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a longa e difícil jornada paraa longa e difícil jornada para fora do infernofora do inferno
M
AS
 
ALGUM
 
DIA
, numa época mais emocionante que esse presente inseguro edesgastado, ele deverá ainda vir até nós, o salvador, o homem do grande amor e desprezo, oespírito criativo cuja força persuasiva não o deixará descansar por qualquer inimizade ou apatia,isolação cuja é mal-compreendida pelas pessoas como se isso fosse fora da realidade – enquantoela é sua única absorção, imersão e penetração na realidade, tanto que, quando ele um diaemergir novamente sob a luz, ele deve trazer para cá a emancipação dessa realidade; suaemancipação da desgraça que a supremacia ideal até agora jogou sobre ela. O homem do futuro,que não nos salvará apenas da supremacia ideal atual, mas também daquilo que foipredeterminado a nascer dela, a grande náusea, o desejo do nada, niilismo; essa badalada domeio-dia e da grande decisão que liberta o desejo novamente e restabelece seu objetivo para coma Terra e sua esperança para com os homens; esse Anticristo e antiniilismo; esse vencedor perante Deus e ao nada – ele deve vir até nós algum dia. –
Friedrich Nietzche, Genealogia da Moral.
Do lado de fora estava chovendo gatos e cães latindo. Como uma cria ovípara da humanidadecoletiva, Marilyn Manson sai à passeio. Era óbvio – ele estava começando a parecer e soar muitocomo o Elvis. –
David Lynch – Nova Orleans 2:50 AM 
Para Barb e Hugh Warner,Tomara que Deus os perdoe por terem me trazido a esse mundo.
CAPÍTULO I: QUANDO EU ERA UM VERME
1. O Homem Que Você Teme
“Entre todas as coisas que podem ser contempladas sob a concavidade dos céus, nada que é vistoprovoca tanto o espírito humano, que mais encante os sentidos, que mais horrorize, que maisinduza terror ou admiração que os monstros, prodígios e abominações que vemos as forças daNatureza inverterem, mutilarem e truncarem”.
– Pierre Boaistuan, Histórias Pródigas, 1561.
para mim era o porão do meu avô. Aquilo fedia como um banheiro público, e eramuito sujo. O chão de concreto era cheio de latas de cerveja e tudo estavacoberto com uma película de graxa que provavelmente nunca foi limpa desde quemeu pai era menino. Acessível apenas por uma escada vacilante de madeira fixada à paredeáspera de pedra, o porão era zona proibida para todos, exceto para o meu avô. Esse era o seumundo.
II
N F E R N ON F E R N O
Pendurada evidentemente das paredes estava uma bolsa meio avermelhada de enema,um sinal da confidência extraviada que Jack Angus Warner tinha de fato, que até mesmo seu netonão ousaria invadir. À direita estava uma escrivaninha médica torta e branca, dentro dela haviauma dúzia de caixas velhas de genéricos, camisinhas compradas por correio à beira da putrefação;uma lata enferrujada de desodorante feminino cheio; um punhado de luvas dedais de látexdaquelas que os médicos usam em exames de próstata; e um boneco
Friar Tuck 
que tinha umaereção quando sua cabeça era pressionada. Atrás das escadas havia uma prateleira com umasdez latas de tinta que, descobri mais tarde, estavam cheias com vinte filmes pornôs de 16mm. Emcima delas havia uma pequena janela quadrada – que parecia de vidro pintado, mas na verdade
Ciclo Um – Limbo
 
era manchada com um encardido cinza – e se eu ficasse olhando fixamente para ela, era como seeu estivesse olhando para as trevas do inferno.O que mais me intrigava naquele porão era a bancada. Era velha e feita rusticamente,como se tivesse sido construída há séculos atrás. Era coberta por um tapete laranja-escuro depedaços de tabaco que mais parecia o cabelo de uma boneca
Raggedy Ann
