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Jean-Pierre Vernant
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 Fábio Duarte Joly
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 No Brasil, os estudos clássicos, em geral, e a História Antiga, em particular, têmuma história acadêmica relativamente recente, se considerarmos que foi a partir dasegunda metade do século XX que se iniciou a formação e consolidação de programasde pós-graduação nas universidades brasileiras – em que pesem desníveis regionais –,gerando investigações variadas acerca das sociedades do Antigo Oriente Próximo,Grécia e Roma. Mais recentemente se observa uma abertura do mercado editorial para apublicação de livros, oriundos de pesquisas de mestrado e doutorado, que versam sobrea Antiguidade. Contudo, ainda é inegável uma preponderância de títulos estrangeiros,sobretudo de estudiosos franceses, ingleses e norte-americanos, traduzidos para oportuguês. No caso da história grega, por exemplo, quem se dispuser a realizar umapesquisa bibliográfica, certamente deparar-se-á com o nome de Jean-Pierre Vernant.Pesquisador do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS)
 
de 1948 a1958, quando entrou para a École Pratique des Hautes Études, Vernant foi eleito para oCollège de France, em 1974, onde se aposentou em 1984, embora depois continuasseatuando como professor honorário. Faleceu em 9 de janeiro de 2007, aos 93 anos,deixando uma vasta obra, da qual limitaremos a mencionar os livros que encontraramtraduções brasileiras e respectivos anos de publicação na França:
 As origens do pensamento grego
(1962);
 Mito e pensamento entre os gregos
.
 Estudos de psicologiahistórica
(1965);
 Mito e tragédia na Grécia antiga
(1972, volume 1), cujo segundovolume (1986) tem Pierre Vidal-Naquet como co-autor;
 Mito e sociedade na Gréciaantiga
(1974);
 Métis – as astúcias da inteligência
, com Marcel Detienne (1974);
 Amorte nos olhos – a figuração do outro na Grécia antiga
(1985);
Trabalho e escravidãona Grécia antiga
(1988), com Vidal-Naquet;
 Mito e religião na Grécia antiga
(1990);
 Entre mito e política
(1996); e
O universo, os deuses, os homens
(1999). Em traduçãoportuguesa, há ainda o volume intitulado
O homem grego
(1991), organizado porVernant para uma coleção italiana.
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Publicado em LOPES, M. A.; MUNHOZ, S. J.. (Org.).
 Historiadores de nosso tempo
. São Paulo:Alameda, 2010, p. 173-192.
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Professor de História Antiga na Universidade Federal de Ouro Preto e membro do Laboratório deEstudos sobre o Império Romano (LEIR).
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Esta pequena amostra revela os três principais temas que percorrem suaprodução intelectual: a religião, o pensamento e a política. Neste artigo pretendo medeter primordialmente no lugar da política na obra vernantiana, visto que esse assuntoparece estar no centro de avaliações da contribuição desse helenista para os estudosgregos, ao se indagarem sobre a pertinência do “primado da política” como eixoestruturante de sua obra. Esse aspecto é apenas devidamente apreciado, a meu ver, casose tenha em mente como Vernant pensava as possibilidades de ação política no mundocontemporâneo. Mas, antes de chegar a esse ponto, convém iniciar com algumasconsiderações sobre o modo como concebia o trabalho científico, em termosacadêmicos e metodológicos.Há que se notar, em primeiro lugar, que seus livros, em geral, reúnem ensaios –que alguns resenhistas qualificam até de informais por seu estilo
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– com umdeterminado tema como denominador comum. Essa “informalidade” do ensaio, comogênero eleito para a transmissão de suas idéias, certamente coadunava-se com suapreocupação em atingir um público mais amplo, para além da Academia. Nesse sentido,não é casual que seus livros sejam largamente traduzidos no Brasil, ao lado dehistoriadores como seu compatriota e companheiro de escritos, Pierre Vidal-Naquet(1930-2006), e o norte-americano Moses I. Finley (1912-1986). Todos eles, à suamaneira, foram, nas palavras de Miguel Palmeira, “emblemáticos por anteciparem aemergência de um perfil novo de classicistas que ocupariam o topo da escala deprestígio dos Estudos Clássicos”. Tais pesquisadores destacaram-se ao “falar para forado círculo de especialistas e assim se tornarem como que porta-vozes da História Antigapara letrados não-especialistas da Europa e dos EUA”.
