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C i ê n c i a & S a ú d e C ol e t i v a ,1 6 ( S u pl .1 ) : 7 1 9 - 7 2 9 ,2 0 1 1
de ferramentas metodológicas da ciência políti-ca, relações internacionais e história.A introdução da qualidade como parâmetroanalítico na área de saúde abriu a discussão sobrea subjetividade em si mesma. A definição de qua-lidade como estado decorrente da percepçãoapontou a necessidade de incorporar técnicas epressupostos analíticos capazes de identificar asubjetividade na dimensão coletiva, expressa empadrões de comportamento, crenças e estruturassimbólicas, como permitem as técnicas e méto-dos da antropologia. A identificação desses pa-drões simbólicos e comportamentais, por sua vez,apontou a necessidade de aprofundar essa análi-se, agregando elementos para tecer consideraçõesde cunho valorativo, como faz a filosofia. Essabreve explanação mostra que, ao longo das últi-mas décadas, a saúde pública vem agregando co-nhecimentos de diversas áreas com o intuito depropor processos de transformação social capa-zes de possibilitar melhor qualidade de vida paraindivíduos, grupos, segmentos e populações.Da mesma maneira, a bioética reproduz essatrajetória, consolidando-se como campo trans-disciplinar
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de produção de conhecimento, cujoordenamento metodológico e disciplinar congre-ga e dialoga com referências de diferentes fontes,articuladas de maneira a descrever, analisar e pro-por soluções aos impasses éticos que se antepõemà saúde, na acepção ampla de qualidade de vida.Essas distintas perspectivas da bioética brasileiraadotam ainda o mesmo âmbito de atuação e amesma dimensão social; voltam-se à particulari-zação dos mesmos atores sociais, os segmentos egrupos cuja situação e condição de vida implicama focalização de recursos e estratégias para mini-mizar a assimetria, e utilizam os mesmo referen-ciais para identificação desses sujeitos, os concei-tos oriundos dos direitos humanos, tomadoscomo norteadores das propostas teóricas.Nessa linha de ideias, no presente texto, utili-za-se a expressão bioéticas, no plural, de acordocom as conclusões finais do III Encontro Luso-Brasileiro de Bioética, desenvolvido na Ilha dosAçores, Portugal, em 2004, cujo tema central tra-zia a seguinte interrogação: Bioética ou bioéticasna evolução das sociedades? A conclusão foi deque, sendo a bioética plural sob o ponto de vistade moralidades, existem na verdade diversas bi-oéticas - diferentes e diferenciadas - que devemvencer o desafio de analisar, interpretar e expres-sar as visões morais do espaço geográfico e so-cial onde são desenvolvidas
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As origens da bioética
O surgimento da bioética pode ser remetido, en-tre outras situações históricas, ao Tribunal deNuremberg, iniciativa dos aliados vencedores daSegunda Guerra Mundial para averiguar e julgaros crimes cometidos contra a humanidade pelogoverno alemão sob o regime nazista. Disso sepode inferir também que “seu berço é, inegavel-mente, a área dos Direitos Humanos”
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. Porém, aidentificação desse campo de estudos por meiodo termo “bioética” deu-se somente 23 anos maistarde, quando Potter cunhou o neologismo, em1970, nos Estados Unidos
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. Na ocasião, sua pre-ocupação voltava-se à discussão dos impactosambientais da ação antrópica, preocupação que,de maneira geral, começava naquela década adespertar no meio acadêmico em todo mundo.O crescimento científico alcançado no pós-guer-ra havia provocado transformações sociais eambientais em todas as sociedades industrializa-das do Ocidente, alterando os modos de vida emcada uma delas.O aumento da população mundial a partirdo
baby boom
e a forte tendência de migraçãopara áreas urbanas, desde meados do século XX,contribuíram para acelerar a pressão sobre osrecursos naturais. A preocupação com sua pro-teção e economia foi introduzida não apenas nodiscurso acadêmico, mas na pauta cotidiana dosveículos de mídia. A apresentação em jornais,revistas e programas televisivos de matérias so-bre a poluição do ar e da água, bem como sobrea utilização de combustíveis fósseis, levou aopúblico leigo o conhecimento, preocupação e dis-cussão sobre esses temas. É importante conside-rar que, até então, o crescimento econômico erao único parâmetro para mensurar o desenvolvi-mento dos países e a ciência e tecnologia vistascomo ferramentas indispensáveis e indiscutíveispara produzir o progresso almejado. SegundoPotter, o que lhe interessava era questionar o pro-gresso e para onde os avanços materialistas, pró-prios da ciência e tecnologia, estavam levando acultura ocidental
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.Se a criação do termo bioética atendeu a umapreocupação com o rumo que a visão de mundopositivista imprimiu à pesquisa científica e aodesenvolvimento tecnológico, os objetivos de suacriação não foram contemplados, ao menos nasprimeiras duas décadas nas quais essa expressãofoi divulgada e utilizada, a partir da perspectivaque imperou na própria sociedade estaduniden-se. A apropriação do termo no meio médico, pormeio das discussões promovidas já em 1971 pelo