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Carlos Benedito Martins - Coleção Primeiros Passos - O Que é Sociologia

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O QUE É SOCIOLOGIA 
Carlos Benedito Martins38ª ed. - São Paulo Brasíliense, 1994,(Coleção primeiros passos)ÍNDICEIntrodução.....................................77Capítulo primeiro: O surgimento................10Capítulo segundo: A formação...................34Capítulo terceiro: O desenvolvimento...........72Indicações para leitura........................95Sobre o autor.Para Vany PachecoINTRODUÇÃOA sociologia constitui um projeto intelectual tenso e contraditório. Paraalguns ela representa uma poderosa arma a serviço dos interesses dominantes, paraoutros ela é a expressão teórica dos movimentos revolucionários.A sua posição é notavelmente contraditória. De um lado, foi proscrita deinúmeros centros de ensino. Foi fustigada, em passado recente, nas universidadesbrasileiras, congelada pelos governos militares argentino, chileno e outros dogênero. Em 1968, os coronéis gregos acusavam-na de ser disfarce do marxismo eteoria da revolução. Enquanto isso, os estudantes de Paris escreviam nos muros daSorbone que "não teamos mais problemas quando o último sociólogo fosseestrangulado com as tripas do último burocrata".Como compreender as avaliações tão diferentes7dirigidas com relação a esta ciência? Para esclarecer esta questão, torna-senecessário conhecer, ainda que de forma bastante geral e com algumas omissões, umpouco de sua história. Isto me leva a situar a sociologia - este conjunto deconceitos, de técnicas e de métodos de investigação produzidos para explicar avida social - no contexto histórico que possibilitou o seu surgimento, formação edesenvolvimento.Este livro parte do princípio de que a sociologia é o resultado de umatentativa de compreensão de situações sociais radicalmente novas, criadas pelaentão nascente sociedade capitalista. A trajetória desta ciência tem sido umaconstante tentativa de dialogar com a civilização capitalista, em suas diferentesfases.Na verdade, a sociologia, desde o seu início, sempre foi algo mais do queuma mera tentativa de reflexão sobre a sociedade moderna. Suas explicações semprecontiveram intenções práticas, um forte desejo de interferir no rumo destacivilização. Se o pensamento científico sempre guarda uma correspondência com avida social, na sociologia esta influência é particularmente marcante.Os interesses econômicos e políticos dos grupos e das classes sociais, que nasociedade capitalista apresentam-se de forma divergente, influenciamprofundamente a elaboração do pensamento sociológico.Procuro apresentar, em termos de debate,
 
8a dimensão potica da sociologia, a natureza e as conseqüências de seuenvolvimento nos embates entre os grupos e as classes sociais e refletir em quemedida os conceitos e as teorias produzidos pelos sociólogos contribuem paramanter ou alterar as relações de poder existentes na sociedade.9CAPÍTULO PRIMEIRO:O SURGIMENTOPodemos entender a sociologia como uma das manifestações do pensamentomoderno. A evolução do pensamento científico, que vinha se constituindo desdeCopérnico, passa a cobrir, com a sociologia, uma nova área do conhecimento aindao incorporada ao saber científico, ou seja, o mundo social. Surgeposteriormente à constituição das ciências naturais e de diversas ciênciassociais.A sua formação constitui um acontecimento complexo para o qual concorremuma constelação de circunstâncias, históricas e intelectuais, e determinadasintenções práticas. O seu surgimento ocorre num contexto histórico específico,que coincide com os derradeiros momentos da desagregação da sociedade feudal e daconsolidação da civilização capitalista. A sua criação não é obra10de um único filósofo ou cientista, mas representa o resultado da elaboração de umconjunto de pensadores que se empenharam em compreender as novas situações deexistência que estavam em curso.O culo XVIII constitui um marco importante para a hisria dopensamento ocidental e para o surgimento da sociologia. As transformaçõeseconômicas, políticas e culturais que se aceleram a partir dessa época colocarãoproblemas inéditos para os homens que experimentavam as mudanças que ocorriam noocidente europeu. A dupla revolução que este século testemunha - a industrial e afrancesa - constituía os dois lados de um mesmo processo, qual seja, a instalaçãodefinitiva da sociedade capitalista. A palavra sociologia apareceria somente umséculo depois, por volta de 1830, mas são os acontecimentos desencadeados peladupla revolução que a precipitam e a tornam possível.Não constitui objetivo desta parte do trabalho proceder a uma análisedestas duas revoluções, mas apenas estabelecer algumas relações que elas possuemcom a formação da sociologia. A revolução industrial significou algo mais do quea introdução da máquina a vapor e dos sucessivos aperfeiçoamentos dos métodosprodutivos.Ela representou o triunfo da indústria capitalista, capitaneada pelo empresáriocapitalista que foi pouco a pouco concentrando as máquinas, as terras e asferramentas11sob o seu controle, convertendo grandes massas humanas em simples trabalhadoresdespossuídos.Cada avanço com relação à consolidação da sociedade capitalistarepresentava a desintegração, o solapamento de costumes e instituições até entãoexistentes e a introdão de novas formas de organizar a vida social. Autilização da máquina na produção não apenas destruiu o artesão independente, quepossuía um pequeno pedaço de terra, cultivado nos seus momentos livres. Este foitambém submetido á uma severa disciplina, a novas formas de conduta e de relaçõesde trabalho, completamente diferentes das vividas anteriormente por ele.
 
