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Depressão no bebé

Depressão no bebé

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Análise Psicológica (2003), 1 (XXI): 41-46

Depressão no bebé
MARGARIDA FORNELOS (*) EDUARDA RODRIGUES (**) MARIA JOSÉ GONÇALVES (**)

A depressão na primeira infância está relacionada com frustrações precoces e graves ocorridas no meio familiar e motivadas por roturas qualitativas no investimento maternal, lutos, descompensações depressivas das mães, descontinuidade dos cuidados ou por separações reais da mãe ou do prestador de cuidados. Antes dos 6 meses não podemos falar propriamente de depre
Análise Psicológica (2003), 1 (XXI): 41-46

Depressão no bebé
MARGARIDA FORNELOS (*) EDUARDA RODRIGUES (**) MARIA JOSÉ GONÇALVES (**)

A depressão na primeira infância está relacionada com frustrações precoces e graves ocorridas no meio familiar e motivadas por roturas qualitativas no investimento maternal, lutos, descompensações depressivas das mães, descontinuidade dos cuidados ou por separações reais da mãe ou do prestador de cuidados. Antes dos 6 meses não podemos falar propriamente de depre

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Published by: Fernando Manuel Oliveira on Jan 14, 2012
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A depressão na primeira infância está relacio-nada com frustrações precoces e graves ocorri-das no meio familiar e motivadas por roturasqualitativas no investimento maternal, lutos,descompensações depressivas das mães, des-continuidade dos cuidados ou por separaçõesreais da mãe ou do prestador de cuidados.Antes dos 6 meses não podemos falar pro-priamente de depressão, mas de respostas de-pressiva. A depressão anaclítica, que se desen-volve a partir do 2.º semestre, é o quadro maisprecoce e mais grave da depressão no bebé pelarotura da relação com o objecto maternal.Numa perspectiva psicodinâmica, é particular-mente valorizada a vulnerabilidade narcísicaque leva a criança a proteger-se dos afectos do-lorosos pela desvitalização, baixa da actividadepulsional e rotura desorganizante do funciona-mento mental anterior.A depressão nos bebés não é frequentementeum quadro clínico transitório (Kovacks, 1997) epoderá traduzir-se mais tarde por uma excessivadependência de gratificação narcísica exterior eperda da auto-estima, resultante da necessidadeinsatisfeita de afecto.O diagnóstico de depressão infantil é normal-mente feito a partir de critérios de comportamen-to, tais como: atonia afectiva, inércia motora, po-breza interactiva/retirada, desorganização psicos-somática (Kazdin, 1990).A importância da depressão infantil é avaliadaem função da sua duração e das falhas funcionaisque a acompanham. Muitas vezes encontramossintomas associados, como perturbações do com-portamento, défices de atenção e hiperactividadeou mesmo retirada de tipo autista, que mascarama depressão.Em 1996, na Unidade da Primeira Infância,fizemos uma revisão das fichas clinicas de todosos casos com diagnóstico de depressão e com se-guimento terapêutico, nos dois anos anteriores.Foram encontrados 20 casos, o que correspondea 23% do total de casos em seguimento nestaUnidade no mesmo período.Em todos os casos estudados, ressaltavamelementos comuns na observação da criança: fal-ta de vivacidade na expressão dos afectos, faltade apetência para exercer as suas competênciasrelacionais e cognitivas, baixa de interesse peloexterior, associadas a irritabilidade fácil. Umacerta lentidão motora e a tendência para jogos re-petitivos transmitia um carácter monótono àsactividades e modalidades interactivas.Num único caso, que correspondia à criançamais velha do grupo, foi constatado afecto detristeza. Esta nossa observação coincide com asdescrições de depressão na primeira infância
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Análise Psicológica (2003), 1 (XXI): 41-46
Depressão no bebé
 MARGARIDAFORNELOS (*)EDUARDARODRIGUES(**) MARIAJOSÉGONÇALVES(**)
(*) Psicóloga.(**) Pedopsiquiatra.
 
