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ARI   G O ARI   C
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Conselho Federal deMedicina. SGAS 915, lote72, Asa Sul. 70390-150Brasília DF.doraporto@gmail.com
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Cátedra UNESCO deBioética. Núcleo de Estudose Pesquisas em Bioética.Programa de Pós-Graduação em Bioética.Campus UniversitárioDarcy Ribeiro, Asa Norte.70919-970 Brasília DF.
A influência da Reforma Sanitáriana construção das bioéticas brasileiras
The Brazilian Sanitary Reform’s influencein the construction of a national bioethics
Resumo
 
Este artigo de revisão reconstrói em li-nhas gerais o caminho percorrido pela bioéticabrasileira na formulação de linhas autóctones deestudo e pesquisa a partir da relação entre essaslinhas e o processo histórico e social que consoli-dou a Reforma Sanitária no país. Foram selecio-nados os trabalhos e perspectivas teóricas que se propõem a atuar no mesmo âmbito, a dimensãosocial; que se referem a grupos ou segmentos parti-cularmente vulneráveis; que questionam as rela-ções de poder a partir da identificação das desi-gualdades sociais, bem como as voltadas para osmesmo parâmetros norteadores, os tratados de di-reitos humanos, ou ainda aquelas que incluem norol de sua temática a discussão sobre a qualidadede vida. A apresentação destas distintas visões dabioética brasileira está circunscrita aos pontos tan-genciais específicos acima relacionados e orienta-da cronologicamente a partir da criação do termo“bioética” nos meios acadêmicos estadunidenses.
Palavras-chave
 Bioética, Sociedade, ReformaSanitária, Direitos humanos, Desigualdade
Abstract
This revision article remakes in gener-al guidelines the path to the Brazilian Bioethicsin the planning of research and education au-tochthones lines from the relations between theselines and the social and historical process that consolidated the Brazilian Sanitary Reform. Theworks and theoretical perspectives selected havethe proposal to act in the some scope, the socialdimension; that relate to groups or particularlyvulnerable segments that question the power re-lationship from the identification of the socialinequalities as well as to the ones focused in thesame orienting parameters, the Human Rightstreaties; or the ones that included in its themath-ical rol the discussion about quality of life. The presentation of these distinct points of views of the Brazilian Bioethics are circumscribed at thetangential specifically relationed above and chro-nologically orientated from the creation of the“Bioethics” term in the North American aca-demic environment.
Key words
 Bioethics, Society, Brazilian Sani-tary Reform, Human rights, Inequalities
Dora Porto
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Volnei Garrafa
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   P  o  r   t  o   D ,   G  a  r  r  a   f  a   V
Introdução
Há relação direta entre o processo da ReformaSanitária brasileira e o perfil da bioética que vemsendo desenvolvida no país. Em ambas as áreas,a análise dos marcos teóricos, âmbitos de atua-ção, sujeitos aos quais se refere e parâmetrosnorteadores, o demonstra. A possibilidade deestabelecer paralelo entre esses planos analíticosindica que a reflexão bioética autóctone no Brasilestá sendo direta ou indiretamente influenciadapelas perspectivas delineadas por aquele proces-so, iniciado há mais de vinte anos.Se a Reforma Sanitária incorporou definitiva-mente a dimensão social na análise do processode saúde e adoecimento da população, a bioéticabrasileira reflete essa preocupação, sendo a prin-cipal expressão disso o significativo número detrabalhos publicados recentemente e que relacio-nam os campos da bioética e da saúde pública
