LUÍS FERNANDO
ver!ssimo
A Mesa Voadora
Estamos no topo da cadeia alimentar dos bichos de sangue quente e somos dacategoria dos predadores: comemos de tudo, da baleia ao
escargot.
Assim o escritor analisaa espécie, nos ajuda a compreender fomes diversas - e alivia culpas, se elas ainda existirem.Sim, Veríssimo é especialista no assunto. Na cozinha só entra para abrir geladeira,mas sabe comer. Delicia-se com bravos
minestrones,
carnes malpassadas, tortas sofisticadasou pastéis de beira de estrada.Sorte a nossa, porque depois de comer tanto e tão bem ele ainda escreve,deliciosamente, sobre experiências viscerais. Ou alguém já descreveu melhor do que oVeríssimo aquele encantamento que sentimos, ah sim, quando a gema se desprende da clarae, viscosa, quente, se desmancha sobre os grãos de arroz?Seus textos também podem nos embriagar, de tanto rir, se o assunto for os tintosmais apropriados para aquele jantar de sexta à noite, ou a ressaca do dia seguinte -Veríssimo aposta que na sua adolescência as bebedeiras tinham grandeza, e na luta desigualentre o cuba-libre e seu instinto de preservação, o primeiro ganhava sempre.Confira. As memórias gustativas deste escritor só ficam mais saborosas com otempo.Comer é uma forma extrema de possuir o que queremos - seja o fígado ou acoragem do inimigo, quem sabe a carne da pessoa amada. Tudo no sentido figurado, claro.Afinal civilização é isso: a domesticação dos nossos apetites. Seja no ruidoso churrasco dedomingo, no jantarzinho só-nós-dois-e-mais-ninguém, ou na defesa das nossas preferênciasnum disputado
buffet,
este martírio da vida social moderna. Você sabe do que
Veríssimo
está falando - é preciso resistir à tentação de botar os camarões no bolso, mas decida-se poruma eficiente estratégia de ataque. Impossível o desprendimento, quando o assunto écomida: nosso passado de canibais nos persegue.
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