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A imanência: uma vida...
Gilles DeleuzeO que é um campo transcendental? Ele se distingue da experiência, na medida em quenão remete a um objeto nem pertence a um sujeito (representação empírica). Ele seapresenta, pois, como pura corrente de consciência a-subjetiva, consciência pré-reflexivaimpessoal, duração qualitativa da consciência sem um eu. Pode parecer curioso que otranscendental se defina por tais dados imediatos: falaremos de empirismotranscendental, em oposição a tudo que compõe o mundo do sujeito e do objeto. Háqualquer coisa de selvagem e de potente num tal empirismo transcendental. Não setrata, obviamente, do elemento da sensação (empirismo simples), pois a sensação não émais que um corte na corrente da consciência absoluta. Trata-se, antes, por maispróximas que sejam duas sensações, da passagem de uma à outra como devir, comoaumento ou diminuão de poncia (quantidade virtual). Senecessário, comoconseqüência, definir o campo transcendental pela pura consciência imediata sem objetonem eu, enquanto movimento que não começa nem termina? (Até mesmo a concepçãospinozista dessa passagem ou da quantidade de potência faz apelo à consciência).A relação do campo transcendental com a consciência é, entretanto, uma relação tão-somente de direito. A consciência só se torna um fato se um sujeito é produzido aomesmo tempo que seu objeto, ambos fora do campo e aparecendo como “transcendentes”. Ao contrário, na medida em que a consciência atravessa o campotranscendental a uma velocidade infinita, em toda parte difusa, não há nada que possarevelá-la.
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Ela não se exprime, na verdade, a não ser ao se refletir sobre um sujeito quea remete a objetos. É por isso que o campo transcendental não pode ser definido por suaconsciência, a qual, ainda que lhe seja co-extensiva, subtrai-se a qualquer revelação.O transcendente o é o transcendental. Na auncia de consciência, o campotranscendental se definiria como um puro plano de imanência, já que ele escapa a todatranscendência, tanto do sujeito quanto do objeto.
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A imanência absoluta existe em si-mesma: ela não existe em algo, ela não é imanência
a
algo, ela não depende de umobjeto e não pertence a um sujeito. Em Spinoza, a imanência não é imanência
à
substância, mas a substância e os modos existem na imanência. Quando o sujeito e oobjeto, que caem fora do campo de imanência, são tomados como sujeito universal ouobjeto qualquer
aos quais
a imanência é também atribuída, trata-se de toda umadesnaturação do transcendental que não faz mais do que reduplicar o empírico (como emKant), e de uma deformão da imanência que se encontra, eno, contida notranscendente. A imanência não se reporta a um Algo como unidade superior a todas ascoisas, nem a um Sujeito como ato que opera a ntese das coisas: é quando aimanência não é mais imanência a nenhuma outra coisa que não seja ela mesma que sepode falar de um plano de imanência. Assim como o campo transcendental não se definepela consciência, o plano de imanência não se define por um Sujeito ou um Objetocapazes de o conter.Pode-se dizer da pura imanência que ela é UMA VIDA, e nada diferente disso. Ela não éimanência à vida, mas o imanente que não existe em nada também é uma vida. Umavida é a imanência da imanência, a imanência absoluta: ela é potência completa,beatitude completa. É na medida em que Fitche ultrapassa as aporias do sujeito e doobjeto que ele, em sua última filosofia, apresenta o campo transcendental como umavida que não depende de um Ser e não está submetido a um Ato: consciência imediataabsoluta, cuja atividade mesma não remete mais a um ser, embora não cesse de sesituar em uma vida.
