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As Desventuras de Ser Doutora

As Desventuras de Ser Doutora

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"O artigo aborda representações sociais das obras de Machado de Assis, França Junior e de Rachel de Queiroz, evidenciando nas duas primeiras, as zombarias diante da profissionalização das mulheres, e na segunda, impedimento para o amor por força da desigualdade dos sexos quanto ao grau de instrução formal."
"O artigo aborda representações sociais das obras de Machado de Assis, França Junior e de Rachel de Queiroz, evidenciando nas duas primeiras, as zombarias diante da profissionalização das mulheres, e na segunda, impedimento para o amor por força da desigualdade dos sexos quanto ao grau de instrução formal."

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Caderno Espa\u00e7o Feminino, v.12, n.15, Ago./Dez. 2004
103
Das desventuras de ser doutora
Suely Gomes Costa

O artigo aborda representa\u00e7\u00f5es sociais das obras liter\u00e1rias de Machado de Assis; Fran\u00e7a Junior e de Rachel de Queiroz, da d\u00e9cada de 30, do s\u00e9culoXX, evidenciando nas duas primeiras, as zombarias diante da profissionaliza\u00e7\u00e3o de mulheres, na segunda, impedimento para o amor por for\u00e7a da desigualdade dos sexos quanto ao grau de instru\u00e7\u00e3o formal como marcas de impactos das sa\u00eddas das mulheres em dire\u00e7\u00e3o a fronteiras para al\u00e9m do mundo dom\u00e9stico.

A busca de instru\u00e7\u00e3o exp\u00f5e complexo enredo e situa\u00e7\u00f5es dram\u00e1ticas, o olho do furac\u00e3o em que as rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero e outras rela\u00e7\u00f5es sociais se movem diante das sa\u00eddas das mulheres para fronteiras distantes do mundo dom\u00e9stico.1 Num embate permanente entre as esferas p\u00fablica e privada, tens\u00f5es e conflitos vividos nessas sa\u00eddas, por muito tempo, foram conceituados como pr\u00f3prios a uma presumida oposi\u00e7\u00e3o natural dos sexos masculino e feminino, quase sempre, no interior de uma mesma classe social. S\u00f3 muito recentemente, sob abordagens inauguradas pelo conceito de g\u00eanero, essas tens\u00f5es revelam muitos de seus sinais pol\u00edticos.

Diversos deslocamentos de mulheres tamb\u00e9m p\u00f5em em cena as chamadas crises de masculinidades em diferentes conjunturas. Tomadas como fen\u00f4menos na- turais da intimidade, essas crises, vistas como decor- r\u00eancias das chegadas das mulheres a lugares masculinos,

Suely Gomes Costa. Doutora em Hist\u00f3ria (UFF) e Professora Titular
do Departamento de Servi\u00e7o Social daU F F.
1

M. Perrot examina, na no- \u00e7\u00e3o de sa\u00edda das mulheres para o espa\u00e7o p\u00fablico, o processo de tomada de consci\u00eancia de g\u00eanero. Ver: PERROT, M. \u0093Sair\u0094.

Das desventuras de ser doutora
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Caderno Espa\u00e7o Feminino, v.12, n.15, Ago./Dez. 2004

ocultam pactos sociais, cheios de ambig\u00fcidades.2 As sa\u00eddas se d\u00e3o em meio a arranjos das muitas rela\u00e7\u00f5es entre pessoas de mesmos e de diferentes g\u00eaneros e de v\u00e1rias classes, ra\u00e7as/etnias e gera\u00e7\u00f5es. Examin\u00e1-las atra- v\u00e9s de cl\u00e1ssicas oposi\u00e7\u00f5es n\u00e3o basta. Deslocamentos femininos n\u00e3o s\u00e3o apenas resultados de dilemas postos pelo \u0093trabalho fora\u0094 nas transforma\u00e7\u00f5es de ritmos decorrentes do sistema fabril e das rela\u00e7\u00f5es capitalistas em marcha. Esses ritmos, constru\u00eddos por homens e mulheres em suas pr\u00e1ticas sociais cotidianas, t\u00eam sentidos civilizadores, alguns bastante singulares, por conhecer.3

Pesquisas realizadas sobre espa\u00e7os dom\u00e9sticos no Rio de Janeiro, ao longo do s\u00e9culoX I X, localizam ind\u00edcios \u0097 e esses chegam aos dias atuais \u0097 de que para desfrutarem da instru\u00e7\u00e3o superior, as mulheres t\u00eam dependido da sua capacidade de regular seu tem- po, ou seja, de processar mudan\u00e7as em seus usos do tempo, reduzindo tens\u00f5es familiares da\u00ed decorrentes. As experi\u00eancias de instru\u00e7\u00e3o formal das mulheres nos s\u00e9culosX I X eXX, e mesmo agora noX X I, s\u00e3o partes de projetos femininos h\u00e1 muito acalentados e implicam seguidos deslocamentos e rearranjos de pap\u00e9is femini- nos no \u00e2mbito dom\u00e9stico. Repercutem, reiteradamente, sobre o cotidiano das casas porque s\u00e3o amea\u00e7as de quebra de uma dada ordem cotidiana. Mas a instru\u00e7\u00e3o formal das mulheres s\u00f3 ocorre porque uma dada revolu\u00e7\u00e3o do tempo empregado na vida dom\u00e9stica e tamb\u00e9m porque algumas interdi\u00e7\u00f5es ao desempenho feminino de tarefas \u0093p\u00fablicas\u0094 est\u00e3o suspensas. A regula\u00e7\u00e3o do tempo feminino \u00e9 um fen\u00f4meno de lon- ga dura\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica4.

