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Direito e Feminismo Uma Relaçao Necessaria

Direito e Feminismo Uma Relaçao Necessaria

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"Não temos, no Brasil, no campo do Direito, uma preocupação sistemática com a mulher e a opressão e dominação a que ela é submetida. Entendo que é nossa tarefa, enquanto estudiosos ou operadores do Direito, começar a forjar esse campo, problematizando os elementos que ainda caracterizam o direito como patriarcal." Mariana Prandini Fraga Assis
"Não temos, no Brasil, no campo do Direito, uma preocupação sistemática com a mulher e a opressão e dominação a que ela é submetida. Entendo que é nossa tarefa, enquanto estudiosos ou operadores do Direito, começar a forjar esse campo, problematizando os elementos que ainda caracterizam o direito como patriarcal." Mariana Prandini Fraga Assis

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Direito e feminismo - uma dif\u00edcil e necess\u00e1ria rela\u00e7\u00e3o
Texto apresentado na Rede Nacional Popular de Estudantes de Direito
16 de julho de 2008

O texto foi apresentado em confer\u00eancia no 1o Encontro Nacional da
REPED - Rede Nacional Popular de Estudantes de Direito, em Belo
Horizonte, dia 05/07/2008. Texto muito bom que ajuda na luta a partir da
perspectiva da mulheres que, organizadas, lutam por um mundo melhor
(Frei Gilvander Moreira)

DIREITO E FEMINISMO: uma dif\u00edcil e necess\u00e1ria rela\u00e7\u00e3o
Mariana Prandini Fraga Assis

Voc\u00eas devem estar se perguntando porque intitulei minha fala \u201cDireito e
Feminismo\u201d e n\u00e3o \u201cDireito e G\u00eanero\u201d, j\u00e1 que g\u00eanero hoje \u00e9 um conceito
que, poder\u00edamos dizer, est\u00e1 na moda: \u00e9 falado nas pol\u00edticas p\u00fablicas, \u00e9
falado na reforma pol\u00edtica, \u00e9 falado quando o tema \u00e9 igualdade, enfim,
pesquisadores das mais diferentes \u00e1reas do conhecimento acionam o
conceito de g\u00eanero quando falam de diferen\u00e7as entre homens e mulheres.
Mas foi justamente por isso que retomei o conceito de feminismo. Quem de
voc\u00eas conhece a trajet\u00f3ria acad\u00eamica das discuss\u00f5es sobre a mulher e como
chegamos ao conceito \u2013 na verdade, \u00e0 categoria anal\u00edtica \u2013 de g\u00eanero?

Pois bem, inicialmente, no alvorecer do s\u00e9culo XX, por volta dos anos 30,
quando a mulher passou a ser objeto de estudo na academia, obviamente
pelas feministas acad\u00eamicas, o foco das preocupa\u00e7\u00f5es era exatamente o
sujeito mulher. Assim, nasceu o campo de estudos de mulheres,
profundamente vinculado ao feminismo. Com o passar dos anos, percebeu-
se que estudar exclusivamente a mulher, sem considerar o espa\u00e7o-tempo
em que ela estava inserida e, mais do que isso, os outros sujeitos que com
ela se relacionavam e a diversidade dentro do pr\u00f3prio grupo das mulheres,
n\u00e3o era suficiente. Joan Scott \u2013 uma historiadora inglesa \u2013 cunhou, ent\u00e3o, o
conceito de g\u00eanero, obviamente influenciada pelos estudos pioneiros de
Gayle Rubin, uma antrop\u00f3loga que, na d\u00e9cada de 70, discutindo o
fen\u00f4meno a que n\u00f3s mulheres somos submetidas, por ela chamado de
\u201cTr\u00e1fico de Mulheres\u201d, formulou o conceito de sistema sexo-g\u00eanero.

Assim, o conceito de g\u00eanero \u00e9 formulado por Scott na d\u00e9cada de 80 do
s\u00e9culo passado para apontar \u201ccomo os sujeitos sociais est\u00e3o sendo

constitu\u00eddos cotidianamente por um conjunto de significados impregnados
de s\u00edmbolos culturais, conceitos normativos, institucionalidades e
subjetividades sexuadas que atribuem a homens e mulheres um lugar
diferenciado no mundo, sendo essa diferen\u00e7a atravessada por rela\u00e7\u00f5es de
poder que conferem ao homem, historicamente, uma posi\u00e7\u00e3o dominante\u201d

(MACEDO, s. d.).

Contudo, parece-me que esse conceito, sem d\u00favida, extremamente potente,
acabou sendo \u201ccolonizado\u201d e \u201cbanalizado\u201d na academia, com isso perdendo
o seu conte\u00fado contestat\u00f3rio e transformador. De fato, pesquisadores que
desconhecem o feminismo, a hist\u00f3ria de luta das mulheres por direitos, se
valem desse conceito para, mais uma vez, naturalizar as diferen\u00e7as entre
homens e mulheres, substituindo, em suas pesquisas, \u201csexo\u201d (vari\u00e1vel
inegavelmente biol\u00f3gica) por \u201cg\u00eanero\u201d (vari\u00e1vel cultural e relacional). \u00c9
por isso que, em minha fala, recorro ao feminismo, que parece andar \u201ct\u00e3o
fora de moda\u201d.

