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Banalizar e Naturalizar a Prostituição

Banalizar e Naturalizar a Prostituição

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A prostituição vem sendo apresentada pelo história como algo já existente desde os primórdios da organização social humana. Diferentes facetas do discurso social retomam esta idéia e justificam a prostituição, esvaziando-a de sua violência constitutiva. A prostituição transformada em profissão de fato legaliza a violência da apropriação material e simbólica dos corpos das mulheres.
A prostituição vem sendo apresentada pelo história como algo já existente desde os primórdios da organização social humana. Diferentes facetas do discurso social retomam esta idéia e justificam a prostituição, esvaziando-a de sua violência constitutiva. A prostituição transformada em profissão de fato legaliza a violência da apropriação material e simbólica dos corpos das mulheres.

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Banalizar e naturalizar a prostitui\u00e7\u00e3o: viol\u00eancia social e hist\u00f3rica*
tania navarro swain
resumo:

A prostitui\u00e7\u00e3o vem sendo apresentada pelo hist\u00f3ria como algo j\u00e1 existente desde os
prim\u00f3rdios da organiza\u00e7\u00e3o social humana. Diferentes facetas do discurso social
retomam esta id\u00e9ia e justificam a prostitui\u00e7\u00e3o, esvaziando-a de sua viol\u00eancia
constitutiva. A prostitui\u00e7\u00e3o transformada em profiss\u00e3o de fato legaliza a viol\u00eancia da
apropria\u00e7\u00e3o material e simb\u00f3lica dos corpos das mulheres.

A prostitui\u00e7\u00e3o, ou seja, a venda de corpos, for\u00e7ada ou n\u00e3o, \u00e9 talvez a maior viol\u00eancia
social cometida contra as mulheres. Esta viol\u00eancia \u00e9 agudizada por sua total
banaliza\u00e7\u00e3o; mais ainda, a profissionaliza\u00e7\u00e3o da prostitui\u00e7\u00e3o, que acolhe adeptos mesmo
entre as feministas, define a apropria\u00e7\u00e3o e a \u201cmercantiliza\u00e7\u00e3o\u201d total das mulheres como
um trabalho, que seria t\u00e3o estatut\u00e1rio e dignificante quanto qualquer outro.

A simples classifica\u00e7\u00e3o \u201ctrabalho\u201d promove a compra de mulheres \u2013 moment\u00e2nea ou permanente, como no caso das meninas raptadas, violentadas e prostitu\u00eddas \u2013 a um n\u00edvel de mercado, de justifica\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria, de inser\u00e7\u00e3o nos mecanismos de produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o do social. De fato, a prostitui\u00e7\u00e3o \u00e9 um agenciamento social onde a classe dos homens, como bem definiu Christine Delphy (1998), se apropria e usa a classe das mulheres.[1]

Os mecanismos de inteligibilidade social integram a prostitui\u00e7\u00e3o, no imagin\u00e1rio e nas
representa\u00e7\u00f5es sociais, como um estado prazeroso, tal como o apresenta, por exemplo, a
literatura, dentre os discursos sociais. Por exemplo, Jorge Amado, em muitos de seus
romances: apresenta o prost\u00edbulo como um l\u00f3cus de troca amorosa, de repouso e
prazer..Assim, n\u00e3o paira sequer a quest\u00e3o: para quem as mulheres s\u00e3o colocadas \u00e0
disposi\u00e7\u00e3o, corpos e ouvidos complacentes, perp\u00e9tuos sorrisos enganchados no rosto,
caricaturas de uma rela\u00e7\u00e3o de encontro?

Aspirar \u00e0 dignidade de um trabalho, enquanto prostituta, \u00e9 totalmente compreens\u00edvel,
sobretudo quando n\u00e3o existem condi\u00e7\u00f5es materiais para uma transi\u00e7\u00e3o ou o abandono
de tal atividade. Afinal, quem n\u00e3o deseja o respeito e a considera\u00e7\u00e3o social? Entretanto,
mesmo se a legisla\u00e7\u00e3o confere um status trabalhista \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o, a linguagem popular
mostra seu lugar na escala social. Ser \u201cfilho da puta\u201d n\u00e3o \u00e9 ainda o insulto maior?

Diversas asser\u00e7\u00f5es tentam justificar a viol\u00eancia da transforma\u00e7\u00e3o de pessoas em
orif\u00edcios, como por exemplo, \u201ca prostitui\u00e7\u00e3o \u00e9 a mais antiga profiss\u00e3o do mundo\u201d. Esta
frase \u00e9 dita e escrita \u00e0 exaust\u00e3o, criando sentidos sobre o vazio de sua enuncia\u00e7\u00e3o. De
fato, em Hist\u00f3ria, nada existiu \u201cdesde sempre e para sempre\u201d, a n\u00e3o ser em uma hist\u00f3ria
positivista, enredada em premissas essencialistas e datadas, para a qual \u00e9 \u201cnatural\u201d a
presen\u00e7a de prostitutas no social. Ao contr\u00e1rio, a pesquisa hist\u00f3rica vem mostrando

que a prostitui\u00e7\u00e3o \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o do social, em momentos \u00e9pocas espec\u00edficas; esta
denomina\u00e7\u00e3o encobre, inclusive, no discurso hist\u00f3rico, a presen\u00e7a de mulheres no
social que destoam da norma representacional sobre as mulheres.

