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Maria Lúcia Karam - A esquerda punitiva

Maria Lúcia Karam - A esquerda punitiva

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Published by: Cássio Rebouças de Moraes on Dec 03, 2011
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03/15/2015

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text

original

 
CRIMINOLOGIA
A
esquerda
punitiva
MARIA
LÚCIA KARAM
1. As
primeiras
reivindicaçõesrepressoras:
o
combate
à
criminalidade
dourada
Na
história
recente, o
primeiro
mo-
mento de interesse da esquerda pela
repressão à
criminalidade
é
marcado
por
reivindicações
de
extensão
da re-
ação
punitiva
a condutas tradicional-mente imunes à intervenção do
siste-
ma
penal,
surgindo fundamentalmen-
te com a
atuação
de
movimentos
po-
pulares, portadoresdeaspiraçõesdegrupos
sociais
específicos, como osmovimentos feministas, que, notada-
mente
a
partir
dos
anos
70,
incluíram
em
suas
plataformas de luta a buscade punições exemplares para autoresde atos violentos contra mulheres,febre repressora que logo se esten-
dendo
aos movimentos ecológicos,igualmente reivindicantes da interven-ção do sistema penal no combate aosatentadosao meio ambiente,
acaba
por
atingir
os mais amplos
setores
da
esquerda.
Distanciando-se
das
tendênciasabolicionistas e deintervenção míni-
ma,
resultado
das
reflexões
decrimi-
nólogos críticos
e
penalistas
progres-sistas,
que
vieram desvendar
o
papeldo sistema penal como um dos maispoderosos .instrumentos de manuten-ção e reprodução da dominação e daexclusão, características da formação
social
capitalista, aqueles amplos
se-
tores
da
esquerda,
percebendo
ape-
nas
superficialmente
a
concentração
da
atuação
do
sistema penal sobre
os
membros
das
classes
subalternizadas,
a
deixar inantigidas condutas
social-
mente negativas
das
classes
dominan-
tes, não se
preocuparam
em enten-
79
 
