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Luuanda, «vavÓ xÍxi e Seu Neto Zeca Santos», Luandino Vieira

Luuanda, «vavÓ xÍxi e Seu Neto Zeca Santos», Luandino Vieira

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estória da LITERATURA ANGOLANA da autoria de José Luandino Vieira. (Palavras-chave: O musseque/a mistura cultural; personagens e tipos humanos; o conflito banal e a lição fabular: "o seu a seu dono/pede e receberás"; a repressão colonial).
estória da LITERATURA ANGOLANA da autoria de José Luandino Vieira. (Palavras-chave: O musseque/a mistura cultural; personagens e tipos humanos; o conflito banal e a lição fabular: "o seu a seu dono/pede e receberás"; a repressão colonial).

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03/18/2014

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Luandino Vieira
LUUANDA
est\u00f3rias
(1\u00aa edi\u00e7\u00e3o: Luanda, 1964)
\u201cMu\u2019xi ietu ia Luuanda mubita ima ikuata sonii...\u201d1
(de um conto popular)
1 ConsultarGloss\u00e1rio, no final da est\u00f3ria.
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\u201cVav\u00f3 X\u00edxi e seu neto Zeca Santos\u201d
Luandino Vieira

Tinha mais de dois meses a chuva n\u00e3o ca\u00eda. Por todos os lados do musseque, os pequenos filhos do capim de novembro estavam vestidos com pele de poeira vermelha espalhada pelos ventos dos jipes das patrulhas zunindo no meio de ruas e becos, de cubatas arrumadas \u00e0 toa. Assim, quando vav\u00f3 adiantou sentir esses calores muito quentes e os ventos a n\u00e3o querer mais soprar como antigamente, os vizinhos ouviram-lhe resmungar talvez nem dois dias iam passar sem a chuva sair. Ora a manh\u00e3 desse dia nasceu com as nuvens brancas \u2014 mangonheiras no princ\u00edpio; negras e malucas depois \u2014 a trepar em cima do musseque. E toda a gente deu raz\u00e3o em vav\u00f3 X\u00edxi: ela tinha avisado, antes de sair embora na Baixa, a \u00e1gua ia vir mesmo.

A chuva saiu duas vezes, nessa manh\u00e3.

Primeiro, um vento raivoso deu berrida nas nuvens todas fazendo-lhes correr do mar para cima do Kuanza. Depois, ao contr\u00e1rio, soprou-lhes do Kuanza para cima da cidade e do Mbengu. Nos quintais e nas portas, as pessoas perguntavam saber se sa\u00eda chuva mesmo ou se era ainda brincadeira como noutros dias atrasados, as nuvens reuniam para chover mas vinha o vento e enxotava. Vav\u00f3 X\u00edxi tinha avisado, \u00e9 verdade, e na sua sabedoria de mais-velha custava falar mentira. Mas se ouvia s\u00f3 ar quente \u00e0s cambalhotas com os pap\u00e9is e folhas e lixo, pondo rolos de poeira pelas ruas. Na confus\u00e3o, as mulheres adiantavam fechar janelas e portas, meter os monas para dentro da cubata, pois esse vento assim traz azar e doen\u00e7a, s\u00e3o os feiticeiros que lhe p\u00f5em.

Mas, cansado do jogo, o vento calou, ficou quieto. Durante algum tempo se sentiram s\u00f3 as folhas das mulembas e mandioqueiras a tremer ainda com o balan\u00e7o e um p\u00edrulas, triste, cantando a chuva que ia vir. Depois, pouco-pouco, os pingos da chuva come\u00e7aram a cair e nem cinco minutos que passaram todo o musseque cantava a cantiga d\u2019\u00e1gua nos zincos, esse barulho que adiantou tapar os falares das pessoas, das m\u00e3es gritando nos monandengues para sair embora da rua, carros cuspindo lama na cara das cubatas, e s\u00f3 mesmo o falar grosso da trovoada \u00e9 que lhe derrotava. E quando saiu o grande trov\u00e3o em cima do musseque, tremendo as fracas paredes de pau-a-pique e despregando madeiras, papel\u00f5es, luandos, toda a gente fechou os olhos, assustada com o brilho azul do raio que nasceu no c\u00e9u, grande teia d\u2019aranha de fogo, as pessoas juraram depois as torres dos reflectores tinham desaparecido no meio dela.

Com esse jeito choveu muito tempo.

