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Língua Portuguesa e Cultura em Timor-Leste

Língua Portuguesa e Cultura em Timor-Leste

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Published by Nuno Carlos Almeida
O facto de, num país onde convivem comunidades linguísticas diversas, ser atribuído o estatuto de língua oficial a determinada língua é um fator incontornável de mudança da cultura comum às várias comunidades, que passam a ter interesse e necessidade de aprender e usar essa mesma língua, que, de outra forma, não faria parte do seu repertório linguístico.
O facto de, num país onde convivem comunidades linguísticas diversas, ser atribuído o estatuto de língua oficial a determinada língua é um fator incontornável de mudança da cultura comum às várias comunidades, que passam a ter interesse e necessidade de aprender e usar essa mesma língua, que, de outra forma, não faria parte do seu repertório linguístico.

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11/01/2011

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Língua Portuguesa e Cultura em Timor-Leste
1
 
Nuno Carlos de Almeida
0.
 
Introdução
O facto de, num país onde convivem comunidades linguísticas diversas, ser atribuído o estatuto delíngua oficial a determinada língua é um fator incontornável de mudança da cultura comum às váriascomunidades, que passam a ter interesse e necessidade de aprender e usar essa mesma língua, que,de outra forma, não faria parte do seu repertório linguístico. No caso de Timor-Leste, em que a línguaportuguesa é uma língua verdadeiramente importada, ou seja, que não teve a sua origem emnenhuma das comunidades linguísticas nacionais nem tem, no momento em que é considerada línguaoficial, qualquer espaço visível de uso dentro das fronteiras políticas ou sequer próximo destas, a suacontribuição para a mudança cultural será porventura mais acentuada. Para mais, o meio encontradopelas instâncias governativas para, a curto prazo, concretizar o ensino da língua oficial a professores,funcionários públicos e governantes, iniciando assim a sua difusão nacional, foi recorrermaioritariamente a professores portugueses, que, por serem falantes de língua portuguesa, darão agarantia de um bom trabalho, mas que, por pertencerem a outra cultura, poderão ser, também elespróprios, agentes da mudança cultural.Da leitura do parágrafo anterior depreende-se que existe uma relação entre língua e cultura. Ao longodeste artigo, será explorada de forma breve esta relação que existe nos dois sentidos: a língua estápresente na cultura, mas a cultura também está presente na língua.Aceitando-se a veracidade da existência de uma dinâmica de mudança cultural desencadeada pelaadoção da língua portuguesa como uma língua oficial e de instrução em Timor-Leste, deve haver umatentativa de compreensão da profundidade e do âmbito dessa mudança para que possam serconscientemente tomadas medidas no sentido de evitar que a rápida difusão da língua se torneagressiva para a cultura e a identidade timorenses. De outra perspetiva, partindo do princípio de queao português europeu está associada uma cultura que é portuguesa, ao português do Brasil estáassociada uma cultura que é brasileira e a cada uma das variedades da língua portuguesa está
1
Originalmente, este texto foi escrito em 2007, em Lospalos – Timor-Leste, onde fui formador / cooperante,integrado no Projeto de Reintrodução da Língua Portuguesa. Posteriormente, com algumas alterações, serviu paraa elaboraçãode um dos capítulos da minha dissertação de mestrado em Língua e Cultura Portuguesa – Ensino dePLE / PL2, apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 2008, entretanto publicada, já em2011, pela editora LIDEL, sob o título
 Língua Portuguesa em Timor-Leste: ensino e cidadania
.
 
 
Língua Portuguesa e Cultura em Timor-LesteNuno Carlos de Almeida
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 associada uma cultura própria, formando todas em conjunto a cultura da Lusofonia, centrada nalíngua
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, é necessário, no processo de importação do idioma português em Timor-Leste, pensar nomodo de adaptar a língua portuguesa à cultura timorense, atenuando o possível atrito resultante docontacto entre estes dois elementos.Para além destes aspetos, cabem também aqui algumas considerações sobre uma questão que derivada situação política específica de Timor-Leste: foi apenas em 1999
 
que teve início o processo dedemocratização, com a realização de um referendo para a independência e a administração transitóriado território pela UNTAET
3
sob tutela das Nações Unidas. A cessação do mandato desta administração,em 2002, marcou a passagem definitiva de um território anteriormente administrado pelosportugueses e posteriormente ocupado militarmente pelos indonésios a um país soberano edemocrático
4
. Uma vez que a língua portuguesa aparece ligada a este processo, sendo adotada comolíngua oficial, ela torna-se simultaneamente língua da democracia, sendo, portanto, pertinenteenvolver os valores da democracia e da cidadania no processo de ensino do português.
1.
 
