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Walter Mignolo - Novas reflexões sobre a idéia de américa latina - opção descolonial

Walter Mignolo - Novas reflexões sobre a idéia de américa latina - opção descolonial

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Walter D. Mignolo
Walter D. Mignolo
*
Este texto tem um caráter específico de debate, retomado pelo autor em função de resenhas eentrevistas realizadas sobre o seu livro
The Idea of Latin America
,
 
publicado
 
em 2005
.
Iniciademonstrando como as narrativas diversificadas da história da colonização são plurais, mas, aoserem difundidas, unificam-se em narrativas globais de caráter universal, como efeito deprocessos de totalidade. Para o autor, essa diversidade de forças históricas caladas, mas vivas,hoje se expõem sem perspectiva de retorno ao passado. Nesse sentido, ele fala do projetomodernidade e colonialismo, de descolonizar o conhecimento, respondendo e aprofundandodiversos aspectos paradoxais postos pelo debate de seu livro, como o diálogo entre movimentose pensamentos de emancipação que surgem no centro do sistema-mundo. Com isso, não pre-tende fechar-se ao debate, mas, ao contário, busca atualizar e avançar nessas questões dadiferença e das populações não homogêneas de uma perspectiva de futuro e de uma perspecti-va de um conhecimento e práticas pluri-versalistas.P
ALAVRAS
-
CHAVE
: modernidade, emancipação, diferença, descolonização do pensamento, Améri-ca Latina.
NOVAS REFLEXÕES SOBRE A “IDÉIA DA AMÉRICA LATINA”: adireita, a esquerda e a opção descolonial
      D      O      S      S      I       Ê
INTRODUÇÃO
O Novo Mundo e a América são invençõeseuropéia-cristãs, cujos agentes foram as monarquiase, em seguida, os estados-nacionais do Atlântico.A formação histórica do mundo moderno-colonialresultou das ações e das narrativas produzidasbasicamente em quatro das seis línguas modernasimperiais: português, castelhano, francês e inglês.Ao relermos, hoje, a seção sobre o colonialismo,no clássico livro de Adam Smith
The Wealth of  Nations
(1776), aprendemos – a partir do pontode vista dos interesses britânicos, que Smith nosconcede de forma afetiva e intelectual – como, aolongo dos séculos XVI e XVII, vão se configuran-do certas “brigas de família” entre Castela, Portu-gal, Holanda e França, que, ao serem narradas,impressas e difundidas como nenhuma outra nar-rativa tinha podido fazê-lo naquele momento, con-vertem-se numa narrativa global (alguns diriam,inclusive, de caráter universal). Esse processso éum tanto similar à narrativa do
baseball 
dos Esta-dos Unidos, cujos campeonatos anuais se anunci-am como se fossem a copa do mundo, em torneiosque, no melhor dos casos, além dos Estados Uni-dos, só há, no máximo, uma equipe canadense.Ao lado de Smith, estava – em Londres – oafricano liberto Ottobah Cugoano. Em seu relato,
Thoughts and Sentiments on the Evil of Slavery 
(1786), não fazia qualquer diferença entre as cincomonarquias que disputavam as possessões e asriquezas da América e convertiam os africanosnuma mercadoria a mais. Para Adam Smith, o li-vre comércio era, sem dúvida, o motor da prospe-ridade; assim, por exemplo, ele nos conta, entreas muitas histórias e exemplos que apóiam seuargumento, que:
 Rum is a very important article in the trade whichthe Americans carry on the coast of Africa, fromwhich they bring back negroes slaves in return
(1976 [1776], v. 2, p.91).
Cugoano tinha outra imagem, porque nãovivenciava – como Smith – os interesses e a histó-
* Professor de Literatura na Duke University - EstadosUnidos. wmignolo@duke.edu
 
