Read without ads and support Scribd by becoming a Scribd Premium Reader.
 
Anti-semitismo e anti-sionismo
António Rego ChavesComecemos pelo conceito: quem é «semita»? Semitas, diz-se nos livros,são os povos que falam ou falaram hebraico, aramaico ou árabe e aos quaisdevemos, além da escrita alfabética, as três grandes religiões monoteístas: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Esses povos habitaram uma áreacontínua e bem delimitada que incluía a península arábica, a estepe sírio-árabe e a costa oriental do Mediterrâneo, desde o Sinai até ao Tauro, a Síriado Norte e a Mesopotâmia. A atitude hostil dirigida apenas a judeus nãodeve, pois, ser classificada como «anti-semitismo» (termo surgido em 1873 pela pena de um jornalista alemão, aliás «anti-semita»,Wilhelm Marr), mascomo «antijudaísmo». Anote-se que o termo «judeu» não designa senão as pessoas que fazem parte da comunidade étnico-cultural e histórica judaica.Explica o historiador Trond Berg Eriksen que, com os seus confradesnórdicos Hakon Harket, Einhart Lorenz, Izabela A. Dahl e Terje Emberlandassina esta bem documentada mas nem sempre imparcial obra, sobretudono último capítulo («O novo anti-semitismo»): «A noção de raças humanassuperiores e inferiores teve origem quando a Europa colonialista necessitoude justificar as suas agressões contra os povos dos outros continentes. Aexploração, a expulsão, a morte e a escravatura não poderiam ser tãocriticadas, uma vez que às vítimas dificilmente se poderia chamar sereshumanos.» (…) «As razões para o anti-semitismo antes da época de‘Contra os Judeus’ (1802), de C. W. Grattenauer, não foram racistas nosentido estrito da palavra. O conceito precoce de ‘raça’ foi tão influenciado pelo pensamento romântico sobre a aparência dos ‘povos’ como pela biologia. Em variados contextos, falou-se em ‘raças’ e ‘povos’ comosinónimos. Era comum falar-se na ‘raça’ francesa, inglesa e alemã. Assim,surpreendentemente tarde apareceu o conceito puramente biológico de raçausado para pessoas – e não, como era habitual, apenas para cavalos e cães.» Neste contexto (mas não esquecendo que ainda hoje há agrupamentos políticos de extrema direita que pretendem ver nos judeus uma «raça») podemos detectar o chamado «anti-semitismo» desde a primeira dispersão
 
dos habitantes do reino de Judá, depois da tomada de Jerusalém por  Nabucodonosor, em 587 antes de Cristo. A mútua intolerância entre o judaísmo e o cristianismo, bem visível na Europa, do Atlântico aos Urales,a partir das primeiras três centúrias da nossa era – cada uma das duasreligiões arvorava deter o monopólio da verdade absoluta – iniciaria umaescalada de violência que se agravaria com o triunfo da Igreja Católica noséculo IV, passaria por grandes chacinas na Alemanha do século XI e pelaInquisição e só se viria a atenuar com a Revolução Francesa. Nos séculosXIX e XX os pogrons no Velho Continente e o nazismo fechariam o ciclo.Durante a Baixa Idade Média (séculos XI a XV), os judeus são acusados por toda a comunidade dita «cristã» de envenenar a água, de espalhar a peste, de matar crianças baptizadas, de profanar hóstias, de usura – como sefossem eles, naqueles tempos, os únicos a praticá-la! Só muito mais tarde,após a «confusão» entre línguas semitas e «raça» semita, Johann GottliebFichte (1762-1814) semearia outra «confusão» de consequências trágicas, ada língua alemã com uma pretensa «raça nórdica» superior. O nazismoviria a inserir-se, então, com toda a naturalidade, numa sequência deinverdades científicas «anti-semitas» que tivera no século XIX os seus maisactivos propagandistas intelectuais: o francês Joseph Arthur Gobineau(«Ensaio sobre a Desigualdade das Raças Humanas»,1853/1855) e o inglêsH. S. Chamberlain («O Fundamento do Século XIX», 1899). O ideólogonazi Alfred Rosenberg, com «O Mito do Século XX» (1930), levaria oPapa Pio XI – com quem contrastaria o seu «silencioso» sucessor, Pio XII,«O Papa de Hitler» – a proclamar: «Espiritualmente, somos semitas.»Gorada, não obstante os campos de extermínio e os muitos milhões demártires, a «solução final» de Adolf Hitler/Heinrich Himmler e criado oEstado de Israel, dizem sionistas, o alegado «anti-semitismo» persistiu soba forma de anti-sionismo. Não, não cremos que esta interpretação sejaválida. Se Telavive nunca serviu a plutocracia internacional, como tantossustentaram, muito menos quis ser trampolim para qualquer revolução queunisse proletários de todo o mundo a fim de pôr termo ao capitalismo. Oque se passa – e todos o sabemos – é que o expansionismo de Israel seencontra desde há muito estreitamente associado à política dos EstadosUnidos para o Médio Oriente e que os palestinianos da Cisjordânia e deGaza foram sacrificados aos interesses nacionais e geoestratégicos em jogo.
Search History:
Searching...
Result 00 of 00
00 results for result for
  • p.
  • More From This User

    Notes
    Load more