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O campo transcendental torna-se então um verdadeiro plano deimanência que reintroduz o spinozismo no mais profundo da operação filosófica. Não éuma aventura semelhante que sobrevém a Maine de Biran, em sua “última filosofia” (aquela que ele estava demasiadamente fatigado para levar a bom termo), quando eledescobria, sob a transcendência do esforço, uma vida imanente absoluta? O campo
 
transcendental se define por um plano de imanência e o plano de imanência, por umavida.O que é a imanência? uma vida... Ninguém melhor que Dickens narrou o que é
uma
vida,ao considerar o artigo indefinido como índice do transcendental. Um canalha, um mausujeito, desprezado por todos, está para morrer e eis que aqueles que cuidam delemanifestam uma espécie de solicitude, de respeito, de amor, pelo menor sinal de vida domoribundo. Todos se aprestam a salvá-lo, a tal ponto que no mais profundo de seu comao homem mau sente, até ele, alguma coisa de terno penetrá-lo. Mas à medida que elevolta à vida, seus salvadores se tornam mais frios, e ele recobra toda sua grosseria, todasua maldade. Entre sua vida e sua morte, há um momento que não é mais do que aquelede uma vida jogando com a morte.
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A vida do indivíduo deu lugar a uma vida impessoal,mas singular, que despreende um puro acontecimento, liberado dos acidentes da vidainterior e da vida exterior, isto é, da subjetividade e da objetividade daquilo queacontece.
Homo tantum
do qual todo mundo se compadece e que atinge uma espécie debeatitude. Trata-se de uma hecceidade, que o é mais de individuação, mas desingularização: vida de pura imanência, neutra, para além do bem e do mal, uma vezque apenas o sujeito que a encarnava no meio das coisas a fazia boa ou má. A vida detal individualidade se apaga em favor da vida singular imanente a um homem que nãotem mais nome, embora ele não se confunda com nenhum outro. Essência singular, umavida...Não deveria ser preciso conter uma vida no simples momento em que a vida individualconfronta o morto universal.
Uma
vida está em toda parte, em todos os momentos queeste ou aquele sujeito vivo atravessa e que esses objetos vividos medem: vida imanenteque transporta os acontecimentos ou singularidades que não fazem mais do que seatualizar nos sujeitos e nos objetos. Essa vida indefinida o tem, ela própria,momentos, por mais próximos que estejam uns dos outros, mas apenas entre-tempos,entre-momentos. Ela não sobrevém nem sucede, mas apresenta a imensidão do tempovazio no qual vemos o acontecimento ainda por vir e já ocorrido, no absoluto de umaconsciência imediata. A obra romanesca de Lernet Holenia põe o acontecimento em umentre-tempo que pode devorar regimentos inteiros. As singularidades ou osacontecimentos constitutivos de
uma
vida coexistem com os acidentes d’ 
a
vidacorrespondente, mas não se agrupam nem se dividem da mesma maneira. Eles secomunicam entre si de uma maneira completamente diferente da dos indivíduos. Parecemesmo que uma vida singular pode passar sem qualquer individualidade ou semqualquer outro concomitante que a individualize. Por exemplo, os recém-nascidos sãotodos parecidos e não têm nenhuma individualidade; mas eles têm singularidades, umsorriso, um gesto, uma careta, acontecimentos, que não são características subjetivas.Os recém-nascidos, em meio a todos os sofrimentos e fraquezas, são atravessados poruma vida imanente que é pura potência, e até mesmo beatitude. Os indefinidos de umavida perdem toda indeterminação na medida em que eles preenchem um plano deimanência ou, o que vem a dar estritamente no mesmo, constituem os elementos de umcampo transcendental (a vida individual, ao contrio, continua inseparável dasdeterminações empíricas). O indefinido como tal não assinala uma indeterminaçãoemrica, mas uma determinação de imancia ou uma determinabilidadetranscendental. O artigo indefinido não é a indeterminação da pessoa a não ser namedida em que é a determinação do singular. O Uno não é o transcendente que podeconter até mesmo a imanência, mas o imanente contido em um campo transcendental. OUno é sempre o índice de uma multiplicidade: um acontecimento, uma singularidade,uma vida... Pode-se sempre invocar um transcendente que recaia fora do plano deimanência ou mesmo que atribua imanência a si próprio: permanece o fato de que todatranscendência se constitui unicamente na corrente de consciência imanente própria aseu plano.
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A transcendência é sempre um produto de imanência.Uma vida o conm nada mais que virtuais. Ela é feita de virtualidades,acontecimentos, singularidades. Aquilo que chamamos de virtual não é algo ao qual falte

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