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o Psicologo e o compromisso Social Na Saude Coletiva - Magda

o Psicologo e o compromisso Social Na Saude Coletiva - Magda

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12/09/2011

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Psicologia em Estudo
, Maringá, v. 6, n. 2,
p. 57-63,
 jul./dez. 2001
O PSICÓLOGO E O COMPROMISSO SOCIAL NOCONTEXTO DA SAÚDE COLETIVA
1
 
Magda Dimenstein*
RESUMO.
Esse trabalho objetiva desenvolver uma reflexão em torno de algumas questões que vêm sendo amplamentediscutidas no campo da saúde coletiva, e que se configuram como enormes desafios para gestores e profissionais de saúdeligados ao Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil. Trata-se, não só, da mudança no perfil profissional das categoriasenvolvidas com o trabalho da saúde, mas principalmente da transformação de tais profissionais em agentes de mudança apartir de um compromisso social perante o ideário do sistema de saúde e seus usuários. Nesse sentido, pretende-se discutir,mais especificamente, o lugar da psicologia e as práticas realizadas no campo da assistência pública à saúde e seusdesdobramentos em termos do compromisso social hoje almejado para a categoria. Para tanto, serão tomados como eixos deanálise os resultados de duas investigações realizadas com psicólogos que trabalham na rede básica de saúde das cidades deNatal/RN e Teresina/PI.
Palavras-chaves:
 
compromisso social, psicólogo, saúde coletiva.
 
THE PSYCHOLOGIST AND THEIR SOCIAL COMMITMENTIN THE COLLECTIVE HEALTH CONTEXT
ABSTRACT.
The aim of this paper is to reflect on some issues currently under discussion in the field of collective health,and which represent a great challenge for health managers and professionals of the Brazilian Unified Health System. Thispaper focuses not only on the profile changes that are needed of all health professionals, but rather on the transformation of these professionals into socially committed agents responsible for the renovation of the ethos of the Brazilian Health Systemand its clients. A more in-depth discussion of the psychologist’s place in such a context, his practice within public health care,and on the much-desired social commitment is carried out. The analytical tools that will be used are the results of twoinvestigations that were conducted with psychologists that work in the basic health care network of the cities of Natal, in thestate of Rio Grande do Norte, and Teresina, in the state of Piauí.
Key words:
 
social commitment, psychologist, collective health.
 2
 
1
Este trabalho contou com o apoio financeiro do CNPq (Bolsista de IC/Balcão).
*
Professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Dra. em Saúde Mentalpelo Instituto de Psiquiatria da UFRJ.
Endereço para correspondência
: UFRN, CCHLA, Depto. de Psicologia, sl.607, campus universitário, CEP 50.078-970, Natal-RN. E-mail:
magdad@uol.com.br
 
2
Podemos entender a Saúde Coletiva, segundo Paim e Almeida Filho (2000), como “campo científico, onde se produzem saberese conhecimentos acerca do objeto ‘saúde’ e onde operam distintas disciplinas que o contemplam sob vários ângulos; e comoâmbito de práticas, onde se realizam organizações e instituições por diversos agentes (especializados ou não) dentro e fora doespaço convencionalmente reconhecido como “setor saúde” (p.60).
INTRODUÇÃO
Este trabalho objetiva desenvolver uma reflexãoem torno de algumas questões que vêm sendoamplamente discutidas no campo da saúde coletiva
1
, eque se configuram como enormes desafios paragestores e profissionais de saúde ligados ao SistemaÚnico de Saúde (SUS) no Brasil. Trata-se não só damudança no perfil profissional das categoriasenvolvidas com o trabalho da saúde, masprincipalmente da transformação de tais profissionaisem agentes de mudança a partir de um compromissosocial perante o ideário do sistema de saúde e seususuários. Nesse sentido, pretende-se discutir, maisespecificamente, o lugar da psicologia e as práticasrealizadas no campo da assistência pública à saúde e
 
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seus desdobramentos em termos do compromissosocial hoje almejado para a categoria. Para tanto, serãotomados como eixos de análise os resultados de duasinvestigações realizadas com psicólogos quetrabalham na rede básica de saúde das cidades deNatal/RN e Teresina/PI.
 