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De fato, Vernant prefere partir do presente para o passado, num movimentoenunciado de forma explícita, como na introdução a
 Mito e religião na Grécia antiga
,quando afirma que “no ‘retorno do religioso’ com que cada um hoje se surpreende, pararegozijar-se ou para deplorá-lo, o politeísmo dos gregos não tem lugar. (...) Do
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Por exemplo, ao resenhar as edições norte americanas de
 Mito e Tragédia
e
 Mito e Sociedade
, JamesRedfield observou que: “Os ensaios de Vernant parecem mais aspectos de uma meditação contínua; elessão conformados não tanto por um método ou conjunto de conceitos, mas também por sua personalidade.Seu ponto forte, desde
 Les origines
, tem sido o ensaio informal, um pouco divagador, em que nosapresenta como vê a realidade diante de si; ele não reúne evidências para provar algo, mas cita o materiala fim de ilustrar suas idéias. Não há pontos de partida ou de chegada claros”. REDFIELD, James. J.-P.Vernant: Structure and History (Review article).
 History of Religions
, 31, 1, 1991, p. 70-71.
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PALMEIRA, Miguel Soares. A nova “economia antiga”:
 
notas sobre a gênese de um modelo. In:PIRES, Francisco Murari & SUANO, Marlene (Org.).
 Antigos e Modernos: diálogos sobre a (escrita da) História
. São Paulo: Alameda, 2009, p. 162 e 166.
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paganismo ao mundo contemporâneo, foi o próprio estatuto da religião, seu papel, suasfunções que mudaram, ao mesmo tempo em que seu lugar no indivíduo e no grupo”.
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 Daí que, ao optar por um ensaio, evitava “discussões entre especialistas” ou adentrarnuma “controvérsia erudita”. Sua ambição era “propor uma chave de leitura paracompreender a religião grega”.
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Na construção dessas chaves de leitura entram nãoapenas um domínio da bibliografia especializada e erudita – que ele de modo algumdescartava –, mas sobretudo o arsenal teórico das Ciências Humanas e Sociais, como aAntropologia, a Sociologia, a Psicologia Histórica etc., e, também, a colaboração deoutros pesquisadores, uma segunda característica marcante de sua produção.Pierre Vidal-Naquet aparece nos livros de Vernant como o companheiro maisassíduo, mas o próprio Vernant fez questão de apresentar sua obra como produto de umgrupo. Em discurso pronunciado em 18 de dezembro de 1984, no CNRS, por ocasião dorecebimento de medalha de ouro, frisou esse ponto, ao rememorar sua trajetória:Fui pesquisador por dez anos. Trabalhava sozinho em bibliotecas, lendotodos os textos gregos que podia para tentar me tornar um helenista. (...)Depois dos anos sessenta, tudo mudou: não havia mais um Vernantisolado; havia Vernant e seu grupo, a equipe Vernant, que alguns, noexterior, chamaram de escola de Paris (...) Nem minha própria obra, nemminha vida, nem minha pessoa podem ser separados da equipe.
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 Em outro texto, o autor assevera da seguinte maneira como enxergava suaposição de liderança acadêmica (a qual, diga-se de passagem, lembra o cerne de suadefinição da
 polis
grega – que veremos mais adiante –, em que reina a igualdade semdescartar as diferenças entre os indivíduos):
No Centro Louis Gernet, grupo de pesquisas que fundei em 1964 e que dirigipor vinte anos, tratava-se de criar uma comunidade cuja hierarquia não fossenem imposta nem institucionalizada fora da própria vida do grupo. Foi o quesempre tentei fazer com as pessoas que trabalharam comigo. Eu era o maisvelho, o fundador do grupo; muitos daqueles que dele participavam haviam sidomeus alunos, mas eu nunca lhes impus nada, acredito, porque sempre osconsiderei como meus iguais. E é porque eram meus iguais que eram diferentes
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VERNANT, Jean-Pierre.
Mito e religião na Grécia antiga
. Trad. de Constança Marcondes César.Campinas: Papirus, 1992, p. 9.
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 Idem
, p. 17.
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VERNANT, Jean-Pierre.
Entre mito e política
. Trad. de Cristina Murachco. São Paulo: Edusp, 2001, p.48-49. Neste livro Vernant recolhe vários textos que permitem uma visualização de sua trajetória políticae intelectual. Daí suas recorrentes citações neste artigo por ser uma fonte obrigatória para o estudo doperfil desse intelectual. Para um estudo geral sobre a obra de Vernant, o leitor pode também consultarBELEBONI, Renata Cardoso.
 A originalidade do olhar de Jean-Pierre Vernant sobre a Grécia: diálogos,inovações e atualidade
. Dissertação de Mestrado, IFCS-Unicamp, 2001, 150p., disponível
on-line
nobanco de dissertações e teses da Unicamp.
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