der a
clara razão desta atuação desi-gual, ingenuamente pretendendo
que
os
mesmos mecanismos
repressores
se
dirigissem ao
enfrentamento
da
chamada
criminalidade dourada, mais
especialmente
aos
abusos
do
pocíêr
LH^
po.IItico
e-do
poder
econômico.
w^
Parecendo
ter
descoberto
a
supos-ta
solução penaletalvez aindain-conscientemente saudosos dos para-digmas dejustiçadosvelhos tempos
e de
Stalin
(um
mínimo
de
coerênciadeveria levar
a que em
determinadas
manifestações
de desejo ou aplauso
a
acusações
e
condenações levianas
e
arbitrárias
se
elogiassem também
ostristemente
famosos
processos
deMoscou), amplos
setores
daesquer-daaderem à propagandeada idéiaque,
em
perigosa distorção
do
papeldoPoder Judiciário, constróia
ima-
gem do bom magistrado a partir do
perfilde
condenadores implacáveis
e
severos.
Assim,
se
entusiasmandocom aperspectivade ver
estes
"bonsmagistrados"
impondo
rigorosas
pe-
nas
a réus
enriquecidos
(só por
isso
vistos
como poderosos)eaproprian-do-sede um generalizado
e
inconse-qüente clamor contra a impunidade,
estes
amplos setores da esquerda fo-ram tomados por um desenfreado fu-ror persecutório, centralizando seu
discurso
em um histérico e irracional
Tomados
por um desenfreadofurorpersecutório,
amplos
'
setores
da
esquerda
centralizaram
seus discursos
em
histérico
e
irracional combate à corrupção,
não só esquecidos das
lições
da
história,
como
incapazes de ver
acontecimentos
presentes
combate
à
corrupção,
não só
esque-cidos das lições da história, a demons-trar que este discurso tradicionalmen-
te
monopolizado
pela
direita já
fun-
cionara muitas vezes como fator
de
legitimaçãodeforçasasmais reacio-
nárias
(basta lembrar,
no
Brasil,
da
eleição
de
Jânio Quadros
e do
golpe
de
64),
como incapazes
de ver
acon-tecimentos presentes (pense-se
na'
simbólica
vitória
dos partidosaliados
a
Berlusconi nas eleições italianas, noauge
da tão
admirada Operação
Mãos
Limpas).
Este
histéricoeirracional combate
à
corrupção, reintroduzindo
o
pior
do
autoritarismo que mancha a históriade generosas lutas e importantes con-
quistas
da esquerda, se
faz
revitaliza-
dor da
hipócrita
prática
de
trabalharcom dois pesos e duas medidas (o
furor
persecutório
voj.ta-s£__ap_e_nas
contra
adversários
políticos,
eventu-
ais
comportamentos
não
muito
ho-
nestos
de companheiros ou aliadossempre
sendo compreendidos
e
jus-
tificados)
e do
aético
princípio
de
finsque justificam meios, a incentivar orompimento
com
históricas conquis-
tas
da
civilização,
com imprescindí-
veis
garantias das
liberdades,
com
princípios
fundamentais
do
Estado
de
Direito.
Desejando e
aplaudindo
prisões econdenações
a
qualquer preço,
estes
setores
da esquerda reclamam contra
o
fato
de que
réus integrantes
das
classes
dominantes eventualmentesubmetidos à intervenção do sistemapenal melhorseutilizamdemecanis-mosde defesa, freqüentemente
pro-
pondo como
solução
a
retirada
de
direitos e garantias penais e
proces-sjjaís, n o
mínimo
esquecidos
de
qu
e
a
desigualdade
inerente à formaçãosocial capitalista
que,Jógica
e natu-
ralmente, proporciona
àqueles réusmelhor
utilizacãgjJos
mecanismos
de
defesa,
certamentejiã^i_^e_res2liiexia
COTÍI
a
r^tir^Ha
rloJrlirpifO-V P
garímt
1
-
as,
cuja
vulneracão
repercute sim
e demaneira
multo
mais intensa
sp-
bre as
classes
subalternizadas,_ciue
vivem
o
dia-a-dia
da
Justiça-Griminal,constituindoaclientelapara a
qual
esta
prioritariamente
se
volta.Inebriados pela reação
punitiva,
estes
setores
da
esquerda parecemestranhamente
próximos
dos
arautosneoliberais apregoadores
do
fim
da
história,
não
conseguindo perceberque, sendo a pena, em essência, pura
e
simples manifestação
de
poder
— e,
no
que nos diz
respeito,
poderde
classe
do Estado
capitalista
— é ne-cessária
e
prioritariamente
dirigida
aos
excluídos,
aos desprovidos deste
poder.
Parecendo ter
se
esquecidodas
contradições
e da
divisão
da so-
ciedade em
classes,
não conseguemperceber
que,
sob o capitalismo, a se-leção de que são
objeto
os autoresde condutas conflituosas ou
social-
mente negativas, definidas como
cri-
mes(para
que,
sendo presos, proces-
sados
ou condenados, desempenhem
o
papel
de
criminosos), naturalmen-te, terá que obedecer à regra básica
de uma tal
formação social
a
desi-gualdade'na distribuição de bens. Tra-tando-se
de um
atributo
negativo,
ostatus
de criminoso
necessariamente
deve recair de forma preferencial so-bre osmembrosdas
classes
subalter-nizadas, da mesma forma que os bens
e
atributos positivosopreferenci-almente distribuídos entre os mem-
Perdendo sua
antiga
visão
crítica
sobre
a "imprensaburguesa",.setores
daesquerda reproduzemliteralmenteo quedizem
os
órgãos
massivos
de
informação
quanto a um aumentodescontrolado
da
criminalidade
bros
das
classes
dominantes,
servin-
do o excepcional sacrifício,
represen-
tadopelaimposição de pena a um ououtro membro das
classes
dominan-
tes (ou a
algum condenado enrique-cido e,
assim,
supostamente podero-
so),
tão somente para legitimar o sis-tema
penal
e
melhor
ocultar
seu pa-
pel de instrumento de manutenção ereprodução dos mecanismos de do-minação.
Não
percebem
estes
setores da es-
querda que a posição
política,
sociale
econômica dos autores dos
abusos
do poder
político
e
econômico
lhes
imunidade
à
persecução
e à
impo-sição
da pena, ou, na
melhor
dís hi-
póteses,lhes
assegura
um
tratamen-to privilegiado por parte do
sisteTna
penal,
a
retirada
da
cobertura
de in-
vulnerabilidade dos membros
das
classes
dominantes
só se
dando
em
pouquíssimos
casos,
em que conflitosentre setores hegemônicos permitemo sacrifício de um ou outro
responsá-
vel porfatos desta'natureza, que co-
lida
com o podermaior,a que já não
sirva.
Não percebem
que,
quando
chega a
haver alguma punição relaci-onada
com
fatos desta natureza, esta
acaba
recaindo sobre personagens
su-
balternos.
Ao
centralizarem
o
combate
à
cor-rupção na utilização da
reação
puni-
 
