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 Alessandra Gotuzo Seabra Capovilla
1
- Universidade São Francisco Ellen Carolina dos Santos Assef - Universidade do Oeste Paulista Heitor Francisco Pinto Cozza - Universidade São Francisco
 R
 ESUMO
 
Funções executivas (FE) referem-se à capacidade de engajamento em comportamento orientado a objetivos, realizandoações voluntárias e auto-organizadas. Alterações em tais funções estão relacionadas a distúrbios como o Transtorno doDéficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Pesquisas têm apontado a necessidade desmembrar as FE em componentes,incluindo memória de trabalho, atenção seletiva, controle inibitório, flexibilidade e planejamento. Este artigo discute oconceito de FE e seu comprometimento no TDAH, revisando dois estudos brasileiros que investigam a validade deinstrumentos para avaliar componentes das FE em crianças, correlacionando-os com desatenção e hiperatividade. Noprimeiro estudo houve correlações negativas entre desatenção/hiperatividade e escores nos Testes de Trilhas, Torre deLondres, Memória de Trabalho Auditiva e Visual. No segundo estudo, crianças com TDAH apresentaram desempenhosrebaixados nos Testes de Geração Semântica, Stroop e Trilhas. Tais pesquisas têm fornecido evidências de validade detais instrumentos, revelando comprometimento de alguns componentes das FE no TDAH.
Palavras-chave
: Avaliação neuropsicológica; Funções executivas; Validação.
NN
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 A
 BSTRACT 
 
The executive functions refer to the capacity of the subject to engage in oriented behavior to objectives, accomplishingvoluntary and self-organized actions. Disturbances in these functions are related to disorders like the Attention DeficitHyperactivity Disorder (ADHD). Researches have been indicated that executive functions must be divided incomponents, such as working memory, selective attention, inhibitory control, flexibility and planning. This articlediscusses the executive functions and their involvement in ADHD, and its describes two Brazilian researches thatinvestigated validity of tests for assesses the executive components in children, correlating them with desattention andhyperactivity. In the first research, there were negative correlations between desattention/hyperactivity and scores in TrialMaking Test, London Tower, Verbal and Visual Working Memory Test. Children with ADHD had poorer performance inSemantic Generation Test, Stroop Test and Trial Making Test. These studies have been demonstrated test’s validity,revealing deficits in some executive components in ADHD.
Keywords
: Neuropsychological assessment; Executive functions; Validation.
I
NTRODUÇÃO
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Nos últimos anos a neuropsicologia temampliado o número de pesquisas sobre o córtex pré-frontal e as funções executivas. O córtex pré-frontal,que ocupa quase um terço da massa total do córtex,mantém relações múltiplas e quase semprerecíprocas com inúmeras outras estruturasencefálicas. Tais relações correspondem a conexõescom regiões de associação do córtex parietal,temporal e occipital, bem como com diversasestruturas subcorticais, especialmente com o tálamo,e possui as únicas representações corticais deinformações provenientes do sistema límbico.
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Contato:
Rua Alexandre Rodrigues Barbosa, 45, Itatiba, SP, 13.251-900Telefones: (11) 4534-8040, (11) 9883-9636. Fax: (11) 4524-1933.
 E-mail
: alessandra.capovilla@saofrancisco.edu.br
Tal localização tem levado pesquisadores acaracterizá-lo como um local de integração entrediferentes processos cognitivos e como a interfaceentre a cognição e a emoção (Cozolino, 2002;Gazzaniga, Ivry & Mangun, 2002).Por muito tempo houve uma tendência entre osneurocientistas de considerar o córtex pré-frontalcomo tendo uma função única (Gil, 2002). Porém,estudos na última década têm demonstradoclaramente a necessidade de subdividir as funções docórtex pré-frontal (e.g., Krikorian, Bartok & Gay,1994; Souza, Ignácio, Cunha, Oliveira & Moll,2001), sendo que tais subdivisões funcionais estariamrelacionadas a diferentes regiões anatômicas. Ocórtex pré-frontal pode ser subdividido em trêsregiões: córtex pré-frontal lateral (áreas 45 e 46,partes das áreas 9 a 12 e região superior da área 47,conforme o sistema classificatório de Brodmann),córtex pré-frontal ventromedial ou córtex