A CONSTRUÇÃO DE NOVOS SUJEITOS EPRÁTICAS EM SAÚDE: EM QUESTÃOO COMPROMISSO SOCIAL
 
No lugar deste risco que deve ser corrido (aexistência humana é um risco) e que tambémcaracteriza a coragem do compromisso, aalienação estimula o formalismo, quefunciona como uma espécie de cinto desegurança
(Freire, 1998, p. 25).
O SUS pode ser considerado uma das principaisinovações da reforma do Estado Brasileiro. É fruto deum amplo processo de discussão em relação à situaçãode saúde do país, o qual envolveu o Governo,profissionais de saúde progressistas e a população. AVIII Conferência Nacional de Saúde, ocorrida em1986, representa um marco na luta pela melhoria dosistema de atenção à saúde no Brasil ,na medida emque se constituiu como o espaço de negociação edefinição do SUS enquanto política nacional.Observa-se que, ao longo dos últimos anos, vem sedesenhando no setor saúde uma nova relação entreEstado e sociedade, onde se torna mais visível apresença de uma diversidade de atores, cada qual comseus interesses e projetos próprios, relação que podepropiciar um maior controle público sobre aassistência que é prestada à população, na medida emque passa a ser sujeito ativo e co-responsável pelosrumos tomados pela saúde pública no país.É nesse contexto que as questões relativas àavaliação e à satisfação do usuário com o serviço desaúde tornaram-se importantes, pois considera-se quea modificação do modelo assistencial hegemônico e amelhoria real no atendimento à saúde passamnecessariamente pelo desenvolvimento de serviçosmais próximos da população, das suas necessidades eprioridades. Para isso, exige-se uma nova mentalidadeprofissional e organizacional, participação ecompromisso na busca da qualidade da saúde. Ou seja,é preciso uma reconstrução da subjetividade dostrabalhadores do campo da saúde, bem como alterar acultura organizacional hegemônica(Dimenstein,1998), sendo esse, então, o grandedesafio que a Reforma Sanitária enfrenta no país.Em outras palavras, em se tratando dos RecursosHumanos, temos dificuldades não só em termos daformação profissional, organização e gestão, masprincipalmente, no sentido de “erradicar odesinteresse, a alienação, o agir mecânico eburocratizado” (Campos,1994,p.43) que estabeleceum nítido distanciamento dos trabalhadores entre si ecom os usuários dos serviços de saúde. Estamosfalando da falta de compromisso do profissional comas instituições de saúde, com a qualidade ehumanização
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das práticas, com o acolhimento evínculo com os usuários, aspectos consideradosfundamentais para a transformação dos modoshegemônicos de fazer saúde e para a construção de umsistema de saúde universal, integral e equânime.Tal quadro é conseqüência de uma série de fatoresque vêm se apresentando ao longo dos anos, entre osquais estão: a redução dos investimentos no setorsaúde pelo poder público; os insuficientesinvestimentos na formação, capacitação e educaçãocontinuada dos trabalhadores de saúde tendo em vistanovas práticas sanitárias; a falta de integração doaparelho formador com a nova realidade dos serviços;a heterogeneidade das políticas de Recursos Humanosnos três níveis de poder, com discrepância quanto àremuneração, jornada de trabalho, plano de carreira esalários e, principalmente, à falta de participação dotrabalhadores como co-responsáveis pela gestão doSUS.Em decorrência disso, nos deparamos comprofissionais descontentes, frustrados, apáticos dianteda miséria social onde está inserida grande parcela dapopulação brasileira, organizados em torno deinteresses imediatos e corporativistas, enfraquecidosem sua capacidade de resistência e luta em prol dacidadania; profissionais impedidos de comprometer-severdadeiramente com um novo projeto de sociedade ede saúde pública.Mas, afinal, o que vem a ser um profissionalcomprometido? Que idéia de compromisso deveriafundamentar as ações de saúde desenvolvidas dentrodo SUS? Que valores cabe a nós estimular no sentidode orientar os saberes e práticas profissionais noâmbito da assistência pública à saúde? TomandoPaulo Freire (1998) como referência, podemos dizerque compromisso implica necessariamente em uma
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Tomamos como referência a concepção de humanismoposta por Freire (1998): “O humanismo é um compromissoradical com o homem concreto. Compromisso que seorienta no sentido de transformação de qualquer situaçãoobjetiva na qual o homem concreto esteja sendo impedidode ser mais” (p.22). Afasta-se, conseqüentemente, dequalquer perspectiva assistencialista ou de cunho religioso.
 
