“Consagro as minhas tragédias ao tempo”
Ésquilo
“Contemplai os dois tiranos da pátria,assassinos de meu pai e destruidores desta casa…”
Orestes / Coéforas
Oresteia, uma tragédia da Europa.
em busca de um teatro político
Sempre a Justiça se exerceu em nome de deuses, imperadores, reis, chefes, ditadores…figuras providenciais, míticas, fundadas no medo, no respeito, na admiração, no terror. Oexercício da Justiça sempre se quis espectacular e exemplar. Moral. Acusação. Culpa.Culpado. Castigo. Moral. Pecado. Pecador. Crime. Castigo. Morte, Assassínio. Homicídio.Suicídio. Matricídio. Parricídio. Moral. Fome. Tortura. Raça. Holocausto. Extermínio. Penade Morte.
Enfim…a Europa.
Nesta nossa Europa, o convívio com o arbítrio tornou-sefamiliar com a respectiva condena a cair sempre no vizinho. No desconcerto de deuses,pessoas e nações, sempre se comeu e bebeu a justiça, em cálices de ouro, a bel-prazerdos poderosos, para auto-satisfação dos seus.Sempre a justiça invocou deuses e deus. Sempre a humanidade sofreu. E a humanidadeé uma abstracção moral reconfortante. E não precisamos de rever a História, nem antiganem clássica, nem da idade média, a Europa vive hoje como sempre almejou viver… nabarbárie. O Caos instalou-se com novos mitos para gáudio e jactância destes
novosdeuses
que nos condenam.A tragédia tem um viver íntimo, como dizia Bonnard* “foi para mim que o poeta escreveuesta tragédia; quis tomar-me pela mão e ajudar-me a atravessar a dor de viver, que é asua e é a minha, a nossa dor de homens e conduzir-me por fim às margens da alegria” Ainda citando, “é essencialmente uma guerra declarada ao fatal, de que o homem develibertar-se”.Com
Oresteia
, queremos fixar-nos na contemporaneidade. Em NÓS! Nesta nossa - porherança de bastardos –
Europa
. Essa mítica, bela e quente Europa que se banhava noPoleponeso, amamentada no berço pela Hélade para não deixarmos que a Memória nosatraiçoe. A velha vontade, há tanto acalentada, de destruição da nossa querida Europarecrudesce e os
novos turcos
, são afinal os nossos irmãos de ontem. Eles estão hoje nomeio de nós e esperam o momento.Com
Oresteia
, queremos fixar-nos na
Europa
a partir do sul. Com os pés nas areiasmediterrânicas, num tecto de estrelas, com o azeite a alumiar e um ramo de oliveira namão. Daqui, deste país com P. velho de quase mil anos, mas jovem, pequeno e infeliz,nesta Europa moribunda. Não podemos continuar a calar, sob pena de explodirmos deindignação, perante a torpeza e vacuidade assassina do discurso político,
bien fait
, com amãe Grécia a pagar juros indexados a submarinos e a obrigatoriedade de voto sim, sejacontra Palestina na ONU, seja com um
nim
às limpezas étnicas na ex Yugoslávia, seja afavor do ataque à Líbia, apesar do direito internacional, seja a meter a língua no bolsorelativamente à Síria, seja contra as armas nucleares no Iraque, mas sempre, sempre afavor do negócio da morte, da indústria da guerra, do sugar do petróleo, sangue dosangue dos nosso irmãos do outro lado. Sempre a Justiça, sempre a Moral a confortar oego. A Europa perdeu o rumo na volta da guerra. Os comandantes tresmalharam-se,embebedaram-se e ufanos de poder, declararam guerra aos povos. Esta Europa,
casa dos Átridas
, berço de nações e de culturas, de hábitos de convivência entre homens e deusesestá cativa, qual
Cassandra
.A
Europa
, a do Sul, vive estes dias esperados, anestesiada e amnésica. A falha dememória, o esquecimento cultural, paralisou o exercício de cidadania e o reconhecimentodo Outro.A
Europa
, esta Europa toda, arrogante e faminta, sobrinha de todos os aleijados mentaisda segunda guerra, é a Europa de líderes / títeres, com armaduras de deuses numOlimpo de circo. Com
máscaras
de olhos vazios e dentes roubados nos campos deconcentração,
funis
de petróleo nas bocas e
coturnos
feitos de ossos nas valas comuns.
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