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.Paralelo a sua mais expressiva bandeira dereivindicação - a universalização do acesso aosserviços de recuperação da saúde - a ReformaSanitária enfatizou aspectos da saúde públicadeterminantes para a qualidade de vida de indi-víduos, grupos, segmentos e populações, comoambiente, condições geográficas, acesso à água ealimentação. Tais aspectos passaram, gradativa-mente, a ser considerados tão importantes paraa saúde e a diminuição da morbimortalidadequanto os recursos terapêuticos, especialmentenos casos em que se pôde comprovar que a efeti-vidade da terapêutica havia encontrado seu pon-to de saturação, não tendo mais influência nadiminuição da relação saúde/adoecimento.Quando foi possível perceber que o efeito daterapêutica havia deixado de reduzir os índicesque mensuram a relação saúde/adoecimento,começam a ser, cada vez mais, incorporados àanálise estes outros aspectos que correlacionamsaúde à qualidade de vida. Tais aspectos extra-polam o âmbito tradicional da medicina curati-va e de suas ferramentas analíticas, bem como desuas áreas prioritárias de produção do conheci-mento - a biologia e seus sub-ramos, a química,a farmácia, além da própria medicina e suas es-pecialidades, incluindo a epidemiologia e saúdecoletiva - apontando a necessidade de agregaroutros campos do conhecimento na busca desoluções para os problemas da saúde.Sob a influência da Reforma Sanitária, tam-bém aspectos relacionados à dimensão socioe-conômica, como habitação, renda, trabalho, edu-cação e hábitos pessoais, passaram a ser percebi-dos como condicionantes do processo, compon-do o recorte analítico sobre esses índices e intro-duzindo a necessidade de incorporar o conheci-mento das ciências humanas, geografia e suasespecialidades, ciências sociais, bem como da eco-nomia e urbanismo.Paralelo à análise desses aspectos determi-nantes e condicionantes da qualidade de vida queatuam na dimensão social e relacionam-se basi-camente com a promoção e proteção à saúde, oacesso aos serviços passou a ser visto como fun-damental, transferindo o foco também no queconcerne à recuperação da saúde, a outros fato-res não diretamente relacionados à terapêutica.Passaram a fazer parte da reflexão da saúde pú-blica, então, as formas de levantamento e finan-ciamento de recursos, sua alocação e gerencia-mento, assim como os resultados das políticasimplementadas. Esse enfoque agregou a compe-tência das áreas de gestão e administração, pro-piciando nova destinação ao conhecimento ge-rado pela estatística e suas ferramentas.Além da discussão sobre a universalização doacesso, fica evidenciada a necessidade de garantira qualidade dos serviços para alcançar sua efeti-vidade. A adoção da ideia de qualidade de vidacomo parâmetro de saúde implicou em introdu-zir a dimensão subjetiva na análise do processode adoecimento, permitindo subsidiar os discur-sos embasados nas noções de diversidade e doconhecimento produzido na área do direito nonível infralegal, constitucional e internacional e,em relação a este, principalmente, a área dos di-reitos humanos. Esse viés analítico veio ao en-contro da ideia de pluralidade moral, noção quetambém demanda e subsidia a análise qualitati-va em saúde pública, considerando as especifici-dades fisiológicas e comportamentais de grupose segmentos populacionais, bem como as estra-tégias coletivas adotadas frente a sua situação econdições de vida.Decorre da adoção desse viés a incorporaçãoda política como área pertinente à análise dosfatores que influenciam a qualidade de vida e saú-de das populações. O amplo leque de acepçõesdo termo permitiu que a incorporação dessa pers-pectiva ocorresse sob diversas óticas, abrangen-do desde o arcabouço conceitual gerado nos pro-cessos autogestionários dos movimentos soci-ais, até aqueles relacionados ao estudo das rela-ções formais de poder, centrados na estrutura,atuação e papel do Estado. No caso da Reforma,o Estado tornou-se agente fiduciário na imple-mentação da qualidade de vida como direito decidadania. A incorporação do campo da políticaà reflexão da saúde pública favoreceu a inserção
 
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 C i   ê n c i   a  & S  a  ú  d  e  C  ol   e  t  i   v a  , 6  (   S  u pl   . )   :  7  9 - 7  9  , 0 
de ferramentas metodológicas da ciência políti-ca, relações internacionais e história.A introdução da qualidade como parâmetroanalítico na área de saúde abriu a discussão sobrea subjetividade em si mesma. A definição de qua-lidade como estado decorrente da percepçãoapontou a necessidade de incorporar técnicas epressupostos analíticos capazes de identificar asubjetividade na dimensão coletiva, expressa empadrões de comportamento, crenças e estruturassimbólicas, como permitem as técnicas e méto-dos da antropologia. A identificação desses pa-drões simbólicos e comportamentais, por sua vez,apontou a necessidade de aprofundar essa análi-se, agregando elementos para tecer consideraçõesde cunho valorativo, como faz a filosofia. Essabreve explanação mostra que, ao longo das últi-mas décadas, a saúde pública vem agregando co-nhecimentos de diversas áreas com o intuito depropor processos de transformação social capa-zes de possibilitar melhor qualidade de vida paraindivíduos, grupos, segmentos e populações.Da mesma maneira, a bioética reproduz essatrajetória, consolidando-se como campo trans-disciplinar
