conhecimentos prévios (premissas) que não teriam sido submetidos à dúvida. Logo, duvidosos, falsos (equivalência, no planoteórico, entre duvidoso, verosímil – provavelmente verdadeiro - e falso). O que tornaria o 1 princípio (fundamento/base) do seusistema de saber duvidoso, falso e, consequentemente, todos os outros conhecimentos dele extraídos (motor dorconhecimento) duvidosos, falsos. O que seria a suprema das ironias considerando o projecto cartesiano de substituição daciência incerta da Idade Média por uma ciência verdadeira e certa. Aliás, Gassendi afirma inclusive que a certeza da minhaexistência podia ser extraída de um acto do corpo, como ”andar ou ver”. Logo, a 1º verdade poderia ser
“Ando ou vejo, logoexisto”. Descartes responde afirmando que
“ Eu vejo ou ando, logo existo” não pode ser o 1º princípio(conhecimento), abase da ciência (edifício do saber) verdadeira e certa porque não é um conhecimento indubitável, verdadeiro, isto é, pode serposto em dúvida. Se não vejamos: Eu posso julgar que ando ou vejo (acto do corpo) e na realidade estar a sonhar(pensar/julgar) – não resiste à segunda razão de duvidar – e estar em casa, deitado, imóvel e de olhos fechados. Mas se pensarque estou a ver ou a andar (acto da mente) , já é um conhecimento indubitável, pois se penso necessariamente existo. Logo, a1º verdade tem de ser “Penso, logo existo”. CARÁCTER RACIONALISTA DA FILOSOFIA CARTESIANA/CRÍTICA AO CONHECIMENTOSENSÍVEL.Consequentemente o “Cogito, ergo sum” é
um conhecimento absolutamente evidente
ou indubitável porque resiste àdúvida, ao exame mais rigoroso e severo. É uma verdade absolutamente primeira porque não há qualquer verdade anterior aesta. Neste momento duvidamos de tudo à excepção do sujeito que tudo duvida, o “eu pensante”. É o motor do conhecimentoporque dele vamos extrair todos , deduzir, novos conhecimentos, verdades.
É o critério/modelo de verdade
porque só asideias/conhecimentos tão claras e distintas como o “Penso, logo existo” vão ser consideradas verdadeiras, evidentes. Estamosperante uma nova concepção de verdade que acentua o aspecto racionalista da filosofia cartesiana, pois a verdade já não é,como se pensava, o acordo do juízo com a coisa mesma (ordem do real), mas uma qualidade interna da ideia; é verdadeira aideia que for clara e distinta (ordem das razões). Mas como estávamos a dizer o “eu pensante” é uma alma (
RESCOGITANS/Substância pensante)
cuja natureza é o pensamento
e é
distinta do corpo
(
RES EXTENSA
) cujos atributossão a extensão, a figura e o movimento e que ainda está sujeito à dúvida. Estou certo de ter uma alma quando ainda não sei seexiste um corpo e a
alma
não deve ser concebida
como corporal, é pura consciência (espírito). A alma pensa-se econhece-se a si mesma sem o corpo ou a mediação dos sentidos.
Consequentemente, o “Penso, logo existo” (1ºprincípioda filosofia cartesiana) implica simultaneamente a existência (eu) e a essência (pensante). Descartes faz uso de outra ideiainata, ideia clara e distinta que nasceu connosco, ( “
...observaremos o que é manifesto, por uma luz ( razão intuitiva )que existe naturalmente nas nossas almas” )
nomeadamente a de
Princípio de Substância
que nos diz: 1) O Nada nãotem atributos, 2) Onde há um atributo, tem de existir uma substância (coisa) e 3) Quantos mais atributos se conhece, melhor seconhece a substância. Analisemos a 1º verdade “Penso, logo existo” e verificamos que está apenas presente um atributo, opensamento. Segundo o princípio de substância onde há 1 atributo, há 1 substância (alma- coisa que pensa) e todos osatributos, até agora conhecidos, reduzem-se ao pensamento. Consequentemente a alma (mente) conhece-se melhor do que ocorpo e está dele separada. A referência a coisas exteriores ao cogito, ainda que nada exista que lhe corresponda, evidencia aexistência da mente (alma). Subjacente a crítica de Descartes aos filósofos anteriores que tinham aceite que mais facilmente sepoderia conhecer as coisas do corpo do que as coisas do espírito. Está a recusar aos sentidos qualquer legitimidade para seconstituírem como critério de verdade, pois não servem para conhecer com verdade. Apresenta uma concepção “pobre” dohomem cartesiano ( impessoalidade) ao identificá-lo com o eu, a alma ( coisa que pensa). O corpo não pertence à natureza do“eu”, da alma. O que levou Paul Ricoeur a afirmar “ Ele – o Cogito- não é uma pessoa “. Esgota-se em ser uma “coisa que tempensamentos”.
