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Quem tem essa medida de pressão, antes considerada normal,
deve abrir o olho e adotar atitudes preventivas: o valor agora
indica pré-hipertensão, dizem especialistas americanos. Entenda
por quê.
De tempos em tempos, os médicos se reúnem para, baseados em
evidências científicas, traçar diretrizes para tratamento e a prevenção
de males. Foi assim com os nefrologistas e os cardiologistas
americanos, a turma que se dedica à hipertensão. Em maio do ano
passado eles soltaram uma prévia de novas orientações dos Institutos
Nacionais de Saúde, nos Estados Unidos – mas o relatório completo
só foi publicado nos últimos dias de 2003. Armou-se o maior rebu.
Tudo porque os especialistas modificaram a maneira de classificar as
medidas da pressão sangüínea. O pessoal que antes se encontrava
nas categorias normal (de 12 por 8 a 12,9 por 8,4) e limítrofe (de 13
por 8,5 a 13,9 por 8,9) se tornou pré-hipertenso da noite para o dia.
Muita gente pensou já estar doente, o que não é o caso. “De início
houve alguma confusão”, disse à SAÚDE! Daniel W. Jones, professor
de Medicina da Universidade do Mississipi, nos EUA, que ajudou a
redigir o documento. Vários médicos brasileiros e europeus torceram o
nariz para essa história.
Ao adotarem a nomenclatura pré-hipertensão, os americanos, além de
tentar simplificar a forma como se classificam as medidas de pressão
arterial, visam principalomente fazer com que as pessoas adotem
atitudes preventivas para que não fiquem anos mais tarde à mercê do
mal – não há estatísticas brasileiras, mas somente nos Estados
Unidos acredita-se que existam mais de 50 milhões de hipertensos. E
ficar sob os caprichos da pressão alta é péssimo: ela está diretamente
associada a derrame, infarto e problemas renais.
“A pré-hipertensão é uma forma de alerta, como um sinal amarelo”, diz
o nefrologista Agostinho Tavares, da Universidade Federal de São
Paulo. “Ou seja, quando você passa no amarelo, não há propriamente
uma infração da lei”, ele completa. Só que, sem dúvida, há um risco.
“Os pré-hipertensos são os mais suscetíveis a ter pressão alta”, diz
Daniel W. Jones. “Dessa forma, devem mudar seu estílo de vida.” Em
outras palavras, esses indivíduos não são considerados doentes que
precisam incluir no seu dia-a-dia remédios para controlar o problema,
porém, devem ficar espertos.
O cardiologista Heno Ferreira Lopes, do Instituto do Coração, em São
Paulo, vai mais longe: “Com ou sem risco, todo mundo deveria se
prevenir”. O conselho deve ser reforçado para quem tem histórico de
hipertensão na família. Um estudo conduzido por Ferreira Lopes
comparou 42 filhos de portadores de um tipo severo de hipertensão
com 35 jovens cujos pais tinham um perfil normal. Resultado: a
pressão do primeiro grupo foi maior do que a do outro.
O desafio para os pré-hipertensos é evitar os fatores clássicos que
põem a pressão lá nas alturas, como aqueles quilos a mais, muito sal
na comida, pouca atividade física, a escassez de frutas, verduras e
legumes na alimentação cotidiana, sem falar nas doses exageradas de
bebidas alcoólicas e nas tragadas de cigarro.
Desses fatores, o excesso de peso chama a atenção por ser uma das
pragas do nosso século. “O obeso tem mais líquido circulando no
corpo”, explica o cardiologista e nefrologista Celso Amodeo, do
Hospital do Coração, em São Paulo, e presidente da Sociedade
Brasileira de Cardiologia. Esse volume extra força o organismo a
trabalhar redobrado, principalmente os rins, encarregado de filtrar os
líquidos e responsáveis pelo equilíbrio dos níveis de pressão arterial.
E mais: a gente não se cansa de ouvir que os rechonchudos têm
maior tendência a acumular gorduras nas artérias. É chato repetir a
ladainha, porém é a pura verdade, já que esse acúmulo atrapalha a
livre circulação do sangue. E esse problema de trânsito provoca a
subida você já sabe do quê, não é mesmo? O relatório americano
por semana é uma boa, recomenda o relatório. Na contramão desse
hábito saudável, refestelar-se no sofá diante da tevê colabora para a
pressão disparar. “O sedentário tem de produzir mais insulina para que
o açúcar entre nas células”, explica Celso Amodeo. Quando esse
hormônio tem seus níveis elevados no organismo, há um estímulo
para que o sistema nervoso simpático entre em ação – e uma de suas
funções é liberar substâncias que deixam os vasos mais contraídos. O
final dessa novela já é conhecido por todos nós.
Caprichar além da conta nas pitadas de sal pode ser um excelente
combustível para explodir a pressão. Determinados indivíduos são
mais sensíveis ao ingrediente. Mesmo ingerindo pequenas
quantidades, a pressão deles salta. Infelizmente ainda não há um
exame para flagrar essa tendência. Dessa forma, a saída garantida é
moderação sempre.
“O indicado são de 4 a 6 gramas de sal por dia, o equivalente a 1
colher de chá”, aconselha Celso Amodeo – os americanos são ainda
mais radicais e recomendam somente cerca de 2,5 gramas por dia,
pouco mais do que 1 colher de café.
O problema é que, no Brasil, se ultrapassa qualquer um desses limites
fácil, fácil, chegando-se a consumir até 16 gramas por dia. Além disso,
o tempero pode estar escondido até em doces, como o chocolate. Ele
também é muito utilizado para conservar produtos industrializados,
como enlatados e embutidos. O olho no rótulo é indispensável,
portanto, já que o ingrediente sobrecarrega os rins.
Os cientistas ainda não sabem por quê, mas o álcool além da conta é
outro que dispara os níveis de pressão. “Ele intensifica a presença de
hormônios do estresse, que levam à vasoconstrição”, suspeita a
cardiologista Lucélia Cunha Magalhães, doutoranda do Instituto de
Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia. “Em pequenas
doses, no entanto, pode até fazer bem, pois deixa o sangue mais
fluido e eleva a proporção de HDL, o colesterol bom”, ela completa.
Assim, uma taça diária de vinho tinto é vem vinda – a garrafa inteira
pode ser outra história.
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