Por um lado, estamos no período presente e posterior ao século XVI, mais precisamente como
fim do período medieval e princípio do moderno, por outro, estamos em momento de grandesadversidades e conflitos continentais referentes a abastecimento, a conflitos territoriais,efervescência da oposição reforma e contrarreforma, necessidade de se encontrar novosmercados para fomentar o que será designado mercantilismo. Esses caracteres aferidos nos
conduzem à assertiva da importância de se estabelecer, pelo menos entre os territórios
compostos por população de culturas afins, um controle das relações que possibilite, por suavez, coordenar as relações com os territórios externos (4). Parece-nos demasiado claro que a
todo período histórico de instabilidade decorra a flexão de forças para a promoção dasegurança territorial, política e jurídica.
É nesse contexto que ocorrem as designadas Ordenações Filipinas que, apesar de seremelaboradas de forma confusa e não tão contundente quanto serão os códigos futuros, chegam
a vigorar na região do Brasil e desaguar no Código Civil Brasileiro.É fato histórico que confirma nossa tese, uma lei (sem número) de 20 de outubro de 1823,assinada por D. Pedro I, que estabelecia a observação das Ordenações nos Brasil, assim
como as leis, regimentos, alvarás e resoluções vigentes em Portugal até 25 de abril de 1821
(data de fuga de D. João VI de Portugal devido ao “bloqueio continental” imposto
por NapoleãoBonaparte). Esta lei imperial estabelecia que a vigência estender-se-ia até a formulação de um
código civil que se verificou em 1916. O Código Civil brasileiro de 1916 no Art. 1807 dispunhasobre a revogação das Ordenações, Alvarás, Leis, Decretos, Usos e Costumes concernentesàs matérias de direito civil reguladas no Código (5).Portanto, torna-se fundamental considerar que as Ordenações Filipinas, enquanto intento de
codificação de direitos civis, subvieram como importantes princípios basilares para o projeto decodificação civil brasileiro iniciado por Augusto Teixeira de Freitas em 1855, do qual decorreu a
Consolidação das Leis Civis, realizada por ele. Este influenciou não somente o Código Civil de1916, mas também códigos do Uruguai, Paraguai, Rússia e Alemanha (6).A codificação civil nasce do processo de secessão ocorrido na região brasileira no princípio do
século XIX, a qual ocorre no momento da feitura da primeira Constituição do Reino de Portugal
e que, de acordo com Miranda (7), serviria de matriz para a Constituição do Império de 1824.As Constituições têm caráter multiforme (8), com aspectos liberais, com influências francesas,
inglesas e norte-americanas, mas que concentram em si algo do caráter absolutista, ao possuirum aspecto próprio, a objetivação de uma ferramenta concebida por Benjamin Constant, a
saber, o Poder Moderador.A Constituição do Império, salienta Afonso Arinos (9), possuía uma poderosa ferramenta capazde inibir as forças progressistas brasileiras e de seu órgão legislativo, capaz de desigualar,
através da deturpação da teoria de Constant, ainda mais algum possível equilíbrio dos
designados Poderes (10) do Estado. Podia ainda, segundo Afonso Arinos, assim comoefetivamente o fez, devido à instabilidade monárquica, dissolver as casas legislativas, mesmo a
constituinte (como ocorreu), indicando e promovendo nova casa para legislar, do que eleconclui que, apesar de fiel aos próprios entendimentos e aos anseios do povo brasileiro, fora
uma coadjuvante no processo legislativo originariamente brasileiro. Cabe considerar ainda que
a Constituinte de 1823 concentrava as funções de legislador especial e ordinário, aspecto que,ao revés de atribuir mais força ao Legislativo originário, acabou por enfraquecê-lo, uma vez que
este concentrou demasiados esforços na feitura de legislação ordinária, ao invés da elaboraçãoda Constituição (11).
Precisamos concordar que o “Poder Moderador” desigualou ainda mais a já desigual
separação de poderes, pois concentrava nas mãos do imperador duas funções, a do executivo
e a do moderador, salientando-se ainda que a função legislativa era bicameral, composta por
“Câmara dos Deputados (eletiva e temporária) e pelo Senado (composto por membros
vitalícios designados em listas tríplices resultan
tes de eleição provincial)” (12), ou seja, sob
influência direta do imperador.
Essa força administrativa monárquica brasileira constituirá a base de toda a governançanacional, assim como será base para fortes críticas ao presidencialismo republicano brasileiro,