tiva
e
somarem
suas
vozes
ao
clamor
contra a
impunidade
e ao apelo poruma maior eficiência da repressão,estes setores de esquerda aderem àidéia de que um maior rigor
repressi-
vo
seria
necessário para acabarcom
aquelas
práticas
de
corrupção
e com
a
impunidade
de
seus
autores,
assim
ignorando
o fato de que nenhuma re-
ação
punitiva,
por maior que
seja
suaintensidade
e
ainda
que fosse
pôs;
síyel
asuperaçãodoscondicionamen-
tos
de
classe
podepôr fim àimpu-
nidade ou à
criminalidade
de
qual-quer natureza, até porque não é
este
seu
objetivo.Aimposição da pena, vale
repetir,
o
passa
depura manifestaçãodepoder, destinada a manter e reprodu-
zir os valores e
interesses
dominan-tes
enfurna
dada
sociedade. Para isso,não énecessárionemfuncional aca-bar com a criminalidade de qualquernatureza e,
muito
menos, fazer reca-
ir a
punição sobre todos
os
autoresde crimes, sendo,
ao
contrário, impe-
rativa a individualização de apenas al-gunsdeles, para que, exemplarmen-te identificados como criminosos, em-
prestemsua
imagem
à
personalizaçãoda
figura do
mau,
do
inimigo,
do pe-
rigoso,
assim
possibilitando
a
simul-tânea e conveniente ocultação dosperigos
e dos
males
que
sustentam
aestrutura
de dominação e poder.Aexcepcionalidade da atuação do
sistema
penalé de suaprópria
essên-
cia, regendo-se
a
lógica
da
pen.a pelaseletividade,que permite a individu-alização
do
criminoso
e sua
conse-qüente
e
útil
demonização,
processo
que se reproduz mesmo quando se
pretende,
como
nos
delitos
sócio-eco-
nômicos,
trabalhar
com
a
responsa-bilidade 'penal
de
pessoas jurídicas,pois a individualização e a
demoni-
zação
do
criminoso
o
característi-
cas
inerentes à reação
punitiva,
em-
presas
ou
instituições
também
poden-
do
perfeitamente
ser individualizadas,
e
demonizadas, de
igual
forma
se
ocultando,
através destes mecanis-mosideológicos,alógicae arazãodo sistema gerador e incentivador dos
abusos
do
poder realizados
em
ativi-
dades
desenvolvidas naqueles orga-nismos.
AJTTOnppolizadora reacJicMaurHtjva
contra
um ou
outro
autor
de
^:ondu-
tas^
socialmente negativas, gerando
a
satisfação
e o
alívio
experimentados
com a punição e conseqüente identi-ficação
do
inimigo,,
do
mau,
do peri-
goso,
não só
desvia
as
atenções
como
afasta
a busca de outras soluçõesmais eficazes, dispensando a investi-
gação-das
razõesensejadorasdaque-
las
situações negativas, ao provocar
a
superficial
sensação
de
que,
com a
punição,
o
problema
estaria
satis-
fatp,riamente
resolvido.
Aí
se
encon-
tra um dos
principais ângulos
da
fun-
cionalidade
do
sistema
penal,
que,
tornando
invisíveis
as
fontes gerado-
ras
da criminalidade de qualquer na-tureza, permite e
incentiva
a crença
em
desvios pessoais
a 'serem
comba-tidos, deixando encobertos e intoca-
dos os
desvios estruturais
que os
ali-mentam.Chega
a
ser, assim, espantoso
que
forças políticas que se dizem
(ou/
pelo
menos,
originariamente,
se
dizi-
am)
voltadas para
a luta^por
transfor-mações sociais
prontamente
forne-
çam sua
adesão