feitas por outros autores, que falam de atoniaafectiva, para classificar a indiferença, e senti-mento de vazio, por oposição ao afecto depres-sivo dos adultos.A observação da interacção mãe-criança mos-trava poucas iniciativas da parte da criança e damãe e a utilização de modalidades interactivaspouco variadas. Esta mesma pobreza interactivarepete-se com o observador, o que está de acordocom os estudos de Tiffany Field (1988). Em setedas 20 crianças do grupo, foi realizada umaavaliação do desenvolvimento, tendo reveladouma baixa ligeira do QD global, mais acentuadanas áreas da linguagem e socialização.Os casos em que fizemos o diagnóstico de de-pressão apresentavam a mesma unidade sindro-mática nuclear também descrita por outros au-tores, mas associada a uma disparidade e multi-plicidade de outros sintomas, evidentes nos mo-tivos de consulta, em que quase sempre são refe-ridos vários sintomas em cada uma das crianças(Quadro 1). As perturbações do comportamento(birras e agressividade) são as mais frequente-mente referidas aparecendo em 13 casos, seconsiderarmos o primeiro motivo e os motivosassociados.A multiplicidade de sintomas presentes e asua persistência em contextos relacionais dife-rentes, mostra que estamos perante uma pertur-bação do afecto que interfere com o comporta-mento social destas crianças e com toda a suavida relacional e cognitiva. O tipo de sintomasassociados depende da intensidade da perturba-ção, da sua duração, dos factores etiológicos e daidade da criança.A idade média das crianças do estudo é de 28meses. Só 4 crianças vieram à consulta antes dosdois anos. Nestas últimas, os sintomas referidoseram: insónia, isolamento e dificuldades alimen-tares ligadas ao desmame. Da observação clíni-ca, ressaltava a lentidão, a pobreza interactiva ea retirada, em contraste com os sintomas maisexuberantes das crianças mais velhas. Num doscasos foi feito o diagnóstico diferencial com oautismo.O sofrimento psíquico do bebé é poucas vezesreconhecido como tal e consequentemente não éadmitida a necessidade de intervenção especiali-zada. Talvez seja esta uma das razões da idadetardia do pedido de consulta, que aparece quandoos sintomas são mais exuberantes e interferemcom o comportamento social.Quando analisámos as condições referentes àparentalidade e qualidade dos cuidados, verifi-camos que apenas em 2 casos não havia pertur-bação significativa do meio. Em todos os outros,
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QUADRO 1
 Motivo do pedido de Consulta (n=20)
1.º MotivoSintoma associadoBirras / Agressividade58Atraso de Linguagem51Dificuldades do Sono52Inibição / Isolamento51QUADRO 2
Perturbação do Meio/Parentalidade
D. Psiquiátrica (depressão materna/outras)15Toxicodependência / Alcoolismo5Conflito casa / Separação8Antecedentes maternos de maus tratos / Negligência7Desemprego13
 
a história familiar revelava múltiplos problemas,que se sucediam ao longo do tempo, algunsatravés das gerações, provocando uma perturba-ção familiar de carácter crónico (Quadro 2).Em 15 casos, é referida depressão materna ououtra perturbação psiquiátrica dos pais, que im-plicou tratamento psiquiátrico. Num destes casosé referido suicídio do pai. Em 5 caos, existia to-xicodependência ou alcoolismo, em um ou nosdois progenitores. Em 8 casos, foram encontra-das separações e conflitos conjugais com recursoà violência física. A história infantil das mãesrevela situações familiares gravemente perturba-das, com maus-tratos, negligência ou abandonoem 7 casos. O peso da patologia familiar impedeas crianças de construírem relações estáveis forada família, que poderiam funcionar com factoresprotectores.A partir dos parâmetros analisados nestas cri-anças, podem desenhar-se dois grupos com ca-racterísticas diferentes.O primeiro grupo, mais reduzido, em que nãoexiste patologia familiar anterior e em que a de-pressão infantil aparece como consequência deacontecimentos de vida que introduzem roturasrelacionais bruscas.O segundo grupo, mais numeroso, em que aperturbação do meio é de carácter crónico.No primeiro grupo, a depressão tem iníciomais precoce, aparecendo associada a aconteci-mentos que vieram modificar o meio, quebrandorelações anteriormente estáveis. Nos nossos ca-sos, essa perturbação do meio foi, por exemplo,a entrada para a creche ou situações de conflitono casal, o que condicionou um desinvestimentotransitório da criança. Neste grupo de crianças,que nos chegam mais cedo, os sintomas de reti-rada e de isolamento são mais evidentes. Seriamsituações mais próximas da descrição clássica dedepressão anaclítica, embora nos nossos casos, arotura da relação não seja tão dramática. Seriamsituações próximas do diagnóstico da reacção deluto prolongado (DC: 0-3, 1994). Nestes casoshá uma remissão rápida dos sintomas, associadaà recuperação da relação (Quadro 3).No segundo grupo, o quadro depressivo apa-rece associado a uma carência crónica dos cui-dados e as crianças são referenciadas mais tardeao serviço. Os sintomas tiveram quase sempreum início insidioso, tomando diversas formas li-gadas à fase do desenvolvimento (birras, atrasode linguagem, etc.). Neste segundo grupo, háuma insuficiência crónica do aporte afectivo,sem haver contudo situações de rotura tão evi-dentes. Existe uma negligência psicológica per-sistente e às vezes física, geralmente intermi-tente, mas com carácter crónico. O investimentoafectivo é flutuante e existem mudanças frequen-tes de prestadores de cuidados. Esta situaçãoafecta o sentimento de segurança e não permiteuma vinculação estável. Em termos diagnósticos,estes casos estariam mais perto da PerturbaçãoReactiva da Vinculação (DC: 0-3, 1994). No en-tanto, na nossa amostra, as crianças estão maisreferenciadas às mães, não aparece a indiscrimi-nação social e a ambivalência que caracterizammais frequentemente a criança sujeita a negli-gência e maus-tratos.Nesta situação de falta de alimento afectivo erelacional crónico, os bebés sofrem talvez nãotanto daquilo a que se chama depressão, no sen-tido de depressão anaclítica de Spitz (1946), masde uma falha global do desenvolvimento do Eu,com repercussões na organização global da suapersonalidade, tendo em conta as alterações jáexistentes na organização do pensamento e nacapacidade simbólica (Quadro 4)Citando o Dr. Coimbra de Matos (1996), a
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QUADRO3
Grupo I 
- Início agudo dos sintomas- Desencadeados por acontecimentos de vida que introduzem roturas relacionais- Ausência de patologia grave materna / Paterna- Remissão rápida dos, associada à recuperação da relação
- Quadro clínico semelhante às Reacções de Luto (DC: 0-3)

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