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Princípio da Boa-Fé Objetiva

Princípio da Boa-Fé Objetiva

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37
Artigos Doutrinários – Raquel Elias Sanches
Introdução
O Código Civil de 2002 abandonou a visãopatrimonialista e buscou proteger a pessoa humananas relações privadas estabelecendo três princípiosbasilares:
socialidade
,
operabilidade
e
eticidade
.O princípio da
eticidade
, que é o espírito do atualCódigo Civil, objetiva imprimir ecácia e eetividade aosprincípios constitucionais da valorização da dignidadehumana, da cidadania, da personalidade, da conança,da probidade, da lealdade, da boa-é, da honestidadenas relações jurídicas de direito privado. Este princípioencontra sustentáculo na valorização da pessoahumana e prioriza a boa-é. Irá se apresentar e penetrarno Código Civil por meio da técnica das cláusulasgerais, transormando o ordenamento privado emaberto e poroso.No Código Civil o princípio da boa-é passou a seraplicado também sob o aspecto objetivo, traduzindoum comportamento ético de conduta social. A boa-éobjetiva deve ser articulada de orma coordenada àsoutras normas integrantes do ordenamento a m delograr concreção. Assim, apesar de a boa-é objetivaser consagrada como cláusula geral dos contratos,é orçoso concluir que o reerido princípio encontragrandes reexos nas relações jurídicas que não sejamde cunho meramente negocial.É, pois, em vínculos jurídicos que envolvamvalores relacionados ao bem comum e de caráterpersonalíssimo, tais como as relações amiliares, que odever de cooperação e preservação da conança alheiase azem ainda mais necessários.É sob esse prisma que trataremos o princípio daboa-é objetiva. Para que o tema seja tratado de ormacompleta e o objetivo do estudo seja alcançado, ez-se necessário que, num primeiro momento, ossemabordados os novos paradigmas do Código Civil, comdestaque ao princípio da eticidade.No terceiro capítulo, após noções preliminaresdo princípio da boa-é objetiva, uma análise sob a
O princípio da boa-fé objetiva nas relações patrimoniais de família
Raquel Elias Sanches*
* Analista do Seguro Social na Procuradoria Regional Federal da 1ªRegião – AGU. Advogada. Autora do livro
O Instituto da indignidadee o princípio da independência das ações
– 2002 – Editora AméricaJurídica. Autora do artigo
Dano moral e a prisão em fagrante
– 2009 –Revista de Direito Constitucional e Internacional 52.
perspectiva do Código Civil de 2002 será imprescindível, já que este diploma legal trouxe a previsão expressa dacláusula geral da boa-é objetiva.Na sequência, serão relacionados os valores quepermeiam o atual universo das relações amiliares como especíco modelo de comportamento ditado pelaboa-é objetiva.Trata-se de um trabalho de conexão de conceitose institutos jurídicos. De um lado está a boa-é objetiva,que, além de ser princípio geral de Direito, estáexpressamente prevista no Código Civil como cláusulalimitativa da vontade do particular nos contratos.De outro lado, há institutos amiliares em que estãopresentes deveres, aculdades, poderes e direitos. Oponto de interconexão desses dois lados é o objetodeste trabalho.Em razão da impossibilidade de se abordarde orma detalhada os reexos do princípio da boa-é objetiva em cada uma das espécies de vínculosamiliares, analisaremos apenas o reerido princípionas relações patrimoniais de amília, trazendo algumashipóteses concretas.
2 Os novos paradigmas do Código Civil
2.1 Noções gerais
A visão patrimonialista e individualista do CódigoCivil de 1916 acabou por entrar em choque comos ideais constitucionais trazidos pela ConstituiçãoFederal de 1988.Assim, necessariamente, o Código Civil de 2002precisava se aastar dos valores (patrimonialismo eindividualismo) que marcaram signicativamentea codicação que lhe antecedeu, buscando novosreerenciais, mais próximos aos valores da Constituiçãoda República, em especial dos direitos e garantiasundamentais
1
.Miguel Reale aborda os modelos jurídicos comoestruturas normativas talhadas na concretude daexperiência humana. O direito objetivo é ormado porvárias ontes, pois várias são as estruturas de poderque atuam com legitimidade. Essas ontes normativas
1
FARIAS, Cristiano Chaves de.
Direito Civil – Teoria Geral 
. 8 ed. Rio deJaneiro: Lúmen Júris, 2009, p. 50.
Revista do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, v. 23, n. 9, set. 2011
 
