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g ig i
colette
GIGI é certamente uma das obras-primas de colette, um dos

romances em que ela empenhou toda a pujança de seu gênio artístico. vamos encontrar em suas páginas as mesmas características excepcionais da colette que conhecemos através de traduções anteriores: a sensibilidade lírica, a perspicácia a envolver em situações inesquecíveis os seus personagens, a vigorosa capacidade de criar tipos humanos sem descambar para a caricatura fácil, enfim, a pureza do estilo que a consagrou como um dos grandes clássicos da frança contemporânea.

GIGI trata da história de uma jovem adolescente — gilberte —

que, iniciando-se nos segredos da vida, sofre as dúvidas e desilusões próprias da sua idade. É malícia que toma contacto com as coisas indispensáveis à graça feminina: a beleza de um vestido, o encantamento de um novo penteado, a elegante simplicidade de um ornamento... viver o momento fecundo da transformação da criança em adulto; mal liberta dos hábitos infantis, já é uma promessa fascinante da mulher, aquela que um dia desabrochará em todos os seus encantos.

a esta jovem, colette reservou alguns problemas de espantosa realidade. o maior deles, na pessoa de um velho conhecido da família, gaston, que se apaixona pela vivacidade e juventude de gigi. ela o rejeita, é demasiado inexperiente para reconhecer a autenticidade de tal afeto, mas... é mulher! e o romance termina com uma solução original, capaz de encantar os leitores mais diversos.

emGIGI, colette é uma romancista que nos ensina as relações entre os seres e a vida. magnífica pintora da alma, sabe captar e fixar o delicado movimento que anima a menina-moça nas suas primeiras experiências perante a crua realidade da vida.

colette
gigi
prefácio de ROLMES BARBOSA
tradução deyolanda steidel de toledo
2ª edição
1959

difusÃo europÉia do livro
rua bento freitas, 362
rua marquês de itu, 79
o paulo

título do original:g ig i
imagens de colette
aDAMA NA JANELA
amais viva lembrança que guardamos de colette remonta

aos fins da primavera de 1953, em paris. não precisamos nos esforçar muito para, fechando os olhos, vê-la de novo à janela do seu apartamento no palais royal, o cabelo cor do tempo esvoaçando ao sol e uma écharpe de schiaparelli no pescoço, de onde emergia um rosto faceiro, sem idade, tão novo quanto

os arbustos dos champs elysées e tão velho quanto os muros
da saint-chapelle.

quem a visse do imenso pátio, a cumprimentar vizinhos e conhecidos, mal poderia imaginar o esforço que lhe custava permanecer meia hora à janela. a moléstia que a prendia, geralmente, numa cadeira de rodas, cobrava-lhe pesados juros por aqueles momentos de distração em que, apoiada no peitoril, ela sentia, através da praça, o pulsar de sua paris.

para os que a conheciam, e que paravam para saudá-la, a
dama respondia com o "coquetismo" de mulher habituada a

meio século de homenagens. de certa maneira, ela representava, para os transeuntes, tudo quanto a capital francesapossuía de brilhante, de espirituoso e de vivo — de

uma vivacidade a cujo encanto não escapavam os que, dos
pontos mais remotos da terra, ali chegavam.

aos nossos olhos, sua face, ao corresponder ao nosso cumprimento, assumiao aspecto de uma máscara fascinante, desligada do tempo e do lugar, máscara que em certos momentos se humanizava, como a de uma pessoa que tivéssemos conhecido desde sempre. e ao sol primaveral, o rosto da escritora célebre, da detentora do mais alto posto da legião de honra, da autora lida por milhões de pessoas em todos os continentes, desaparecia como por passe de magia, para dar lugarà fisionomia entre pensativae maliciosa da pequena "claudine".

a memória guarda também outra imagem da colette daqueles dias: a colette dos inesperados acessos de falta de ar, que a obrigavam a interromper, em pânico, as entrevistas marcadas com os admiradores que de todas as partes do mundo a procuravam. nessas ocasiões, os visitantes

sempre recebidos com alegria pela escritora que, paralítica,

adorava viver rodeada de gente permaneciam contrafeitos no salão povoado de enfeites pitorescos (e no qual desco- brimos uma coleção de borboletasdo brasil, cuja iridescência devia iluminar o aposento nos dias de inverno). permaneciam contrafeitos, surdamente revoltados contra a estupidez dos males que atormentavam a anfitriã. e retiravam-se cabisbaixos, envergonhados de gozarem de saúde, de poderem andar e sair pelas ruas, deixando-a abandonada atrás daquelas portas duplas.

no dia seguinte, colette tomava mile um cuidados para se desculpar com as visitas. através de telefonemas e telegramas, desdobrava-se em explicações: "o mal-estar que sentira na véspera fora algo sem importância"... "uma ligeira enxaqueca"... "não durara nem um minuto"...

grande, admirável colette que se valia de todas as artimanhaspara ocultardos demais o seu sofrimento! na sua generosidade de mulher superior, fazia todo o possível para que os visitantes não saíssem da sua casa com o sentimento

do quanto a vida pode ser má eabsurda.

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