Mudan\u00e7as dessa regula\u00e7\u00e3o s\u00e3o vis\u00edveis j\u00e1 nos anos 20 do s\u00e9culoX I X no Brasil, bastando avaliar os impac- tos dos produtos e servi\u00e7os franceses entrados no Brasil ao fim das guerras napole\u00f4nicas. Para seu descon- forto, o padre Lopes Gama, nesse tempo, por exem- plo, via desaparecer, a olhos vistos, aquela \u0093boa m\u00e3e a

que n\u00e3o devia preocupar-se sen\u00e3o com a administra\u00e7\u00e3o da casa
2

BADINTER, E.XY: sobre a iden- tidade masculina. Trad. Ma- ria Ignez Duque Estrada. Rio de Janeiro: Nova Fron- teira, 1993. Ver, em especial, p.11-22.

3

COSTA, S. G. \u0093Prote\u00e7\u00e3o social, maternidade transferida e lutas pela sa\u00fade reproduti- va\u0094.

4
Sobre o assunto: COSTA, Sue-
ly Gomes. Met\u00e1foras do tempo
e do espa\u00e7o dom\u00e9stico. Rio de
Janeiro, s\u00e9culoXIX.
Suely Gomes Costa
Caderno Espa\u00e7o Feminino, v.12, n.15, Ago./Dez. 2004
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[...]\u00945. Nem sempre \u00e9 f\u00e1cil distinguir os n\u00f3s que embar- gam as sa\u00eddas femininas, nem seus sentidos civilizadores. O tempo feminino no \u00e2mbito dom\u00e9stico, mesmo em avan\u00e7ados anos do s\u00e9culoX X, no Brasil, se define segundo padr\u00f5es reprodutivos, dependentes de pr\u00e1ti- cas artesanais dom\u00e9sticas.6 Assim, mercadorias e servi- \u00e7os que criam economias de tempo dom\u00e9stico, que atenuam encargos e o emprego do tempo feminino, como f\u00f3sforos e m\u00e1quina de costuras mudam pr\u00e1ticas e favorecem as sa\u00eddas femininas. As tarefas ligadas \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o, \u00e0 supervis\u00e3o e ao controle de qualidade do conforto dom\u00e9stico, com todo o seu acervo de costumes, por\u00e9m persistem.7 \u00c9 uma regularidade hist\u00f3rica que obriga\u00e7\u00f5es maternas sejam transferidas de mulheres que saem para o espa\u00e7o p\u00fablico para outras que assumem, em seu nome, os cuidados dom\u00e9sticos; isso reorganiza, permanentemente, rela\u00e7\u00f5es entre mulheres de diferentes classes. Transgress\u00f5es femininas aparecem, antes disso, quase sempre, associadas a um tempo de exposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica das mulheres. Mulheres s\u00e3o criticadas sempre que experimentam novos tempos de exposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Isso \u00e9 percept\u00edvel na \u0093mudan\u00e7a de ares\u0094, exemplo de mulheres portuguesas que rom- pem certos procedimentos de origem e adotam ou- tros, na ambienta\u00e7\u00e3o no Rio, em reviravoltas de pa- dr\u00f5es comportamentais costumeiros, como observa- do por Marrocos8. Assim, o consumo de produtos que liberam tempo para atividades outras, ainda que estranhas bastante a seu meio, \u00e9 relevante; para as sa\u00eddas femininas, assim, contribuem a regulariza\u00e7\u00e3o de fluxos de mercadorias diversas. No caso brasileiro, descont\u00ed- nuos at\u00e9 a abertura dos portos, esses fluxos conhecem crescente normaliza\u00e7\u00e3o com o avan\u00e7ar do s\u00e9culoX I X.9 Al\u00e9m de mudarem etapas e processos de trabalho dom\u00e9stico e, ainda, pela reposi\u00e7\u00e3o continuada de bens, modernizam as condi\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas de produ\u00e7\u00e3o de bens de uso corrente; al\u00e9m de produtos, muitos servi- \u00e7os produzem iguais efeitos. A regulariza\u00e7\u00e3o de ingres- sos de mercadorias nas casas avan\u00e7a na medida em

5
Apud FREYRE, G. Casa Grande
e Senzala. Alude esse autor

aos escritos do Padre Lopes Gama no jornal O Capuceiro, Recife, nos anos 30 40 do s\u00e9culoXIX, p.109.

6
COSTA, Suely Gomes.Pa u -
para-toda-obra.
8
CARTAS de Lu\u00eds Joaquim dos
Santos Marrocos.Carta no 115
de janeiro de 1818. p. 313.
7
COSTA, Suely Gomes. Met\u00e1-
foras...
9
COSTA, Suely Gomes.M e t \u00e1 -
foras...

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