High Quality
Open the downloaded document, and select print from the file menu (PDF reader required).
Wolf Hall
Northumberland, Inglaterra
Outubro de 1487
Sem dúvida, Alícia era a cara de seu real progenitor, ainda que não gozasse da proteção de um nascimento legítimo. Um arrepio frio percorria a espinha de sir Edward à simples idéia do que aconteceria com a protegida se os espiões de Henry Tudor descobrissem sua existência. O primeiro primo dela, o pobre débil conde de Warwick, já definhava na Torre ao prazer do novo rei.
_Não, pensa que a família eram pequenos agricultores que morreram da praga quando ela era bebê. - Abriu um largo sorriso. - Acredita que minha esposa e eu sejamos o ourives de York e sua esposa. Achei mais seguro esconder- lhe a verdade até que atinja a maioridade.., ou se case. – Permitiu à última palavra pairar no ar entre eles.
_Foi precisamente por esse motivo que vim ao senhor. Ela nasceu mais elevada do que qualquer comerciante de York. Embora o pai levantasse saias da França às fronteiras escocesas, foi também nosso último rei Edward, que Deus tenha sua alma. - Fez um rápido sinal da cruz.
_Amém. - Olhou para sir Edward, ao mesmo tempo que tamborilava com os dedos o tampo da mesa de tábuas largas. - Contou- me uma história interessante, lorde Brampton. Gostei principalmente da parte em que o rei Edward o chamou a sua barraca antes da batalha de Bosworth e confiou- lhe o rebento do irmão. - Inclinou-se para a frente na cadeira. - Mas que prova tem?
_Sim, tanto quanto à minha própria esposa de memória abençoada. - O velho conde riu. - Minha senhora jurava que eu preferia a companhia de Edward à dela. As vezes, eu preferia mesmo, pois a mulher era uma resmungona. - Com um suspiro, tomou outro gole de cerveja. - Agora que partiu para o merecido descanso, sinto sua falta. Agora, o que me diz, meu senhor?
_Um dote adequado a sua última filha. - Sentindo que estava próximo do objetivo, sir Edward baixou a voz. - O rei Richard deu-me uma bolsa de moedas de ouro para acompanhar o broche. Não queria que Alícia se unisse ao marido como indigente.
_A jóia basta, embora as moedas possam aliviar minha carga de impostos. Que os Tudor e seus comparsas apodreçam no inferno! Vão esmagar o país com seus malditos impostos. Mal consigo fechar as contas. Meus arrendatários já estão sem recursos.
minha querida Alícia, filha de Edward IV?
Sir Giles coçou o queixo.
_Tenho três filhos homens.
_Alícia só precisa de um para marido.
Edward olhou para a menina no banco. Os fracos raios de sol através da alta janela de arco refletiam- se em seus cabelos dourado- avermelhados, transformando- os num halo de fogo em torno do rosto em forma de coração. Um anjo, comparou, cheio de orgulho. Igualzinha a todos os Plantagenetas. Bom Jesus, proteja- a do pretensioso Tudor.
_O mais velho, John, tem quase vinte anos. Já se casou uma vez, mas a mulher morreu. Quando se casar de novo, terá de ser com uma... parenta legítima, uma vez que ele será o conde de Thornbury depois de mim.
desde que me foi confiada.
Thornbury suspirou e esvaziou a caneca.
_Resta Thomas. - Mordiscou o lábio. - Tem só catorze anos, mas já está do tamanho dos
mentir. Diz o que pensa... Isto é, quando decide falar.
Sir Edward piscou.
_O que quer dizer, meu senhor?
O conde afundou-se no estofado da cadeira.
_Penso que a mãe o mimou demais. Desde pequeno, Thomas sempre evitou a companhia dos irmãos e de meus protegidos. Fechou- se ainda mais depois que minha mulher morreu de parto. Hoje em dia, passa a maior parte do tempo fora, ou treinando no pátio, ou caçando na floresta.
Sir Edward retinha o fôlego. Alícia precisava da proteção de uma família forte, leal à causa de York. Se seus planos se concretizassem, a menina seria meia- irmã do rei de direito. O jovem Richard de York achava- se escondido no interior de Flandres, aguardando atingir a idade necessária para reclamar seus direitos. Mediu com cuidado as palavras seguintes.
_Meu filho Thomas pode ter a força de um boi, mas tem também o cérebro de um. Quase não fala. Quando o faz, é com um de seus malditos cachorros. Para ser franco, meu terceiro filho é um parvo.
Céus, como poderia prometer Alícia a um débil mental? Que outra opção tinha? Devia à mácula em seu nascimento, ela seria uma pária na corte de Borgonha, onde moravam os sim- patizantes de York. Deveria enviá-la à fronteira com a Escócia, ou a um convento? Tanto numa como noutro, ela definharia. Não, jurara solenemente ao rei Richard casar Alicia bem, no dia em que ele fora cruelmente assassinado pelo cão Tudor que agora usava sua coroa.
Um riso feliz interrompeu os pensamentos sombrios de sír Edward. No fundo do salão, Alícia escorregava ao chão a fim de interceptar um filhote de mastim cor de damasco. Ele correu para ela com suas patas desmesuradas, a comprida língua cor- de- rosa pendente do largo focinho negro. O filhote saudou a menina com afetuosas lambidas. O som de esporas raspando as lajes e várias vozes masculinas falando ao mesmo tempo anunciaram a chegada dos filhos do conde.
terra?
Sir Giles balançou a cabeça.
_Meu segundo filho, William. Esse nunca fica sem palavras...
_Bom dia, senhorita - cumprimentou o mais velho, fazendo uma pequena mesura.
Com o cãozinho nos braços, Alícia levantou- se do chão com graça.
_Que Deus lhes conceda um bom dia, meus senhores - replicou, em voz clara e doce.
Embora o animal irrequieto atrapalhasse, executou uma bela reverência. Sir Edward sorriu para a protegida. Tinha só sete anos, mas portava- se como uma princesa. Não fosse o capricho do destino, teria sido uma de fato. Que Deus perdoasse a queda de Edward Plantageneta pelas mulheres.
Deus do céu! O garoto era bonito, concluiu sir Edward. Mais loiro do que os irmãos, com traços bem definidos, ainda que não abençoado por um fio de barba, Thomas Cavendish lembrava um anjo vingador cinzelado em marfim. Aos catorze anos, o terceiro filho do conde já era tão alto quanto os irmãos mais velhos. Os ombros largos e membros longos sugeriam o homem poderoso que se tornaria na maioridade. Procurou no rosto do rapaz algum sinal de incapacidade mental. Surpreso, não viu nenhum. Em vez de retirar- se com o cãozinho, Thomas mantinha- se diante de Alícia como que enraizado no lugar.
Add a Comment