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ria da Grã Bretanha, mas sentia na pele e a históriade africanos capturados, transportados ao NovoMundo e escravizados:
 Nothing else can be conceived, but that the power of infernal wickedness has so reigned and  pervaded over the enlightened nations as to infatuate and lead on the great men, and the kings of Europe, to promote and establish such a horrible traffic of wiknedness as the African slavetrade and the West-India slavery, and thereby tobring themselves under the guilty responsibility of such awful inequity 
(Cugoano, 1999 [1786],p.81).
O “espírito do capitalismo” (cuja fundaçãohistórica se localiza nas mudanças radicaisintroduzidas pela abertura da economia do Atlân-tico, no século XVI), não parece estar ligado àascética protestante e à secularização da chamada,como foi proposto por Max Weber, mas a uma éti-ca da rapinagem que prevalece, de forma ainda maisampla, hoje em dia. Por essa razão, a obra de Smithcontinua sendo um livro de cabeceira para os pen-sadores liberais, enquanto que a ética do direito àvida, que Cugoano defende, passou a ser curiosi-dade étnica do multiculturalismo.Tudo isso é parte do processo de invençãoda América (O’Gorman). Nesse processo, ademaisda escravidão, fortes organizações sociais, como oTawantinsuyu e Anahuac, e territorialidades, comoa de Abya-Yala, foram sendo relegadas ao passado.Sem dúvida, a população indígena que vai deTawatinsuyu a Anahuac, suas zonas intermediári-as, mais “seus nortes e seus suis”, ou as popula-ções indígenas do Caribe, tal como os arahuacos eos taínos, não eram homogêneas. Tampouco eramhomogêneas as multidões de africanos roubados earrancados de seus reinos e principados. Foramarrebatados de distintos reinados, falavam línguasdiferentes e tinham vários tipos de crenças.Tampouco aqueles que chegaram da Europa for-mavam uma massa homogênea. Eram cristãos, sim,mas de ordens monásticas de diferentes tipos. Como decorrer do tempo, não somente provinham daPenínsula Ibérica, mas também da França, Holandae Inglaterra. A América do Sul, nesse processo,ilustra cada vez mais o que seria entendido como atradição e o subdesenvolvimento. A América doNorte, em contrapartida, encarnará o espírito docapitalismo, tanto na versão de Weber como naanterior de Smith. Sem dúvida que, nesse proces-so, haverá também focos do espírito capitalista naAmérica do Sul e outros focos de indiferença.Contudo, a difusão do mercado do livro edas idéias, que fez de Smith um clássico e deCugoano uma curiosidade para espíritos bempensantes, pode encobrir, porém não enterrar edesterrar, essas particularidades. Enquanto os eu-ropeus letrados, pessoas de governos, viajantes,etc., nadavam, direta ou indiretamente, nas fontesgregas e romanas, no latim e no grego, o mesmonão acontecia com a diversidade e variedade indí-gena e africana. Para os europeus, o wolof e obambara, o aymara, o quechua ou o tojolabal eramidiomas tão estranhos como o latim e o grego oeram também para africanos e indígenas. No en-tanto, conhecemos a história: a elite crioula dedescendência européia, a elite mestiça de espíritoeuropeizado e a população migrante européia dosfins do século XIX em diante mantiveram viva achama moderno-colonial.Hoje, essas forças históricas, caladas duranteséculos, porém nunca apagadas, chegaram a umponto que não tem retorno. Não sei qual será odestino do governo de Evo Morales. No entanto,já não é possível voltar atrás no passo que foi dado.Não sei qual será o destino do socialismo do sécu-lo XXI, mas tenho a impressão de que tampoucohaverá retorno nem ao socialismo castrista nem aofranco neoliberalismo que golpeou América Lati-na desde Augusto Pinochet e Carlos Sául Menema Gonzálo Sánchez de Losada. A elite petroleira daVenezuela já perdeu definitivamente o que pos-suía antes da chegada de Hugo Chávez. Por tudoisso, é necessário atender ao
 nível ontológico
daidéia da América Latina, e prestar atenção além domais ao
 nível ôntico
. Isto é, não aceitar a AméricaLatina como uma coisa natural e contar históriasdo que lá acontece, esquecendo que tudo que láocorre tem sua razão de ser na história imperial-colonial de como a América Latina foi constituída.Os 40 milhões de latinos presentes hoje,
 