O psicólogo e o compromisso social 
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tomada de posição; envolve uma decisão por parte deum Sujeito/Ator Social e ocorre no plano das ações, darealidade concreta. Isso quer dizer, por sua vez, que“A primeira condição para que um ser possa assumirum ato comprometido está em ser capaz de agir erefletir” (p.16). Só um sujeito situado no seu tempohistórico e em relação aos determinantes culturais,políticos e econômicos que condicionam seu modo deestar no mundo poderá transformar, desejar e ousar amudança, sair do conformismo, reverter a lógica quesustenta o imobilismo, isto é, comprometer-se, ser umser da práxis. Tal como o processo de alfabetizar-se,que para Freire (1998) está além de saber codificar edecodificar palavras estranhas, e implica em tornar-sealguém capaz de aprender a ler a realidade circundantee escrever a sua própria história, o compromisso socialrequer um sujeito capaz de construir um saber críticosobre si mesmo, sobre seu mundo e sobre sua inserçãonesse mundo (Martín-Baró,1997). Sujeitos“dinamizadores”, segundo a perspectiva de Paim eAlmeida Filho (2000), capazes de revolucionar ocotidiano na medida em que acreditam napossibilidade de o novo surgir, na surpresa; sujeitosque recusam o determinismo absoluto que aniquila ospossíveis espaços de liberdade, de criação, dediversidade. Tal concepção aproxima-se da noção de“operador” trazida por Rotelli (1990), isto é, pessoascapazes de reconstruir a história de vida dos usuáriospara além do diagnóstico e do sintoma, trabalhadoresativos no processo de reelaboração do sofrimento ereinvenção da vida. O “operador”, nessa perspectiva,volta-se para a qualidade do cuidado, a qual pressupõeacolhida e responsabilidade pela atenção integral dasaúde coletiva e individual, e para a criação deestratégias de modificação da realidade dos usuários.Esses sujeitos são capazes de investir na produçãode modos heterogêneos de cuidado, bem como nasingularização da atenção, respeitando a diversidadecultural e subjetiva dos usuários, criando vínculos eresponsabilidade para com a saúde do público. Trata-se, pois, de um profissional não escravizado pelatécnica, pelo saber totalizante dos
experts
, por rituaisprofissionais, mas norteado por modelos de explicaçãoampliados acerca do complexo “promoção-saúde-doença-cuidado” (Paim & Almeida Filho, 2000, p.75),e formas de intervenção flexíveis que levam em contaas necessidades e prioridades de saúde da clientela, eque possui efetiva capacidade para lidar com umarealidade desafiadora e complexa, que não se encontraenclausurada nos modelos teóricos aprendidos naacademia.E o que nós, psicólogos, temos a ver com isso?Essa é uma pergunta que, sem dúvida, parecepovoar o campo “psi” muito recentemente.Historicamente, a psicologia sempre esteve“míope” diante da realidade social, dasnecessidades e sofrimento da população, levando osprofissionais a cometer muitas distorções teóricas, apráticas descontextualizadas e etnocêntricas, e auma psicologização dos problemas sociais, namedida em que não são capacitados para perceberas especificidades culturais dos sujeitos. Nessesentido, é bastante óbvio que a psicologia veio seconfigurando como um instrumento útil para areprodução das estruturas injustas de nossossistemas sociais, especialmente latino-americanos(Martín-Baró,1997), ou seja, vem servindo desuporte científico das ideologias dominantes, dasrelações hierarquizadas de poder, e para amanipulação das maiorias pobres por uma minoria,onde os profissionais aparecem como “... cúmplicesda já conhecida política de dominação dos maisfracos” (Botomé,1996, p.198).Ao longo dessa trajetória, o modelo curativo eassistencialista, voltado para o setor dos atendimentosprivados foi se consolidando dentro da categoria dospsicólogos, tornando-se o paradigma hegemônico daprofissão. Os cursos de graduação tenderamclaramente para formar um profissional queatualmente encontra dificuldade em superar as práticascristalizadas (naturalização de práticas historicamenteproduzidas) e de adaptar-se às novas exigências deresponsabilidade social, aos princípios da qualidade,da ética e da cidadania, postos especialmente pelosetor saúde. Em outras palavras, a formaçãoprofissional veio direcionando o psicólogo paramodelos de atuação bastante limitados para o setorsaúde, modelos responsáveis, em parte, pelasdificuldades do profissional em lidar com a demandada clientela e das instituições de saúde, e até deadaptar-se às dinâmicas condições de perfilprofissional exigidas pelo SUS.Tais modelos de atuação são menos flexíveis àsinfluências do mercado e às necessidades sociais, poisse encontram muito arraigados à identidade e culturaprofissional do psicólogo e ao processo deinstitucionalização das organizações corporativas
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.Tanto é que a entrada do psicólogo nas instituiçõespúblicas de saúde, apesar de ter ampliado seu campode trabalho, parece não ter alterado os modelosteóricos e práticos que fundamentam sua atuação. Ouseja, não houve uma contextualização, revisão ou atémudança nas suas formas tradicionais de atuar. Daí,sua dificuldade em construir novas práticas voltadas
4
Sobre esse tema ver Dimenstein (1998); (2000).

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