O Cogito mostra que só existe o pensamento, pois o “eu pensante” encontra-se sozinho com os seus pensamentos, ideiasou representações (estado de solipsismo). Apenas no pensamento se revela a realidade; as coisas existem enquanto pensadas(idealismo). O estado de clausura ou de solipsismo do sujeito pensante só será ultrapassado quando for provada a existênciade Deus, Ser Perfeito que vai garantir a correspondência ou o acordo entre as ideias e as coisas. Mas o que se deve entenderpor “ideia”? A
“ideia”
possui uma
realidade formal
( modos do meu eu; são todas semelhantes ) e uma
realidade objectiva
( conteúdo representativo, diferem entre si ). Por exemplo, a
ideia de Deus, Ser Perfeito
(
ideia inata
, clara e distinta ) temcomo realidade objectiva ser uma substância infinita, eterna, imutável, independente, omnipotente, omnisciente, o que significaque a sua realidade objectiva ultrapassa a realidade formal do eu pensante. É de ter presente que Descartes classifica as ideiasem três tipos:
1) inatas
( ideias claras e distintas que
residem na nossa razão
objecto da intuição evidente, não sendoproduzidas nem pelos sentidos nem pela imaginação, pois foram colocadas em nós pelo Ser Perfeito “sementes deverdade/essências eternas e imutáveis” –semina scientitae- exemplos, as ideias de Deus, alma e
as únicas que permitemfazer ciência
),
2) adventícias
( produzidas pelos sentidos e referem-se às qualidades sensíveis das coisas, exemplo, a ideiade verde ) e
3) factícias
(produzidas pela nossa imaginação com base em dados provenientes dos sentidos, exemplo, a ideiade sereia). O que reforça o caracter racionalista de Descartes.Como ultrapassar o estado de solipsismo do eu pensante?
Existência de um “eu” que pensa em ideias
, isto é, de um euque está sozinho com os seus pensamentos (clausura). O eu pensante irá proceder ao recenseamento ( reflexão sobre simesmo ) das suas ideias que terão necessariamente de ser inatas, conaturais à razão humana e que são aprendidasintuitivamente. Ora é preciso explicar as ideias não só quanto à sua realidade formal, vendo nelas apenas estados ou modos doeu pensante, mas também quanto à sua realidade objectiva, ao seu conteúdo e compreender que elas exigem causas distintasna medida em que têm conteúdos distintos. Ora, é a ideia de Ser Perfeito que vai permitir a superação do solipsismo (clausurado pensamento), a existência de uma realidade diferente do sujeito pensante, pois a sua realidade objectiva exige como causaum outro ser que não o eu pensante, nomeadamente o SER PERFEITO, Deus.
“ (...)
terá, então, um motivo justo paradesconfiar da veracidade de tudo aquilo que não apercebe de forma distinta
(...) que não poderá ter qualquer ciência(certa) até conhecer aquele que o criou
“ (artigo 13).A razão cartesiana é uma
RAZÃO METAFÍSICA
: fundamenta-se em Deus, Ser Perfeito. É Deus que garante a veracidade oua objectividade das evidências. O que são as “evidências “? Como o próprio Descartes afirma no
“Discurso do Método” (IIºParte, 1º Regra do Método)
e passo a citar “ O
primeiro
consistia em
nunca aceitar como verdadeira alguma coisasem a conhecer evidentemente como tal: isto é, evitar cuidadosamente a precipitação e a
prevenção
; em
nãoincluir nos nossos juízos senão o que se apresentasse tão clara e distintamente
ao meu espírito que não tivessenenhuma ocasião para o pôr em dúvida”, isto é,
as ideias claras
( “ que está presente e manifesto num espírito atento “ –ideia imediatamente presente ao espírito que a percepciona ) e
distintas
( “ só compreende em si o que aparecemanifestamente àquele que a considera “ – só contém o que lhe pertence, não se confunde com nenhuma outra ideia – artigo45)
captadas pela razão intuitiva
. É de ter presente, como Descartes afirma no artigo 46, que uma ideia pode ser clara semser distinta, mas não conversamente. Se enganar é sinal de fraqueza, imperfeição, Deus que é perfeito ( completo ) não podeenganar. Se Deus enganasse não seria Deus. Ora, se Deus não é enganador, Descartes rejeita ou anula a hipótese que lançavadúvidas sobre as evidências matemáticas e deixa de duvidar da validade do entendimento humano, pois está garantida a
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