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nos Estados Unidos, mostram outra cara da sualatinidade: não mais a européia, branca, mas alatinidade de cor. Não sei se Barack Obama seráeleito presidente. O que não se pode evitar é quetambém nos Estados Unidos – com as devidas di-ferenças, entre a América anglo-saxã e a Américaconsiderada como latina – chegou-se a um pontosem retorno. Não menos importante é o fato, nasAméricas, de duas mulheres brancas, e uma mu-lher branca, nos Estados Unidos, já serempresidentas e (ou) pleitearem a carreira presiden-cial. É também certo que nem toda pessoa de cor édissidente, e muitas têm o direito de optar pelaassimilação e votar pelo partido republicano. Noentanto, é difícil imaginar que 100% das pessoasde cor se assimilarão às formas de vida dos “anglosbrancos”; assim como é também difícil imaginarque todos os “anglos brancos” aceitarão e repro-duzirão formas de vida que herdaram, mas que jánão são suas.Vou ilustrar essas questões a partir de rese-nhas, críticas, entrevistas e comentários que sur-gem de novas reflexões sobre meu livro
 La Idea de América Latina
.
* * *
Pelo que conheço, a versão original de
The Idea of Latin America
(2005a) e sua tradução parao castelhano
 La idea de América Latina
(2007) re-ceberam duas resenhas e duas entrevistas de con-siderável extensão. Tanto as resenhas como as en-trevistas provocam e convidam a um debate quebusco dar continuidade com estas reflexões.Cronologicamente, a primeira resenha
1
foi ado historiador argentino Ricardo Salvatore (2006),intitulada
 A Post-Occidentalist Manifesto
, publicadaem
 A Contracorriente
, revista de História Social eLiteratura na América Latina. Com Salvatore te-mos uma relação amistosa e intelectual de longadata, ainda que com as diferenças entre um histo-riador e um semiólogo, meio filósofo e meio histo-riador. A resenha de Salvatore é coerente com oargumento do livro, e o leitor de sua resenha nãoserá guiado por falsos caminhos. Ele é tambémgeneroso, ao mesmo tempo em que sublinha as-pectos do argumento que são relevantes para mim.Salvatore sublinha que
 La idea de América Latina
é um verdadeiro manifesto para a descolonizaçãodo conhecimento nas e sobre as Américas(Salvatore, 2006, p.130). Ele o considera tambémcomo um manifesto pós-ocidental, na medida emque aponta para uma mudança radical na políticado conhecimento – uma mudança que coloca otrabalho intelectual de indígenas e afro-latinos nofoco de mira (2006, p.130).São três suas observações críticas. Minhasrespostas a cada uma delas não tentam fechar odebate, mas continuá-lo num diálogo rumo ao fu-turo. Salvatore assinala aspectos essenciais quecontribuem para tornar visível a fronteira que se-para os princípios dos paradigmas disciplinares(neste caso a história) e os princípios do pensa-mento descolonial. É precisamente por essa razãoque insisto no argumento sustentado ao longo de
 La idea de América Latina
, de que o pensamentodescolonial é uma opção (descolonial) de coexis-tência (ética, política, epistêmica). Não de coexis-tência pacífica, mas de conflito que reclama o di-reito de re-existência em todas as ordens do pen-sar e do viver, como magnificamente o mostrou eargumentou Adolfo Achinte Albán (2007).1) Para Salvatore um dos maiores méritosdo livro é abrir o caminho e estabelecer os funda-mentos para a exploração da “colonialidade” noterreno do conhecimento e da subjetividade, istoé, “da geo-política do conhecimento” (2006, p. 132).Não obstante, para Salvatore, esse argumento apre-senta uma visão limitada da “colonialidade” postoque privilegia categorias, conceitos e visões demundo sobre outras “formas mais comuns de do-minação colonial” (p. 132), das quais entendo queSalvatore se refere ao controle colonial econômicoe político. De modo que, se a “colonialidade” –sustenta Salvatore – é “a estrutura lógica da domi-nação colonial”, não fica claro quais são as rela-
1
Resenhas breves foram publicadas por Robert B. Kent(2007), que colocou o livro em circulação entre geógrafose na área da geografia humana. E, no âmbito da língua eliteratura, a resenha de Susan Castillo (2007) é única einformativa.

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