, exceto que ele foisujo por anos e anos de ferramentas imundas sendo colocadas sobre ele. Uma gaveta foiincomodamente construída na bancada, mas sempre estava trancada. Nas vigas encima delahavia um espelho barato que dava para se ver por inteiro, daqueles que têm uma moldura demadeira que ficam pregados em portas. Mas estava pregado ao teto por alguma razão – eu possoaté imaginar por quê. Lá era onde meu primo, Chad, e eu começamos nossas intromissões diáriase progressivas, cada vez mais ousadas, na vida secreta do meu avô.Eu era um magrelo de 13 anos com sardas e uma pequena ferida, cortesia do corta-gramada minha mãe; ele era um magricelo de 12 anos com sardas e com os dentes para fora. Nós nãoqueríamos nada mais além de nos tornar detetives, espiões ou investigadores particulares quandocresssemos. Faamos aquilo para tentar desenvolver as habilidades requisitadas noprocedimento furtivo quando fomos primeiramente expostos à esse crime.Inicialmente, tudo o que queríamos fazer era nos esgueirar lá por baixo e espiar o meu avôsem ele saber. Mas uma vez que começamos a descobrir tudo o que estava escondido lá, nossosmotivos mudaram. Nossas excursões ao porão depois da escola nos tornaram pré-adolescentesquerendo achar pornografia para nos masturbar e criou uma fascinação mórbida pelo nosso avô.Quase todo dia nós fazíamos novas e grotescas descobertas. Eu não era muito alto, masse eu me equilibrasse cuidadosamente na cadeira de madeira do meu avô eu podia alcançar oespaço entre o espelho e o teto. Lá eu achei uma pilha de fotos bestiais em preto-e-branco. Elasnão eram de revistas: eram fotos individualmente numeradas que pareciam que foram escolhidas àdedo num catálogo de compras pelo correio. Lá tinha quase setenta fotos de mulheres com aspernas abertas envolvendo pênis de cavalos e chupando pênis de porcos, que mais pareciamsaca-rolhas macios e carnudos. Eu já tinha visto a
Playboy 
e a
Penthouse
antes, mas essas fotoseram totalmente fora do comum. Não era só porque elas eram obscenas. Elas eram surreais –todas as mulheres estavam mostrando um verdadeiro sorriso inocente de criança enquantochupavam e transavam com aqueles animais.Lá também tinha revistas de fetiches como a
Wartersports
e a
Black Beauty 
escondidasats do espelho. Em vez de roubar uma revista inteira, poamos pegar uma gilete ecuidadosamente cortar certas páginas. Assim poderíamos dobrá-las em pequenos quadrados e asesconder debaixo das pedras brancas enormes que formavam o chão de pedregulho da garagem.Anos depois, voltamos para pegá-las, e ainda estavam lá – mas estavam deformadas, deterioradase cobertas de minhocas e lesmas.Numa tarde de outono, Chad e eu estávamos sentados na mesa da sala de minha avódepois de um dia particularmente sem graça na escola, resolvemos descobrir o que estava dentroda gaveta trancada na bancada. Sempre determinada a empanturrar seus filhos e netos decomida, minha avó, Beatrice, nos forçava a comer bolinhos de carne e geléia, que eram aguados.Ela veio de uma família rica e tinha toneladas de dinheiro no banco, mas ela era tão barata quetentava fazer com que um único pote de geléia durasse meses. Ela costumava vestir meias até os joelhos enroladas em volta de seus tornozelos e uma peruca cinza avulsa que obviamente nãoficava direito. As pessoas sempre me diziam que eu parecia com ela porque nós dois éramosmagricelos com a mesma estrutura facial fina.Nada na cozinha mudava, a não ser quando eu comia a comida intragável dela lá. Encimada mesa havia uma foto amarelada do Papa numa moldura barata de latão pendurada no teto.Uma imponente árvore genealógica traçando a rota dos Warners até a Polônia e Alemanha, ondeeles eram chamados de
Wanamakers
, ficava rebocada na parede ali perto. E ao redor dela ficavaum enorme crucifixo vazio de madeira com um Jesus dourado no topo, com uma folha de palmeiramorta rodeando e uma cobertura escorregadia que escondia uma vela e um vidro de água-benta.+Debaixo da mesa da cozinha, havia um tubo de ventilação que ia dar na bancada doporão. Por ali, podíamos ouvir meu avô tossindo como cachorro lá embaixo. Ele deixava seu rádioCB ligado, mas ele nunca gravou nada nele. Ele só ouvia. Ele tinha sido hospitalizado com câncer na garganta quando eu era bem novo e, até onde me lembro, eu nunca ouvi sua voz atual, só arespiração distorcida que ele força através de sua traqueotomia.