Esta proposi\u00e7\u00e3o \u2013 a mais antiga profiss\u00e3o do mundo - cria e reproduz a id\u00e9ia da
exist\u00eancia inexor\u00e1vel da prostitui\u00e7\u00e3o, ligada \u00e0 pr\u00f3pria exist\u00eancia das mulheres,
parte de seu destino biol\u00f3gico; nesta asser\u00e7\u00e3o \u00e9 mantida, no senso comum, a no\u00e7\u00e3o
da ess\u00eancia mal\u00e9fica e viciosa das mulheres, que atrav\u00e9s dos tempos se concretiza
na figura da prostituta, o lado sombrio e negativo da representa\u00e7\u00e3o constru\u00edda
sobre a mulher-m\u00e3e na historicidade discursiva ocidental. Por outro lado, fica
materializada e generalizada a id\u00e9ia da condi\u00e7\u00e3o inferior das mulheres ao longo da
hist\u00f3ria, despossu\u00eddos de seus corpos e de sua condi\u00e7\u00e3o de sujeito, no social e no
pol\u00edtico.

Delimitada pela no\u00e7\u00e3o de ess\u00eancia e perman\u00eancia, a prostitui\u00e7\u00e3o vai perdendo
sua historicidade e a pr\u00f3pria varia\u00e7\u00e3o sem\u00e2ntica da palavra desaparece sob
generaliza\u00e7\u00f5es no m\u00ednimo insustent\u00e1veis. Por exemplo, a \u201cprostitui\u00e7\u00e3o sagrada\u201d na
antiguidade dos povos orientais \u00e9 uma interpreta\u00e7\u00e3o anacr\u00f4nica, pois insere em valores
do presente \u2013 o sexo mercantilizado \u2013 a an\u00e1lise de um ritual simb\u00f3lico de renova\u00e7\u00e3o da
vida (Stone, 1979)

Explica esta autora que ohierogamos \u2013 uni\u00e3o sagrada entre a grande sacerdotisa e o futuro rei, ou entre uma sacerdotisa e um visitante do templo \u2013 era uma celebra\u00e7\u00e3o do ritual m\u00edstico da vida, reproduzindo, na Sum\u00e9ria, a uni\u00e3o de Inana / Damuzi ou de Ishtar/Tamuzi, na Babil\u00f4nia - fundamentou a id\u00e9ia de "prostitui\u00e7\u00e3o sagrada", ou seja, uma interpreta\u00e7\u00e3o etnoc\u00eantrica, que confere ao rito uma desqualifica\u00e7\u00e3o incompat\u00edvel com a import\u00e2ncia e o sentido conferido \u00e0 cerim\u00f4nia.

Merlin Stone historiadora e arque\u00f3loga, explica que as sacerdotisas dos templos da Deusa, seja na Sum\u00e9ria, Babil\u00f4nia, Cartago, Chipre, Anat\u00f3lia, Gr\u00e9cia, Sic\u00edlia, eram consideradas sagradas e puras; seu nome acadiano degadishtu significa literalmente "mulheres santificadas" ou "santas mulheres" (Stone, 1979: 237).

Julgamento de valor, valores criadores de sentidos, sentidos instauradores do real na
senda do imagin\u00e1rio social: assim se constr\u00f3i a prostitui\u00e7\u00e3o como atemporal, Se \u201co que
a Hist\u00f3ria n\u00e3o diz, n\u00e3o existiu\u201d, como costumo afirmar, o que a hist\u00f3ria diz \u00e9 certamente
justifica\u00e7\u00e3o para determinadas rela\u00e7\u00f5es sociais. Nesta perspectiva, \u00e0 asser\u00e7\u00e3o
\u201cprostitui\u00e7\u00e3o, a mais velha profiss\u00e3o do mundo\u201d, corresponde \u201cas mulheres sempre
foram dominadas pelos homens\u201d, proposi\u00e7\u00f5es constru\u00eddas pelas representa\u00e7\u00f5es sociais
bin\u00e1rias e hierarquizadas dos historiadores, destitu\u00eddas de fundamento. Mas isto
assegura, no discurso e \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de imagina\u00e7\u00e3o social, a representa\u00e7\u00e3o das
mulheres enquanto prostitutas e como seres dominados / inferiores, desde a aurora dos
tempos conhecidos.