a um
mecanismo
o
82
eficaz
de
proteção
dos
interesses
e
valores dominantes
de
sociedadesquesupostamente deveriamser
trans-
formadas.
2. As
novas preocupações
com a
criminalidade
de
massas
e com
a criminalidade organizada
Majsjgrayes
do que as
ilusões
polí-
tico-ideológicas
que levam às reivin-dicações
de
extensão
da
reação
pu-
nitiva
aos
abusos
do
poder
político
e
econômico,
são as
novas
preocupa-
ções da esquerda com a criminalida-de de
massas
e com as
reais
ou su-postas manifestações
da
chamada cri-minalidade organizada, preocupaçõesque
logo
seseguiram àquelasuades-
coberta
do
sistema penal.
O abandono da
utopia
da
transfor-mação social, cedendo lugar a dese-
jos
mais
imediatos
de
conquista
de
cargos
políticos
no aparelho de
Esta-
do,
parece
ser uma
primeira explica-
ção
para
o
surgimento
destas novaspreocupações. Mas, talvez, se devapensar
também
noprocessodeenve-
lhecimento
e.
estabilização material
de
grande parte
dos
antigos
.militan-
tes — em sua
maioria,oriundos
das
classes
médias
,
agora temerosos
e
sensibilizados
com
a
violência
da
cri-minalidadede
massas,
áameaçar
seus
'novos
ideais
de
"paz"
e
tranqüilidade.Perdendo sua antiga visão críticasobre
a
"imprensa burguesa", amplossetores
de
esquerda
reproduzem
lite-
ralmenteo que
dizem
osórgãos
mas-
sivos
de
informação,
quanto
a um au-
m<ento
descontrolado da criminalida-
de,
sendo
comum
ouvir
de
suas
vo-
zes
a
repetição
do
apelido
de
V/e£nam
dado
a
determinados locais
certa-mente do Rio de
Janeiro
— onde rou-
bos
praticados principalmente
por
meninos
de rua
acontecem
com
cer-ta freqüência,
voz"es
preocupadas emaumentar
a
segurança para combater
tal
violência,
parecendo
ter
trocadode posições, agora desempenhando
o
papel
de
EUA,
na
busca
defórmulas
paraconteroavançodosvietcongs...Talvez
esta
troca de posições tam-m
pudesse
ser uma boa explicaçãopara
a
acrílica
aceitação
da
expres-são narcotráfico, que se incorporouao vocabulário da esquerda,
refletin-
do sua submissão às regras da inter-nacionalização da política de drogas,ditada pelos EUA,
a
partir
da
década
de 80,
quando,
simultaneamente
ao
desenvolvimento
da
"guerra contra
as
drogas",
pautada
pela eleição
elo
agente externo(os produtores, edis-
tribuidores
dos
países
latino-america-nos) comoo
inimigo
a ser
enfrenta-
do,
adotou-se
o uso do
radical
da
palavra inglesa
narcot/cs;
utilizável
também
em
espanhol
ou em
portu-guês, passando-se então
a
falar
cie
narcotráfico, narcodólares, etc.
inobs-
tante o principal alvo da política-do
momento
a
cocaína
sequer
pu-
desse
ser
visto como narcótico, tra-tando-se, ao contrário, de evidente es-
timulante.Envernizando
suas
inquietações
com a criminalidade convencional de
massas
(decerto
ameaçadora
"pãTa
quem
quer
usufruir
dos
privilégios
de
uma
estabilização material,
sem ser
incomodado
com
roubos
e
furtos)
e
preocupadosemmelhor
justificar
suaideologia
repressora, amplos
setores
da
esquerda aderem
ao
apelo
de mai-
83

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