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orbitofrontal (as porções inferiores da área 47 epartes médias das áreas 9 a 12) e córtex cinguladoanterior (áreas 24, 25 e 32, regiões internas dasáreas 6, 8, 9 e 10).Destas três regiões, o córtex pré-frontal laterale o córtex cingulado anterior estão especialmenteenvolvidos no desempenho de tarefas cognitivas,enquanto o córtex pré-frontal ventromedial estáprimordialmente relacionado à emoção. Assim,apesar de tanto o córtex pré-frontal lateral quanto oventromedial desempenharem funções de inibição econtrole, as áreas laterais são ativadas quando adecisão envolve estímulos cognitivos sem conteúdoemocional positivo ou negativo, e as áreasventromediais são ativadas quando a decisão ébaseada em informação afetiva (Cozolino, 2002).As funções relacionadas aos componentescognitivos têm sido nomeadas de funçõesexecutivas e estão relacionadas, de forma geral, àcapacidade do sujeito de engajar-se emcomportamento orientado a objetivos, ou seja, àrealização de ações voluntárias, independentes,autônomas, auto-organizadas e orientadas parametas específicas (Ardila & Ostrosky-Solís, 1996;Gazzaniga e colaboradores, 2002). As funçõesexecutivas estão entre os aspectos mais complexosda cognição e envolvem seleção de informações,integração de informações atuais com informaçõespreviamente memorizadas, planejamento,monitoramento e flexibilidade cognitiva (Gazzaniga& colaboradores, 2002; Lezak, 1995). Tais aspectosencontram-se descritos mais detalhadamente aseguir.O sistema de memória operacional ou detrabalho tem sido especialmente relacionado aocórtex pré-frontal lateral, que tem sido conceituadocomo um depositário transitório de informações quedepois poderão ser acessadas por outros circuitosneurais. Assim, a memória de trabalho permite arepresentação transitória de informações relevantespara uma dada tarefa, informações estas que podemser de uma experiência passada armazenada namemória de longo-prazo ou que podem estardisponíveis no ambiente atual (Gazzaniga &colaboradores, 2002).A suposição de que o córtex pré-frontallateral seria um depositário transitório deinformações, envolvido na memória de trabalho,tem sido corroborada por diversos estudos. Porexemplo, o estudo de Courtney, Ungerleider, Keil eHaxby (1997) revelou aumento da ativação docórtex pré-frontal lateral em tarefas de memória,especialmente de memória de trabalho e durante operíodo em que o estímulo está ausente e deve sermantido na memória de forma a ser manipulado eposteriormente evocado.Pacientes com lesões pré-frontais bilaterais têmdificuldades em tarefas de memória de trabalho queexigem manipulação de informação, tendendo aperseverar nas respostas emitidas (Bear, Connors &Paradiso, 2002). Aliás, a perseveração, isto é, amanutenção de uma mesma resposta diante deestímulos ou tentativas diferentes, é umacaracterística das síndromes pré-frontais.A perseveração pode ser observada em diversastarefas executivas, mas o instrumento maisempregado para esta análise é o Wisconsin CardSorting Task ou Teste de Categorização de Cartas deWisconsin (Lezak, 1995), recentemente publicado noBrasil (Cunha, Trentini, Argimom, Oliveira, Wetlang& Prieb, 2005). Pacientes com lesões frontais tendema apresentar erros nesse teste, mantendo um mesmopadrão de agrupamento das cartas. Tal padrão deperseveração pode ser compreendido como umadificuldade em reter informação sobre quaiscaracterísticas do estímulo foram anteriormenterelevantes, de modo a guiar o comportamentopresente, possibilitando a escolha de uma outracaracterística que não a anteriormente usada. Ou seja,a perseveração pode ser reflexo de uma deficiênciano sistema de memória de trabalho (Bear ecolaboradores, 2002; Gazzaniga e colaboradores,2002).Apesar das memórias de longo prazo nãoestarem estocadas no córtex pré-frontal, mas sim emregiões posteriores, principalmente temporais eparietais, o córtex pré-frontal parece ser oresponsável por resgatar estas informações e mantê-las ativas. De fato, o estudo conduzido por Friedmane Goldman-Rakic (1994), utilizando neuroimagem,revelou ativação tanto do córtex pré-frontal quanto docórtex parietal em tarefas de memória de trabalho,sugerindo que as áreas pré-frontais responsáveis pelamemória de trabalho interagem com as áreasposteriores que mantêm as representações de longoprazo, sendo a ativação das áreas pré-frontais tantomaior quanto maior a demanda sobre a memória detrabalho.Para executar esse resgate de informações pré-estocadas, bem como para manter determinadainformação ativa durante a realização de uma tarefa,é necessária uma seleção das informações que sãorelevantes e, paralelamente, inibição de outrasinformações irrelevantes àquela tarefa. Assim, aseleção de informações é um segundo componenteque tem sido associado às funções executivas e ao
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 Avaliação neuropsicológica das funções executivas e relação com desatenção e hiperatividade 53