Num período de oitenta anos, ou seja, entre 1780 e 1860, a Inglaterrahavia mudado de forma marcante a sua fisionomia. País com pequenas cidades, comuma população rural dispersa, passou a comportar enormes cidades, nas quais seconcentravam suas nascentes indústrias, que espalharam produtos para o mundointeiro.Tais modificações não poderiam deixar de produzir novas realidades para os homensdessa época. A formação de uma sociedade que se industrializava e urbanizava emritmo crescente implicava a reordenação da sociedade rural, a destruição daservidão, o desmantelamento da falia patricial etc. A transformação daatividade artesanal em manufatureira e, por último, em atividade fabril,desencadeou uma maciça emigração do campo para a12cidade, assim como engajou mulheres e crianças em jornadas de trabalho de pelomenos doze horas, sem férias e feriados, ganhando um salário de subsistência. Emalguns setores da instria inglesa, mais da metade dos trabalhadores eraconstituída por mulheres e crianças, que ganhavam salários inferiores dos homens.A desaparição dos pequenos proprietários rurais, dos artesãosindependentes, a imposição de prolongadas horas de trabalho etc, tiveram umefeito traumático sobre milhões de seres humanos ao modificar radicalmente suasformas habituais de vida. Estas transformações, que possuíam um sabor decataclisma, faziam-se mais visíveis nas cidades industriais, local para ondeconvergiam todas estas modificações e explodiam suas conseqüências. Estas cidadespassavam por um vertiginoso crescimento demográfico, sem possuir, no entanto, umaestrutura de moradias, de serviços sanitários, de saúde, capaz de acolher apopulação que se deslocava do campo. Manchester, que constitui um ponto dereferência indicativo desses tempos, por volta do início do culo XIX erahabitada por setenta mil habitantes; cinqüenta anos depois, possuía trezentas milpessoas. As conseqüências da rápida industrialização e urbanização levadas a cabopelo sistema capitalista foram tão visíveis quanto trágicas: aumento assustadorda prostituição, do suicídio, do alcoolismo, do infanticídio, da criminalidade,13da violência, de surtos de epidemia de tifo e cólera que dizimaram parte dapopulação etc.É evidente que a situão de miria também atingia o campo,principalmente os trabalhadores assalariados, mas o seu epicentro ficava, semdúvida, nas cidades industriais.Um dos fatos de maior importância relacionados com a revolução industrialé sem vida o aparecimento do proletariado e o papel histórico que eledesempenharia na sociedade capitalista. Os efeitos catastróficos que estarevolução acarretava para a classe trabalhadora levaram-na a negar suas condiçõesde vida. As manifestações de revolta dos trabalhadores atravessaram diversasfases, como a destruição das máquinas, atos de sabotagem e explosão de algumasoficinas, roubos e crimes, evoluindo para a criação de associações livres,formação de sindicatos etc. A conseqüência desta crescente organização foi a deque os "pobres" deixaram de se confrontar com os "ricos"; mas uma classeespecífica, a classe operária, com consciência de seus interesses, começava aorganizar-se para enfrentar os proprietários dos instrumentos de trabalho. Nestatrajetória, iam produzindo seus jornais, sua própria literatura, procedendo a umacrítica da sociedade capitalista e inclinando-se para o socialismo comoalternativa de mudança.Qual a importância desses acontecimentos para a sociologia? O que mereceser salientado é que a profundidade das transformações em Gurso colocava14

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