Sentidos m\u00faltiplos

Assim, a quest\u00e3o que se coloca \u00e9 igualmente: o que \u00e9 uma prostituta? Cada \u00e9poca tem
sua defini\u00e7\u00e3o e seus limites que v\u00e3o desde a mulher que n\u00e3o \u00e9 casada, daquela que tem
um amante at\u00e9 a profiss\u00e3o que ela exerce, como at\u00e9 pouco tempo, no Brasil, as
aeromo\u00e7as, as cantoras, as mulheres que trabalhavam fora de casa. Se o termo cont\u00e9m

uma suposta rela\u00e7\u00e3o mercantil, a representa\u00e7\u00e3o da prostituta atinge todas aquelas que
n\u00e3o se enquadram \u00e0s normas de seu tempo / espa\u00e7o.
Simone de Beauvoir, que marcou a visibilidade dos feminismos no s\u00e9culo XX com a
publica\u00e7\u00e3o do \u201cSegundo Sexo\u201d (1949), assim analisa a condi\u00e7\u00e3o da prostituta:\u201c[...]a
prostituta \u00e9 um bode expiat\u00f3rio; o homem descarrega nela sua torpeza e a renega
\u201d(Idem,376)e continua [\u2026] a prostituta n\u00e3o tem direitos de uma pessoa, nela se
resumem , ao mesmo tempo, todas as figuras da escravid\u00e3o feminina\u201d.(idem) A

pertin\u00eancia desta an\u00e1lise nos aponta para a invers\u00e3o que institui e classifica a
prostitui\u00e7\u00e3o no mais baixo n\u00edvel social, que pune e persegue a prostituta e n\u00e3o o cliente.
A viol\u00eancia simb\u00f3lica desta invers\u00e3o n\u00e3o pune ou rejeitado socialmente os agentes da
viol\u00eancia, os criadores de mercado: os clientes. A quem serve afinal, a legaliza\u00e7\u00e3o da
prostitui\u00e7\u00e3o?.

Simone de Beauvoir considera que \u00e9 na prostitui\u00e7\u00e3o, onde:

\u201c[...]a mulher oprimida sexualmente e economicamente, submetida ao arb\u00edtrio da
pol\u00edcia, \u00e0 uma humilhante vigil\u00e2ncia m\u00e9dica, aos caprichos dos clientes, destinada aos
micr\u00f3bios e \u00e0 doen\u00e7a, \u00e9 realmente submetida ao n\u00edvel de uma coisa\u201d(idem,389)

. Estas frases cont\u00e9m um sem-n\u00famero de quest\u00f5es: a prostitui\u00e7\u00e3o como o resultado de

rela\u00e7\u00f5es sociais hier\u00e1rquicas de poder; como resultado igualmente de uma situa\u00e7\u00e3o
moral; como objetifica\u00e7\u00e3o total do feminino nas inst\u00e2ncias sexual e econ\u00f4mica,
submetido \u00e0 ordem masculina ; como institui\u00e7\u00e3o part\u00edcipe do funcionamento do
sistema patriarcal; como uma forma de viol\u00eancia e apropria\u00e7\u00e3o social das
mulheres/ meninas/ crian\u00e7as pela classe dos homens.

Meninas abandonadas pelos pais, pelos amantes ou maridos, falta de oportunidade de
trabalho, falta de capacita\u00e7\u00e3o, sedu\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o, escravid\u00e3o sexual, medo, s\u00e3o
causas arroladas por De Beauvoir (idem:279/380) para a prostitui\u00e7\u00e3o. Podemos
acrescentar o abuso sexual dom\u00e9stico, na escola, no trabalho, nas inst\u00e2ncias de lazer. No
caminho da prostitui\u00e7\u00e3o, o abuso e o estupro est\u00e3o quase sempre presentes. Sob o signo

do social se coloca a exist\u00eancia da prostitui\u00e7\u00e3o, num contexto de viol\u00eancia impl\u00edcita ou
expl\u00edcita, desmascarando \u201ca mais antiga profiss\u00e3o do mundo\u201d. Como bem analisa
Colette Guillaumin(1978), as mulheres padecem de n\u00e3o TER um sexo, mas de SER um
sexo, no imagin\u00e1rio patriarcal.

De Beauvoir comenta ainda a respeito da prostitui\u00e7\u00e3o:

\u201c[...] gostar\u00edamos de saber a influ\u00eancia psicol\u00f3gica que esta brutal experi\u00eancia teve
sobre seu futuro; mas n\u00e3o se psicanalisa \u201cas putas\u201d, elas n\u00e3o sabem se descrever e se
escondem sob os clich\u00eas\u201d(idem, 380).

Esta quest\u00e3o \u00e9 bem ilustrativa da banaliza\u00e7\u00e3o e naturaliza\u00e7\u00e3o da prostitui\u00e7\u00e3o: as
mulheres violentadas s\u00e3o usualmente encaminhadas para um acompanhamento
psicol\u00f3gico; mas e as prostitutas? Ou elas realizam a improv\u00e1vel opera\u00e7\u00e3o da separa\u00e7\u00e3o
de seus corpos e mentes quando exercem esta atividade, ou s\u00e3o apenas rob\u00f4s,
destitu\u00eddas de psique, de sentimentos, de emo\u00e7\u00f5es.

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