Era meio-dia j\u00e1 quase quando come\u00e7ou ficar mais manso, mesmo com o c\u00e9u arreganhador e feio, todo preto de nuvens, O musseque, nessa hora, parecia era uma sanzala no meio da lagoa, as ruas de chuva as cubatas invadidas por essa \u00e1gua vermelha e suja correndo caminho do alcatr\u00e3o que leva na

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Baixa ou ficando, teimosa, em cacimbas de nascer mosquitos e barulhos de r\u00e3s. Tinha mesmo cubatas ca\u00eddas, e as pessoas, para escapar morrer, estavam na rua com as imbambas que salvaram. S\u00f3 que os capins, aqueles que conseguiam espreitar no meio das lagoas, mostravam j\u00e1 as cabe\u00e7as das folhas lavadas e brilhavam uma cor mais bonita para o c\u00e9u ainda sem azul nem sol.

Na hora que Zeca Santos saltou, empurrando a porta de repente, e escorregou no ch\u00e3o lamacento da cubata, vav\u00f3 p\u00f4s um grito pequeno, de susto, com essa entrada de cipaio. Zeca riu; vav\u00f3, assustada, refilou:

\u2014 En\u00e1, menino!... Tem prop\u00f3sito! Agora pessoa de fam\u00edlia \u00e9 c\u00e3o, n\u00e3o \u00e9? Licen\u00e7a j\u00e1 n\u00e3o pede, j\u00e1
n\u00e3o cumprimenta nos mais-velhos...
\u2014 Desculpa, vav\u00f3! \u00c9 a pressa da chuva!

Vav\u00f3 X\u00edxi muxoxou na desculpa, continuou varrer a \u00e1gua no pequeno quintal. Tinha adiantado na cubata e encontrou tudo parecia era mar: as paredes deixavam escorregar barro derretido; as canas come\u00e7avam aparecer; os zincos virando chapa de assar castanhas, os furos muitos. No ch\u00e3o, a \u00e1gua queria fazer lama e mesmo que vav\u00f3 punha toda a vontade, nada que conseguia, voltava sempre. Viu bem o melhor era ficar quieta; sentou no caixote e, devagar, empurrou as massu\u00edcas no s\u00edtio mais seco para fazer o fogo, adiantar cozinhar almo\u00e7o.

L\u00e1 fora, a chuva estava cair outra vez com for\u00e7a, grossa e pesada, em cima do musseque. Mas j\u00e1 n\u00e3o tinha mais trov\u00e3o nem raio, s\u00f3 o barulho assim da \u00e1gua a correr e a cair em cima da outra \u00e1gua chamava as pessoas para dormir.

\u2014 Vav\u00f3?! Ouve ainda, vav\u00f3!...
A fala de Zeca era cautelosa, mansa. Nga X\u00edxi levantou os olhos cheios de l\u00e1grimas do fumo da
lenha molhada.
\u2014 Vamos comer \u00e9 o qu\u00ea? Fome \u00e9 muita, vav\u00f3! De manh\u00e3 n\u00e3o me deste meu matete. Ontem pedi
jantar, nada! N\u00e3o posso viver assim...

Vav\u00f3 X\u00edxi abanou a cabe\u00e7a com devagar. A cara dela, magra e chupada de muitos cacimbos, adiantou ficar com aquele feitio que as pessoas tinham receio, ia sair quissemo, ia sair quissende, vav\u00f3 tinha fama...

\u2014 Sukua\u2019! Ent\u00e3o, voc\u00ea, menino, n\u00e3o tens mas \u00e9 vergonha?... Ontem n\u00e3o te disse dinheiro \u2018cabou? N\u00e3o disse para o menino aceitar servi\u00e7o mesmo de criado? N\u00e3o lhe avisei? Diz s\u00f3: n\u00e3o lhe avisei?...

\u2014 Mas, vav\u00f3!... V\u00ea ainda!... Trabalho estou procurar todos os dias. Na Baixa ando, ando, ando
\u2014 nada! No musseque...
\u2014 Cala-te a boca! Voc\u00ea pensa que eu n\u00e3o lhe conhe\u00e7o, enh? Pensa? Est\u00e1 bom, est\u00e1 bom, mas
quem lhe cozinhou fui eu, n\u00e3o \u00e9!?

Tinha levantado, parecia as palavras punham-lhe mais for\u00e7a e juventude e ficou parada na frente do neto. A cabe\u00e7a grande do menino toda encolhida, via-se ele estava procurar ainda uma desculpa melhor que todas desses dias, sempre que vav\u00f3 adiantava xingar-lhe de mangonheiro ou suinguista, s\u00f3 pensava em bailes e nem respeito mesmo no pai, longe, na pris\u00e3o, ningu\u00e9m mais que ganhava para a cubata, como \u00e9 iam viver, agora que lhe despediram na bomba de gasolina porque voc\u00ea dormia tarde, menino?...

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