Sumário
 
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Artigos Doutrinários – Raquel Elias Sanches
produzem modelos sancionatórios dinâmicos, que nãosão meras ormas lógicas, mas ormas de experiênciaconcreta. Cada modelo pode agrupar um conjuntode regras interligadas que compõem uma unidadelógica de sentido, em decorrência de atos ou valoresabstraídos da realidade social
2
.A linguagem do Código Civil oi elaboradapara que a comunidade jurídica e os operadoresdo Direito pudessem desempenhar um papel ativona determinação do sentido das normas jurídicas,concretizando um sistema aberto
3
.
2.2 Princípio da socialidade
Direito subjetivo é o poder que o ordenamentoconcede e tutela a uma pessoa para satisação de uminteresse próprio, individual, pretendendo de outrapessoa um determinado comportamento.Nos dois últimos séculos, ortementeinuenciados pelo positivismo jurídico e individualismoliberal, os juristas compreendiam que a satisação deum interesse próprio signicava a busca pelo bemindividual, pois a soma de todos os bens individuaisconsagraria o bem comum da sociedade. Os homensseriam individualmente considerados como umarealidade em si mesma e a sociedade não passaria deuma cção. Não se pensava em solidariedade, pois apartir da vontade de cada indivíduo, seria possívelalcançar a elicidade coletiva
4
.Ocorre que, todos os ordenamentos jurídicosposteriores à Segunda Guerra Mundial perceberam quetodo direito subjetivo tem uma unção social, e esta éa diretriz da socialidade. O que o Estado Democráticode Direito visa é a satisação dos direitos undamentais,desde que compatíveis com as expectativas coletivas.Estes interesses individuais só serão legítimos se nãoocasionar lesão aos interesses da coletividade.
2
REALE, Miguel.
Lições preliminares de Direito
. 26 ed. São Paulo: Saraiva,2002, p.186.
3
Elucida Nelson Rosenvald: “O Código Civil de 2002 traduz aexperiência jurídica brasileira, traça um quadro de nosso país, aocontrário do Código Beviláqua, inspirados em modelos do século XIX,de outras nações. Este estado de coisas gerou uma crise do modelo jurídico, que se reete no cotidiano das pessoas, pois as escolasormalistas do Direito – incluindo-se aí o positivismo – tratavam oDireito como uma concepção exclusivamente técnica, descurando-se de sua vertente ética, de verdadeiro reexo da cultura jurídicada experiência de uma sociedade (ser) e instrumento hábil a suatransormação (dever ser).” (
Dignidade humana e boa-é no CódigoCivil 
. São Paulo: Saraiva, 2007, p. 84)
4
FARIAS,
ob. cit 
., p. 50.
Para Flávio Tartuce o princípio da socialidaderompe com o caráter individualista e egoísticodo Código Civil de 1916 e todos os institutos deDireito Privado passam a ser analisados dentro deuma concepção social importante, indeclinável einaastável. Estes institutos devem ser analisadostendo como parâmetro a Constituição Federal de 1988e seus preceitos undamentais, em especial aquelesque protegem a pessoa humana
5
.Alguns exemplos de socialidade podem serobservados no Código Civil: art. 421 (unção social docontrato) e art. 1.228 (unção social da propriedade).
2.3 Princípio da operabilidade
O princípio da operabilidade objetivou aacilitação da aplicação do Código Civil ao aastar aideia de completude do Código Civil de 1916.Conorme lembra Miguel Reale
6
:
Muito importante oi a decisão tomada deestabelecer soluções normativas de modo a acilitarsua interpretação e aplicação pelo operador doDireito. O que se objetiva alcançar é o Direito emsua concreção, ou seja, em razão dos elementosde ato e de valor que deve ser sempre levadosem conta na enunciação e na aplicação da norma.Observo, nalmente, que a Comissão optou poruma linguagem precisa e atual, menos apegada amodelos clássicos superados, mas el aos valoresde correção e beleza que distinguem o Código Civilvigente.
O princípio da operabilidade tem dois enoques.Num primeiro, a operabilidade é responsável pelaacilitação de Direito Privado, ao deixar de lado o rigortécnico, que era muito valorizado pela codicaçãoanterior, e ao buscar-se a simplicidade de um DireitoCivil que realmente tenha relevância prática, materiale real. Num segundo enoque é a eetividade, que estárelacionada com o sistema de cláusulas gerais adotadopela nova codicação. Essas cláusulas gerais são janelasabertas deixadas pelo legislador para preenchimentopelo aplicador do Direito
7
.
5
TARTUCE, Flávio.
O princípio da boa-é objetiva no direito de amília
.Disponível em: <http://www.jus.uol.com.br. Acesso em:10/07/2009>.
6
REALE, Miguel.
Visão geral do novo Código Civil 
. Disponí-vel em: <http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=2718>.
7
TARTUCE,
ob. cit 
., p. 2.
Revista do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, v. 23, n. 9, set. 2011
 
