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Bruxaria e História, algumas aproximações

Bruxaria e História, algumas aproximações

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01/15/2012

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B
ruxaria e
H
istória: algumas aproximações
 Rafael Domingos
*
Bruxaria: um conceito polissêmico
Atualmente a Bruxaria tem sido um assunto recorrente nas mais diversas áreasde discussão acadêmica, como a história e a literatura, mas também no cotidiano demilhares de pessoas em todo o mundo que consideram a si próprias
bruxas
e
bruxos
. Assim, devemos ter em mente que, hoje em dia, quando se fala em
bruxaria
 há uma grande quantidade de sentidos possíveis de serem atribuídos a essa palavra eque, diferente do que se imagina este não é um conceito tão fácil de ser definido,devendo-se considerar seus principais interlocutores e contextos históricos/sociais.O século XIX, com a profissionalização da história e a consolidação dopensamento antropológico, foi palco de debates em diversas áreas do conhecimento quepossuíam como foco a definição mais correta para a palavra bruxaria. Esses debateseram travados entre variados estudiosos, desde teólogos, passando por estudiosos damente (a psicologia também ganhava forma nessa época), antropólogos e historiadores,poetas e romancistas, e os defensores da ciência e da razão. O resultado foi um grandelegado escrito no qual os contornos da bruxaria como um conhecimento começaram aganhar forma. Não há dúvida de que esses debates, livros e artigos do período serelacionem diretamente com a publicação, em 1951, do primeiro livro do que seconvencionou chamar
bruxaria moderna
.
1
 Haveria assim, uma ligação muito grande entre o conhecimento acumuladosobre a ideia de bruxaria desde o final da idade média, efervescido pelo debateacalorado do século XIX e sua apropriação posterior no século XX, vindo-se tornar umadas religiões que mais crescem atualmente. Dessa forma, entendemos que doissignificados possíveis para a palavra bruxaria provem: 1) dos debates acadêmicos, quetendem a vê-la a partir de seu contexto social; e 2) dos próprios
bruxos
, os praticantesatuais da bruxaria nas suas diversas ramificações e tradições.A aproximação entre essas duas tendências pode ser uma experiência muito ricatanto para os acadêmicos, que têm a chance de ver uma religião cada vez mais crescenteconsolidar suas bases, como para os próprios bruxos que podem contar com os estudossobre sua religião a fim de desenvolverem uma prática mais reflexiva e convicta. Essaaproximação, entretanto, certamente não se dará sem tensões. Isso porque parece haverum fosso entre o conhecimento sobre bruxaria produzido no mundo acadêmico e aquele
 
gestado no seio dos praticantes
2
. Não encaramos isso como algo desanimador. Paranenhuma das partes.Antes de qualquer coisa, devemos partir da ideia
 – 
já bastante arraigada nosdebates historiográficos
 – 
de que não existe a
verdade histórica
. Esta é, sim, umaconstrução discursiva e narrativa, partindo-se dos fatos interpretados nos
documentos
 históricos e que possui muito da subjetividade de seu produtor, o historiador
3
. Ficaevidente, portanto, que ao aproximar as duas tendências anteriormente apontadas nãoestamos preparando um campo de batalha no qual uma delas deverá ruir. Pelo contrário,o diálogo pode ser enriquecedor, mostrando que as
construções
e as
visões
sobre opassado são oriundas de necessidades e interesses diversos, não existindo entre eles umdesnível qualitativo.
Estudos atuais
Ainda está para realizar-se um levantamento sistemático do atual estado da artedos estudos sobre bruxaria, sobretudo no Brasil. Sabemos que existem pesquisaspontuais, principalmente no nível da pós-graduação, que tratam de temas que podem serelacionar diretamente ou não com a bruxaria. Na área da História, o que podemosafirmar com bastante certeza é que há toda uma historiografia da inquisição, já bastanteconsolidada, que vez ou outra trata especificamente da bruxaria. O
estudo dessesestudos
é algo que se faz cada vez mais necessário, e é um caminho ainda a sertrilhado.Neste artigo, escrito especialmente para o portal Neopaganismo, trago asprimeiras reflexões sobre a aproximação entre a história e a bruxaria (feitas acima),assunto que pretendo aprofundar em artigos futuros, mais pontuais. De qualquer forma,quero deixar registrada a existência do Grupo Multidisciplinar de Bruxaria Histórica daUniversidade Federal de São Paulo. Organizado totalmente por alunos de diversoscursos da área de humanidades, o grupo possui frentes de pesquisas variadas e congregaos estudos mais atuais sobre o tema. A curiosidade e o interesse sobre o fenômeno dabruxaria nos diferentes espaços e temporalidades da história têm sido os principaismotores de nossos encontros.Depois do primeiro semestre de discussões, chegamos a algumas ideias que,antes de serem arremates sobre o assunto, são sim os primeiros direcionamentos que nosassinalam os caminhos a serem abraçados futuramente. Assim, para nós, a
bruxaria" éum conceito que abrange os mais diversos significados. Como
experiência religiosa
, é
 
