimizadepara com o Homem e todos os seus desígnios.Qualquer coisa que ande sobre duas pernas éinimigo, qualquer coisa que ande sobre quatropernas, ou tenha asas, é amigo. Lembrai-vostambém de que na luta contra o Homem odevemos assemelhar-nos a ele. Mesmo quando otenhais derrotado, evitai seus cios. Animalnenhum deve morar em nem dormir em camas,nem usar roupas, nem beber álcool, nem fumar,nem tocar em dinheiro, nem fazer comércio. Todosos hábitos do Homem são maus. E, principalmente, jamais um animal deverá tiranizar outros animais.Todos os animais são iguais."E agora, camaradas, vou contar-vos o sonho quetive a noite passada. Não sei como explicá-lo. Foium sonho sobre como será o mundo quando oHomem desaparecer. Mas lembrou-me algo que hámuito eu esquecera. Há anos, quando eu ainda umleitãozinho, minha e e as outras porcascostumavam cantar uma antiga canção da qual sóconheciam a melodia e as três primeiras palavras.Na minha infância aprendi a melodia, depois aesqueci. A noite passada, entretanto, ela me voltouà memória, O mais interessante é que me lembreitambém dos versos — os quais, tenho certeza,foram cantados pelos animais de antes, e depois
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