Considerações teóricas: cultura e língua
Neste momento, é necessário esclarecer de forma breve a aceção de
cultura
a usar ao longo do texto.Não pretendendo entrar na definição propriamente dita de cultura, o que envolveria uma perspetivaevolutiva do conceito e uma apresentação das suas muitas, mais ou menos distintas, definições,considera-se serem suficientes algumas referências elucidativas para que seja compreensível a teseexposta.O termo
cultura
é usado na perspetiva da Sociologia. Sempre que aqui é usada a palavra
cultura
, estanão se refere às atividades mais nobres ou elevadas do espírito, como a arte, a literatura, a música oua pintura. Ou melhor, refere-se também a essas atividades mas não só. BYRAM, GRIBKOVA & STARKEYdizem de um modo simples que
o conceito de ‘cultura’ passou, ao longo dos tempos, da ênfase na
2
A propósito de Lusofonia, CRISTÓVÃO descreve este conceito como “o conjunto de três círculos concêntricosde valores, reunidos pela língua comum”, a língua portuguesa. Para se perceber o conceito de Lusofonia, consulte-se CRISTÓVÃO, Fernando (2005), «Lusofonia», in
 Dicionário Temático da Lusofonia
, Lisboa, Texto Editores,pp. 652-656.
3
UNTAET: United Nations Transitional Administration in East Timor.
4
Cf. Faculdade de Arquitectura – Universidade Técnica de Lisboa e GERTIL – Grupo de Estudos deReconstrução de Timor-Leste (2002),
 Atlas de Timor Leste
, Lisboa, Lidel.
 
Língua Portuguesa e Cultura em Timor-LesteNuno Carlos de Almeida
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literatura, na arte e na filosofia para a cultura como um modo de vida comum
5
. Esse conceito
corresponde a uma estrutura complexa e interdependente de conhecimentos, de códigos, derepresentações, de regras formais ou informais, de modelos de comportamento, de valores, deinteresses, de aspirações, de crenças, de mitos
6
.Vejam-se as seguintes definições de
cultura
, que apresentam bem o conceito, tal como ele é assumidoneste artigo:
 Na antropologia social, «cultura» […] inclui não apenas as atividades consagradas a refinar a mente, mas também todas as atividades simples e ordinárias da vida: cumprimentar, comer,mostrar ou esconder emoções, manter uma certa distância física dos outros, fazer amor, oumanter a higiene do corpo.
  A cultura refere-se aos modos de vida dos membros de uma sociedade, ou de grupos pertencentes a essa sociedade; inclui o modo como se vestem, as suas formas de casamento e de família, os seus padrões de trabalho, cerimónias religiosas e atividades de lazer. […] Quando ossociólogos falam do conceito de cultura, referem-se a esses aspetos das sociedades humanas quesão aprendidos e não herdados. […] A cultura de uma sociedade engloba tanto os aspetosintangíveis – as crenças, as ideias e os valores que constituem o teor da cultura – como osaspetos tangíveis – os objetos, os símbolos ou a tecnologia que representam esse conteúdo
8
.
Também o QECR
9
, ao abordar as competências gerais do aprendente, começa por caracterizar oconhecimento declarativo (saber), que inclui o conhecimento do mundo, o conhecimento socioculturale a consciência intercultural. Ao fazê-lo, aponta exemplos de aspetos distintivos característicos de umadeterminada sociedade e da sua cultura: a vida quotidiana; as condições de vida; as relaçõesinterpessoais (incluindo relações de poder e solidariedade); os valores, crenças e atitudes; linguagemcorporal; as convenções sociais; comportamentos rituais. O conhecimento destes aspetos culturais e acompreensão da sua diferença em diferentes grupos, produzem uma tomada de consciência
5
BYRAM, Michael, GRIBKOVA, Bella, STARKEY, Hugh (2002),
 Developing the Intercultural Dimension in Language Teaching – A Practical Introduction for Teachers
, Estrasburgo, Conselho da Europa, p. 9 [minhatradução] [
‘cultura’
em itálico no original].
6
PEROTTI, António (2003),
 Apologia do Intercultural
, 2ª ed., (traduzido por Maria Helena Oliveira, traduzido apartir da edição em língua francesa
Plaidoyer pour l’Interculturel
, Conselho da Europa, 1994), Lisboa,Secretariado Entreculturas, Presidência do Conselho de Ministros, Ministério da Educação, p. 48.
7
HOFSTEDE, Geert (2003),
Culturas e Organizações – Compreender a nossa programação mental
, 1ª ed., 2ªreimpressão (tradução de António Fidalgo, traduzido a partir da 1ª ed. em língua inglesa, 1991, ISBN 0-07-707474-2), Lisboa, Edições Sílabo, p. 19.
8
GIDDENS, Anthony (2007),
Sociologia
, 5ª ed. (tradução de Alexandra Figueiredo e outros, traduzido a partir da4ª ed. em língua inglesa,
Sociology
, 2001), Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, p. 22.
9
QECR:
Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas
, elaborado pelo Conselho da Europa, no âmbitodo projeto “Políticas Linguísticas para uma Europa Multilingue e Multicultural”

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