 
Nós esperamos até ouvirmos ele sair do porão, abandonando nosso bolinho de carne, jogamos nossa geléia no tubo de ventilação e nos aventuramos lá por baixo. Podíamos ouvir nossaavó nos chamando inutilmente: “Chad! Brian! Limpem os restos de seus pratos!” Fomos sortudosporque tudo o que ela fez foi só gritar aquela tarde toda. Tipicamente se ela nos pegasse roubandocomida, respondendo ela ou traquinando, seríamos forçados a se ajoelhar num cabo de vassourana cozinha de quinze minutos à uma hora, que resultava em joelhos feridos e cheios de cascõescoagulados.Chad e eu trabalhamos rápidos e quietos. Nós sabíamos o que tínhamos que fazer.Pegando uma chave de fenda enferrujada no chão, abrimos a gaveta da bancada o bastante paraespiarmos. A primeira coisa que vimos foi celofane: toneladas disso, enrolando alguma coisa. Nãoconseguíamos ver o que havia lá. Chad empurrou a chave mais sobre a gaveta. Tinha tufos decabelo e rendas lá. Ele entalou a chave ainda mais, e eu puxei até a gaveta abrir.O que descobrimos foram bustiês, sutiãs, pedaços de papel e cuecas – e muitas perucasde mulher embaraçadas com cabelos embolados e duros. Começamos a desembrulhar o celofane,mas assim que vimos o que estava escondido, deixamos o pacote cair no chão. Nenhum de nósqueria pegar naquilo. Era uma coleção de picas de plástico que tinham no fundo buracos desucção. Talvez fosse porque eu era muito jovem, mas eles pareciam enormes e eram cobertoscom uma gosma endurecida laranja-escuro, como a crosta gelatinosa que se forma em volta de umperu que é cozido. Nós deduzimos mais tarde que era vaselina velha.Eu fiz Chad embalar as picas de plástico e coloca-las de volta na gaveta. Fizemosdescobertas demais aquele dia. Enquanto tentávamos fechar a gaveta, a maçaneta da porta doporão virou. Chad e eu congelamos por um momento, ai ele pegou minha mão e mergulhou-sedebaixo de uma mesa de compensado que meu avô tinha seus controles dos trens de brinquedo.Demos tempo de ouvir os passos próximos ao final das escadas. O chão estava cheio deparafernálias de controles de trens, principalmente de pinheiros e neve falsa, que me fez achar queeram farelos de rosquinhas pisoteadas na sujeira. Os pinheiros espetavam nossos cotovelos, ocheiro era nauseante e estávamos ofegantes. Mas meu avô não nos notou, nem a gavetaentreaberta. O ouvimos se arrastando pelo porão, grunhindo pelo buraco em sua garganta. Comum clique, seus trens de brinquedo começaram a trincar pelos longos trilhos. Seus sapatospatentes de couro preto apareciam no chão em nossa frente. Não conseguíamos ver além de seus joelhos, mas sabíamos que ele estava sentado. Seus pés começaram lentamente a ranger pelochão, como se ele estivesse se balançando violentamente na sua cadeira, e seus grunhidosaumentaram mais que os trens. Não consigo pensar em nada que descrevesse o som que sai desua laringe estragada. A melhor analogia que posso dar é de um cortador de grama velhoinutilizado tentando voltar a funcionar. Mas vindo de um ser humano, soava monstruosamente.Depois de dez minutos inconfortáveis se passaram, uma voz chamava no topo dasescadas. “Judas Priest em um pônei!” Era minha avó, e evidentemente estava gritando por algumtempo. Os trens pararam, os pés pararam. “Jack, o que você está fazendo ai embaixo?”, ela gritou.Meu avô grunhiu para ela pela sua traqueotomia, chateado. “Jack, você pode ir aoHeinie’s? Estamos sem refrigerante de novo”.Meu avô grunhiu de volta, mais chateado ainda. Ele não se moveu por um minuto, como seestivesse decidindo se ia ou não ajuda-la. Ai ele se levantou. Estávamos salvos, por enquanto.Depois de fazermos o que pudemos para esconder os danos que fizemos na gaveta dabancada, Chad e eu subimos as escadas e fomos até o duto de ventilação, onde guardávamosnossos brinquedos. Os brinquedos, nesse caso, eram um par de armas BB de brinquedo. Além deespiar meu avô, a casa tinha outras duas atrações: o bosque ali perto, onde gostávamos de atirar nos animais, e as garotas da vizinhança, as quais estávamos tentando foder, mas nunca tivemossucesso, só mais tarde.Algumas vezes íamos ao parque, logo atrás do bosque e tentávamos atirar nos meninosque jogavam futebol. Nesse dia, Chad ainda estava com sua BB guardada por baixo da camisa nopeito, porque quando não conseguíamos achar outros alvos, atirávamos em nós mesmos. Dessavez, ficamos por perto de casa e tentamos derrubar passarinhos das árvores. Era malicioso, maséramos jovens e não ligávamos. Naquela tarde, eu queria sangue e, infelizmente, um coelhobranco cruzou nosso caminho. A emoção de abate-lo era indescritível, mas ai eu fui ver os danos.Ele ainda estava vivo e tinha sangue escorrendo pelos seus olhos, encharcando seu pêlo branco.A boca dele abria e fechava delicadamente, tomando seu último suspiro, desesperado tentando
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