N\u00e3o sei se voc\u00eas percebem ou sentem isso, mas o feminismo ganhou, no
senso comum, um conte\u00fado extremamente pejorativo, como se tratasse do
oposto do machismo, de uma revolta das mulheres para restaurar um
matriarcado que, segundo os levantamentos arqueol\u00f3gicos feitos at\u00e9 agora,
sequer se pode afirmar que um dia existiu de fato. N\u00e3o \u00e9 esse o feminismo
de onde falo (e \u00e9 preciso apontar aqui que o feminismo n\u00e3o \u00e9 um campo
homog\u00eaneo e, por isso, dentro dele podemos identificar uma s\u00e9rie de linhas
te\u00f3ricas \u2013 pr\u00e1ticas e pol\u00edticas). O feminismo de onde falo \u00e9 aquele que

formula um projeto de emancipa\u00e7\u00e3o que tenha as mulheres como
protagonistas e n\u00e3o apenas que inclua as mulheres. O feminismo de que
falo \u00e9, ent\u00e3o, um projeto de transforma\u00e7\u00e3o radical, que entende que o
problema vivenciado pelas mulheres na sociedade n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o
meramente de discrimina\u00e7\u00e3o, mas de domina\u00e7\u00e3o \u2013 ou seja, trata-se de algo
estrutural. O que est\u00e1 em discuss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 que as mulheres sejam
discriminadas em rela\u00e7\u00e3o aos homens, apenas. O que est\u00e3o em quest\u00e3o \u00e9
que vivemos em uma sociedade patriarcal que, em sua funda\u00e7\u00e3o, a quest\u00e3o
da mulher n\u00e3o foi considerada, n\u00e3o foi colocada. Ou seja, a mulher n\u00e3o
participou do momento de formula\u00e7\u00e3o das regras dessa sociedade, regras
essas \u00e0s quais se encontra submetida.

Carole Pateman, uma cientista pol\u00edtica feminista, escreveu um livro
brilhante relatando uma hist\u00f3ria que, segunda ela, tem sido sufocada: a do
contrato sexual. A narrativa do contrato social como mito fundador da
sociedade civil moderna e do direito pol\u00edtico todos e todas n\u00f3s
conhecemos. Mas, para Pateman, antes desse contrato, firmou-se um outro

\u201ccontrato\u201d entre homens e mulheres e a hist\u00f3ria desse \u201ccontrato sexual \u00e9

sobre rela\u00e7\u00f5es (hetero)sexuais e sobre mulheres personificadas como seres
sexuais\u201d (PATEMAN, p. 36). Para ela, \u201ca hist\u00f3ria da g\u00eanese pol\u00edtica precisa
ser contada novamente, a partir de outra perspectiva. Os homens que,
supostamente, fazem o contrato original s\u00e3o homens brancos, e seu pacto
fraterno tem tr\u00eas aspectos: o contrato social, o contrato sexual, [que
legitima o dom\u00ednio dos homens sobre as mulheres] e o contrato de
escravid\u00e3o, que legitima o dom\u00ednio dos brancos sobre os negros\u201d

(PATEMAN, p. 324). Nesse sentido, \u201csomente os homens \u2013 que criam a

vida pol\u00edtica \u2013 podem fazer parte do pacto original, embora a fic\u00e7\u00e3o pol\u00edtica
fale tamb\u00e9m \u00e0s mulheres por meio da linguagem do 'indiv\u00edduo'. Uma
mensagem curiosa \u00e9 enviada \u00e0s mulheres, que representam tudo o que o
indiv\u00edduo n\u00e3o \u00e9, mas a mensagem deve ser continuamente transmitida
porque o significado do indiv\u00edduo e do contrato social depende das
mulheres e do contrato sexual. As mulheres t\u00eam que reconhecer a fic\u00e7\u00e3o
pol\u00edtica e falar sua l\u00edngua, mesmo quando os termos do pacto original as
exclui das conversa\u00e7\u00f5es fraternais\u201d (p. 325).

\u00c9 por isso que a supera\u00e7\u00e3o do patriarcado moderno, institucionalizado pelo
pacto social e pelo direito - que nasce burgu\u00eas, conforme demonstram
Engels e Kaustky em seu Socialismo Jur\u00eddico e patriarcal, como aponta
Pateman \u2013 s\u00f3 pode se dar por meio da cria\u00e7\u00e3o de uma sociedade livre, na

qual as mulheres sejam cidad\u00e3s aut\u00f4nomas. E isso requer o abandono dessa
hist\u00f3ria (do pacto social) e da constru\u00e7\u00e3o de uma nova hist\u00f3ria, da qual as
mulheres fa\u00e7am parte na condi\u00e7\u00e3o de autoras. Essa \u00e9 a pauta do feminismo
que advogo. Um feminismo que se preocupa, em todos os campos do
conhecimento, em n\u00e3o apenas descrever a realidade, mas analis\u00e1-la
criticamente, apontando como ela tem operado de modo a excluir ou a criar
as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias \u00e0 liberdade e autonomia das mulheres.

Nesse sentido, o questionamento colocado pela cr\u00edtica feminista ao direito
moderno diz respeito justamente ao fato de que o universalismo por ele
postulado n\u00e3o tem se concretizado, ou, pelo menos, n\u00e3o no ritmo desejado
por aquelas que dele se encontram exclu\u00eddas. E essa \u00e9 certamente uma das
raz\u00f5es pelas quais muitas das reivindica\u00e7\u00f5es e discuss\u00f5es conduzidas pelo
movimento feminista, em todo o mundo, t\u00eam como elemento central a
condi\u00e7\u00e3o c\u00edvica e legal das mulheres.

A apropria\u00e7\u00e3o do discurso jur\u00eddico pelas feministas, no campo acad\u00eamico,
se deu, conforme aponta Nicola Lacey (2004), em um processo
caracterizado por tr\u00eas diferentes fases. A primeira delas denunciou a

completa aus\u00eancia da mulher e de seus problemas da agenda do estudo do
direito. Com isso, conseguiu-se a abertura da teoria do direito para o exame

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