córtex pré-frontal, estando mais relacionado àatenção do que à memória. Nesta função o córtexpré-frontal pode ser considerado um mecanismo defiltragem dinâmica de informações, atentando àsque são relevantes e ignorando ou inibindo asirrelevantes (Shimamura, 2000).Esta hipótese explica alguns dos dadosencontrados em pacientes com lesões pré-frontaiscomo, por exemplo, o aumento no efeito deinterferência palavra-cor apresentado no teste deStroop em relação a sujeitos controle (Gazzaniga ecolaboradores, 2002). Neste teste são apresentadaspalavras escritas correspondentes a nomes de cores,tais como azul, verde, vermelho e amarelo, e atarefa do sujeito é dizer a cor com que a palavra foiescrita. Na condição congruente, a palavra escrita ea tinta com que ela foi impressa correspondem àmesma cor (por exemplo, a palavra “verde” escritacom cor verde); na condição divergente, não háconcordância entre a palavra escrita e a tinta usadapara escrevê-la (por exemplo, a palavra “verde”escrita com cor azul). Nesta última condição ocorreo chamado efeito de interferência cor-palavra(Stroop, 1935), sendo que os sujeitos tendem adespender um tempo significativamente maior quena condição congruente. Tal efeito demonstra umadificuldade na seleção da informação relevante àtarefa (no caso, atentar à cor da tinta e desconsideraro conteúdo verbal) e é aumentado em pacientes comlesões no lobo frontal.Thompson-Schill, Swick, Farah, D´Exposito,Kan e Knight (1998) testaram a hipótese do filtrodinâmico por meio de tarefas de geração semântica.Em tais tarefas, um substantivo era apresentado aosujeito que devia gerar uma palavra,especificamente uma ação (verbo), associadasemanticamente ao substantivo. Havia duascondições, condição de baixa seleção (em que cadasubstantivo era mais facilmente associado a apenasuma palavra, como por exemplo “tesoura”, queusualmente é associada à palavra “cortar”) econdição de alta seleção (em que cada substantivopodia ser associado a muitas palavras, como porexemplo “corda”, que pode ser associada àspalavras “laçar”, “amarrar”, “pular” ou “enrolar”).A demanda semântica em ambas as condições erasemelhante: o sujeito devia compreender osubstantivo alvo e evocar um verbo semanticamenterelacionado a ele.Durante a execução da tarefa os sujeitos eramsubmetidos à neuroimagem por meio de tomografiapor emissão de pósitrons. Em ambas as condiçõeshouve ativação do córtex pré-frontal superior àativação numa situação controle de leitura depalavras. Porém, na condição de alta seleção, estaativação foi maior que na condição de baixa seleção,sugerindo que esta região também está envolvida naoperação de seleção.A mesma tarefa foi aplicada a pacientes comlesões no córtex pré-frontal (Thompson-Schill ecolaboradores, 1998), sendo que tais pacientesfalharam em cerca de 15% das tentativas na condiçãode alta seleção. O interessante é que a falha dospacientes não foi pronunciar uma palavra incorreta,mas sim não dizer nenhuma palavra ou simplesmentenomear o substantivo, apesar de conseguiremreconhecer, numa outra tarefa, qual dentre palavrasalternativas combinava semanticamente com osubstantivo alvo. Esse tipo de erro não ocorreu nacondição de baixa seleção, em que os pacientespraticamente não cometeram erros. Tais resultadossugerem que, na condição de alta seleção, ospacientes tiveram desempenhos limitados devido àdemanda excessiva sobre a seleção e, especialmente,a inibição de informações concorrentes.Knight e Grabowecky (1995) demonstraramque pacientes com lesões frontais têm respostascorticais aumentadas, conforme gravadas porpotenciais evocados, em relação a sujeitos controle.Em um experimento, os sujeitos controle e comlesões no córtex pré-frontal ouviam, em escutadicótica, mensagens diferentes em cada ouvido edeviam atentar a uma mensagem, ignorando a outra,sendo que o ouvido-alvo era alternadoperiodicamente. Eram registradas as respostasevocadas nos lobos temporais de ambos oshemisférios. Nos sujeitos controle, houve umaresposta mais expressiva ao estímulo-alvo, o que nãoocorreu com os pacientes com lesões frontais. Ouseja, tais pacientes não conseguiram atenuar oestímulo que deveria ser negligenciado, o quecorrobora a hipótese de que o córtex pré-frontallateral tem a função de inibir a resposta a estímulosirrelevantes. Em um ambiente continuamentebombardeado por estímulos, o paciente com lesãopré-frontal está numa condição especialmentevulnerável, com dificuldade em manter seu foco eselecionar informação.Para as tarefas cotidianas, além de selecionar,estocar e manipular informações relevantes, éfundamental planejar as ações, atividade esta tambémrelacionada às funções executivas. Assim, oplanejamento requer o estabelecimento de umahierarquia de sub-objetivos, de modo a alcançar oobjetivo final, e pode ser definido como “acapacidade de traçar mentalmente um trajeto do
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