uma prática atual que, desde a década de 50 do séc. XX, vem crescendosubstancialmente. Como
 fenômeno social
, atravessou os séculos, sendo consolidada noimaginário popular através das teorias cristãs. Foi motivo de perseguição, mote paraliteratura, tema de sucessos hollywoodianos, e faz parte do dia a dia de milhares depessoas que se consideram "bruxas". A bruxaria, em nosso grupo, é entendida como umviés interpretativo, assim como um fato em si, e essas duas perspectivas se cruzam emnossas discussões.Como um
viés interpretativo
, a bruxaria pode ser tema de estudos sobre osnacionalismos, racionalismo, folclore e cultura popular, lutas sociais (feminismo,movimento LGBT) e história das religiões. Entre os séculos XIX e XX a temática emtorno da figura da bruxa povoou o imaginário popular, a literatura, o cinema e a músicae fez parte de processos mais abrangentes, sendo assim, uma chave para a explicaçãosobre determinadas estruturas sociais, culturais e políticas mais amplas.Como um
 fato em si
, a bruxaria nos remete à perseguição cristã iniciada no finalda idade média e durante grande parte da era moderna européias. Mas, mais do que isso,a bruxaria é entendida por nós como o centro gravitacional no qual orbitam outrosconceitos, como feitiçaria e magia, muito mais amplos e que não se limitam ao estudoda idade média e moderna, atravessando a "pré-história", a idade antiga e a trajetóriahistórica de diferentes sociedades, como as africanas, aborígenes australianas easiáticas. Assim, julgamos tratar-se de BruxariaS, no plural.Portanto, nossos estudos são nitidamente marcados pela multidisciplinaridade.Para compreender a(s) Bruxaria(s), é necessário olhá-la(s) através de diferentesperspectivas que considerem a sua complexidade. Nesse sentido, nossas visões secruzam entre a bruxaria moderna, vista como apropriação religiosa dos discursos emtorno da bruxaria, e os fenômenos históricos que lhe são próprios.Nossos encontros são sempre baseados em leituras selecionadas pelo própriogrupo e que procuram abranger todas essas discussões, lançando mão de diversasabordagens e perspectivas (histórica, filosófica, sociológica etc).No primeiro semestre, dividimos os encontros em dois módulos: o primeiro
chamado de “religião em perspectiva(s)”; e o segundo, “em busca dos conceitos”. Dessaforma, selecionamos textos que discutem a “religião” como um conceito polissêmico, e
a partir de três perspectivas: 1) religião e poder; 2) religião e o sagrado feminino; e 3)religião e bruxaria. A opção por esse viés é fruto da necessidade que sentimos emdiscutir diferentes teorias sobre as práticas religiosas, a fim de aproximar a ideia de

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