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Huizinga - A Figura Da Morte Em Dante

Huizinga - A Figura Da Morte Em Dante

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11/16/2011

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text

original

 
A
FIGURA DA MORTE EM
D
ANTE
 
Johan HuizingaUm antigo texto atribui a um dos dois filhos de Dante, sem saber se se trata de Jacopo ou Piero, umpoema em tercetos que começa assim:
Io son la Morte, principessa grande,Che la superbia humana in basso pono:Per tutto mondo 'l mio nome si spande.Trema la terra tutta nel mio suono:Gli re e gran maestri in piccol'oraPer lo mio sguardo caggion del suo trono.La forza giovenil non vi dimoraChe subito non vada in sepolturaFra tanti vermi, che così 'l divora.Soldato, che ti vale tua armadura,Che la mia falce non ti sbatta in terra,Perchè non facci la partenza dura?
1
 
À primeira vista, parece-me possível que estes versos não pertençam à primeira metade do séculoXIV, pois revelam um parentesco grande demais com um gênero que apenas surge imediatamentedepois da metade do século XV, e que se baseia em representações imagéticas das danças da morte– ainda que, no caso desse poema, não seja reproduzida a lista inteira de profissões ou funções cujodesenlace é a morte, como por exemplo na seguinte poesia espanhola, que assim também se inicia:
tradução de Alexandre Dal Farra.
1
“Eu sou a Morte, sou princesa grande/ Que a soberba humana depõe por terra:/ Por todo o mundo o meu nome seexpande.// Treme a terra toda ao meu som:/ Os reis e grandes mestres num átimo/ Pelo meu olhar caem do seu trono.// Não persiste força juvenil/ Que súbito não vá para a sepultura/ Entre tantos vermes, que assim a devoram.// Soldado, deque vale tua armadura:/ Para que a minha foice não te deite por terra,/ Para que não faça a partida dura?” [traduções deEduardo Sterzi]
 
Yo so la muerte cierta á todas criaturasQue son é seran en el mundo durante;Demando y digo, o orbe, porque curasDe vida tan breve en punto pasante.
2
 
Sendo fundada ou não essa dúvida sobre a autoria dos Alighieri, o poema é um bom exemplo decomo, na literatura, uma ideia pode gradualmente tanto refinar-se, quanto enrudecer-se.Teria sido a influência da poesia franciscana, que suplantou aquelas imagens da morte detempos anteriores, nobres e sóbrias, e colocou no seu lugar essa visão macabra e assustadora? No
 Laude
, de Jacopone da Todi, já se toca abertamente no tema da putrefação do cadáver
3
– mesmo quese considere injusta a atribuição a ele do poema que começa assim:
Ecco la pallida Morte,Laida, scura e sfigurata,
4
 
e que, indo um pouco mais adiante, como diz Emile Gebhart:
étale, avec une emphase lugubre,
 
toutes les misères de la tombe
[expõe, com uma ênfase lúgubre, todas as misérias do túmulo]
.
 Todos os poetas cortesãos do
 Duecento
evitavam uma conjuração demasiado apavorante damorte. A ocasião em que ela entra em cena nos poemas de amor é, na maior parte das vezes, a daqueixa contra a morte, que leva a amada embora, que destrói a beleza. E contudo essas queixas nãosão, ali, nem tenebrosas, nem passionais.
Morte, perchè m' ài fatta si guerraChe m' ài tolta madonna, ond' io mi dolglio?La flor de le bellezze è morta in terraPerchè lo mondo non amo nè volglio.Villana morte, che non ài pietanza...
5
 
2
“Eu sou a morte certa para todas as criaturas/ Que são e serão no mundo perdurante;/ Demando e digo: ó homem, porque curas/ de vida tão breve, mais que inconstante.”3
 Le laude
, ed. G. Ferri, Bari, 1915, no. XII, XXV, p. 22, 51.
4
“Eis a pálida Morte,/ Torpe, escura e desfigurada,”
5
“Morte, por que me fizeste tão grande guerra,/ arrancando minha dama, razão de lamento?/ A flor das belezas mataste
 
 Este deriva do Círculo Siciliano
 
de Frederico II, e é atribuido a Giacomino Pugliese. O seguinte é anônimo:
Dispietata morte e fera,Cierto se' da biasmare,Che non ti vale pregheraNè merzè chiamare...
6
 
Dentre os amigos de Dante, Lapo Gianni encontrou uma variação estranha do motivo da queixa“Ser Lapo Gianni disse contro la morte”, dizia a velha epígrafe da
canzona
, que assim se inicia
7
:
O morte, de la vita privatice,O di bem guastatrice,Dinanzi a cui porro, di te lamento?Altrui non sento ch' al divin fattore.
8
 
Ele ameaça a morte com a certeza de que no dia do Juízo final ela própria terá de sujeitar-se à morte– e se deleita com essa previsão: por vingança, ele cederia para isso a própria mão:
O morte scura di laida semblanza,O nave di turbanza...
9
 
Guido Cavalcanti, que como poeta foi de todos o mais próximo de Dante, já dera ao tema um outrotom:
Morte gientil, rimedio de' cattiviMerzè merzè a man giunte ti cheggio:Vienmi a vedere prendimi, chè peggiona terra,/ donde o mundo não amo nem quero./ Vilã morte, que não tens piedade...”
6
“Desapiedada morte, e feroz,/ Decerto és de reprovar,/ Já que não te vale prece/ Nem misericórdia clamar...”7
 Liriche del dolce stil nuovo
, Ed. Ercole Rivalta, Venezia, 1906, p. 115.
8
“Ó morte, que nos priva da vida/ E nos devasta o bem,/ A quem de ti me lamentarei?/ Não encontro outro: o divinoartífice.”
9
“Ó morte escura de torpe semblante,/ Ó nave no turbilhão...”

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