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O Anjo Exterminador - Amauri Ferreira

O Anjo Exterminador - Amauri Ferreira

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Ensaios - 2005
Ensaios - 2005

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O ANJOEXTERMINADOR 
Por Amauri Ferreira
2005
 
Ouço discursos que têm pouco a dizer Muita ladainha não me ensina a viver Prefiro o canto dos pássaros, o som que vem do mar E o silêncio interrompido por quem sabe falar  Assusto-me quando eu vejo tanta seriedade Muitas brigas e discussões para se exigir respeito Prefiro fazer girar o meu corpo que não tem idadeComo uma criança que brinca, o meu EU estará desfeito Cheguei até aqui, quem poderá me explicar?  Dizem que tudo está confuso, tudo fora do lugarO meu instinto estava certo, quando me atirou ao perigo Ao aproveitar a experiência, descobri um novo abrigo1. O RIO DE HERÁCLITO: AMÁ-LO OU ODIÁ-LO? 
H
á momentos na nossa existência que servem paraconhecermos a nossa capacidade de reação, que nos levam atéao ponto em que nos encontramos diante de um territóriodesconhecido. Então, um dos pés vacila, o corpo inclina-separa trás, as mãos não têm mais onde se agarrar: em tal pontode desconfiança, o mais provável é refugiarmos na lembrançade um afeto prazeroso e focar o nosso desejo em um ideal. Omesmo dobrar dos sinos, o mesmo canto dos pássaros, omesmo pôr-do-sol: tudo igual, sem surpresas. Mas uminstante de clareza pode surgir; a nossa capacidade derenovação pode falar mais alto; um novo jeito de olhar, deouvir, de cheirar... Novos sentimentos das coisas que estão aonosso redor, que, sem pedirem licença, nos atingem,modificando-nos, tornando-nos diferentes a cada instante.
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Outros, outros e outros: um turbilhão que nos leva aum campo ermo, onde nos livramos do que se tornou inútilpara nós, uma identidade que não faz mais sentido preservarnesse novo mundo. Não é o “mundo tão real com todos osseus sóis e todas as suas vias lácteas, que é o nada”, comoimaginou Schopenhauer (“O Mundo Como Vontade eRepresentação”, livro quarto), mas o mundo do devir, omundo de um novo território existencial, o mundo de umanova relação de forças, o mundo de novos sentimentos dedor, de amor, de tristeza e de alegria. Nada nos falta nessenovo mundo: o coração segue batendo no peito, os pulmõescontinuam a receber oxigênio, o nosso corpo continua asentir os outros corpos. Não tem como faltar
amor
a essemundo: por estarmos destinados às relações, estamosdestinados a amar... O nosso amor é o amor cósmico, o amorque nunca se esgota, o amor que não exige nada, o amor queé trágico. Um amor como de uma estrela anã branca, quesuga a matéria da sua estrela vizinha, aumentando a suatemperatura e pressão, até o ponto em que ela simplesmenteexplode, espalhando grande quantidade de matéria e energiano espaço: eis um dos tipos de “supernova”, o amorestelar. Portanto, o amor não é algo que seria possívelplanejar, que poderíamos controlar conscientemente, mas,pelo contrário, somente através do acaso podemos aprendero que é amar.Se realmente entendermos a profundidade de talamor, não há como não amarmos o rio de Heráclito. “Não sepode entrar duas vezes no mesmo rio”. Surge em nós aimagem de um fluxo incessante de águas – sempre um
novo
fluxo de águas. Quem entra no rio nunca é banhado pelasmesmas águas – e o próprio banhista não é mais o mesmo. Oque o rio heraclitiano nos permite pensar é a respeito darealidade do devir e as afecções que nunca se repetem: oencontro do corpo humano com as águas do rio sempreproduz novos afetos. Água e corpo humano: sempre umencontro inédito e singular... E podemos pensar assim:mergulhar no rio e aproveitar a experiência de ser afetado porele; viver em sociedade e aproveitar a experiência de serafetado por ela... Águas que retornam, sempre de mododiferenciado; relações humanas que retornam, sempre demodo diferenciado... Ficar dentro do rio tem os seus riscos,pois podemos afogar-nos nele; viver em sociedade tambémtem os seus riscos, pois podemos ser destruídos por ela... Norio, podemos formar uma noção comum entre o nosso corpo eo fluxo das águas; na sociedade, também podemos formaruma noção comum entre o nosso corpo e o corpo social... Aosairmos do rio, buscamos a sombra de uma árvore e refletimossobre a experiência de sermos banhados por ele; ao sairmosdos encontros com os indivíduos na sociedade, refugiamos nosmomentos de solidão e refletimos sobre a experiência desermos afetados por eles... Na sombra de uma árvore,recebemos outros fluxos, vivemos uma nova experiência,comemos um alimento com outro sabor; na solidão, novosfluxos nos atingem, vivemos também uma nova experiênciaque se torna uma ótima ocasião para o conhecimento dasnossas próprias forças... Voltamos ao rio para construir outrasrelações com ele, sempre de modo diferente; voltamos aoencontro com os indivíduos para construir outras relaçõescom eles, também de modo diferente... “Deste jeito sim, deste jeito não; vou por aqui, e não por ali. É preciso tertemperança, mas sem esquecer a ousadia”... Riquezas que seescondem no rio e na sociedade: para descobri-las, énecessário criar novos caminhos dentro do rio, entender o quenos move dentro dele; da mesma forma, é necessário criarnovos caminhos dentro da sociedade, entender o que nosmove dentro dela... Podemos criar novos caminhos quandoestamos fora do rio para encontrarmos uma terra generosa,que nos espera pacientemente; também podemos criar novoscaminhos quando estamos fora da sociedade, paradescobrirmos as riquezas da nossa solidão... Experiência deestar dentro e fora do rio; experiência dos momentos de vidasocial e de retiro espiritual: não há como vivermos
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