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de produção de conhecimento, cujoordenamento metodológico e disciplinar congre-ga e dialoga com referências de diferentes fontes,articuladas de maneira a descrever, analisar e pro-por soluções aos impasses éticos que se antepõemà saúde, na acepção ampla de qualidade de vida.Essas distintas perspectivas da bioética brasileiraadotam ainda o mesmo âmbito de atuação e amesma dimensão social; voltam-se à particulari-zação dos mesmos atores sociais, os segmentos egrupos cuja situação e condição de vida implicama focalização de recursos e estratégias para mini-mizar a assimetria, e utilizam os mesmo referen-ciais para identificação desses sujeitos, os concei-tos oriundos dos direitos humanos, tomadoscomo norteadores das propostas teóricas.Nessa linha de ideias, no presente texto, utili-za-se a expressão bioéticas, no plural, de acordocom as conclusões finais do III Encontro Luso-Brasileiro de Bioética, desenvolvido na Ilha dosores, Portugal, em 2004, cujo tema central tra-zia a seguinte interrogação: Bioética ou bioéticasna evolução das sociedades? A conclusão foi deque, sendo a bioética plural sob o ponto de vistade moralidades, existem na verdade diversas bi-oéticas - diferentes e diferenciadas - que devemvencer o desafio de analisar, interpretar e expres-sar as visões morais do espaço geográfico e so-cial onde são desenvolvidas
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As origens da bioética
O surgimento da bioética pode ser remetido, en-tre outras situações históricas, ao Tribunal deNuremberg, iniciativa dos aliados vencedores daSegunda Guerra Mundial para averiguar e julgaros crimes cometidos contra a humanidade pelogoverno alemão sob o regime nazista. Disso sepode inferir também que “seu berço é, inegavel-mente, a área dos Direitos Humanos”
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. Porém, aidentificação desse campo de estudos por meiodo termo “bioética” deu-se somente 23 anos maistarde, quando Potter cunhou o neologismo, em1970, nos Estados Unidos
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. Na ocasião, sua pre-ocupação voltava-se à discussão dos impactosambientais da ação antrópica, preocupação que,de maneira geral, começava naquela década adespertar no meio acadêmico em todo mundo.O crescimento científico alcançado no pós-guer-ra havia provocado transformações sociais eambientais em todas as sociedades industrializa-das do Ocidente, alterando os modos de vida emcada uma delas.O aumento da população mundial a partirdo
baby boom
e a forte tendência de migraçãopara áreas urbanas, desde meados do século XX,contribuíram para acelerar a pressão sobre osrecursos naturais. A preocupação com sua pro-teção e economia foi introduzida não apenas nodiscurso acadêmico, mas na pauta cotidiana dosveículos de mídia. A apresentação em jornais,revistas e programas televisivos de matérias so-bre a poluição do ar e da água, bem como sobrea utilização de combustíveis fósseis, levou aopúblico leigo o conhecimento, preocupação e dis-cussão sobre esses temas. É importante conside-rar que, até então, o crescimento econômico erao único parâmetro para mensurar o desenvolvi-mento dos países e a ciência e tecnologia vistascomo ferramentas indispensáveis e indiscutíveispara produzir o progresso almejado. SegundoPotter, o que lhe interessava era questionar o pro-gresso e para onde os avanços materialistas, pró-prios da ciência e tecnologia, estavam levando acultura ocidental
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.Se a criação do termo bioética atendeu a umapreocupação com o rumo que a visão de mundopositivista imprimiu à pesquisa científica e aodesenvolvimento tecnológico, os objetivos de suacriação não foram contemplados, ao menos nasprimeiras duas décadas nas quais essa expressãofoi divulgada e utilizada, a partir da perspectivaque imperou na própria sociedade estaduniden-se. A apropriação do termo no meio médico, pormeio das discussões promovidas já em 1971 pelo
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