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Artigos Doutrinários – Raquel Elias Sanches
2.4 Princípio da eticidade
O Código Civil de 1916 não se preocupou com aética, pois na época dominava o pensamento ormalista,ou seja, o Direito só deve ser entendido pela sua ormaou aparência, e não pelo seu conteúdo. Por isso,orjou-se um sistema echado e impermeável, não seadmitindo o ingresso do metajurídico. Os magistradosagiam como verdadeiros autômatos, pois se limitavamà aplicação do método da subsunção do ato à norma.A sociedade do século XX evoluiu e começarama surgir novas demandas judiciais, mas o Código Civilde 1916, que continuava representando os ideais doséculo XIX, oi perdendo sua eetividade e ecáciasocial, principalmente após a Constituição Federal de1988, que tratou de orma atual muitos institutos doDireito Privado.O Código Civil de 2002 adotou, em caráterabsoluto, preceitos éticos. Miguel Reale asseveraque a eticidade é o espírito do novo Código Civil secongurando no conjunto de ideias undamentais emtorno das quais as normas se entrelaçam, se ordename se sistematizam.A eticidade
8
, à luz do Código Civil de 2002,objetiva imprimir ecácia e eetividade aos princípiosconstitucionais da valorização da dignidade humana,da cidadania, da personalidade, da conança, daprobidade, da lealdade, da boa-é, da honestidade nasrelações jurídicas de Direito privado.A eticidade irá se apresentar e penetrar no CódigoCivil de 2002 por meio da técnica das cláusulas gerais,criada por Miguel Reale, transormando o ordenamentoprivado em aberto e poroso
9
.
8
É oportuna a lição de GüNTHER JACOBS: “A eticidade não é algoalheio, algo que se leva para a pessoa a partir de ora, mas queconstitui a pessoa, é sua liberdade. Este é o conteúdo humanísticoda losoa do Direito de Hegel. De acordo com a opinião de Hegel,a eticidade e o Direito não devem ser entendidos como limitaçõesde uma pessoa ilimitadamente livre; seria este um entendimentoexclusivamente negativo, precisamente um entendimento limitador.Pelo contrário, são a eticidade e o Direito que limitam aquele âmbitono qual a pessoa que se entende e entende os demais pode serao menos como pessoa livre, de modo que – como já sucedia emAristóteles – somente pode viver ora dessa comunidade ordenadase encontra numa parte superior de tal ordem – então é Deus – ouse não entende tal ordem – então é um animal.” (
Ciência do Direitoe Ciência do Direito Penal 
. Barueri: Manole, 2003, Coleção Estudos deDireito Penal, v. 1, p. 19).
9
FARIAS,
ob. cit 
. p. 25: “As cláusulas gerais são normas intencionalmenteeditadas de orma aberta pelo legislador. Possuem conteúdo vago eimpreciso, com multiplicidade semântica. A amplitude das cláusulasgerais permite que os valores sedimentados na sociedade possampenetrar no Direito Privado, de orma que o ordenamento jurídico
Para Gustavo Tepedino, cláusulas gerais sãonormas que não prescrevem uma certa conduta, masapenas denem valores e parâmetros hermenêuticos.Servem como ponto de reerência interpretativoe oerecem ao intérprete os critérios axiológicos eos limites para a aplicação das demais disposiçõesnormativas
10
.As cláusulas gerais permitem a aplicação da TeoriaTridimensional do Direito, construída por Miguel Reale,pois haverá uma dialética entre a norma, o ato e osvalores. A norma será o ato valorado pelo magistradoem consonância aos princípios constitucionais. Omagistrado irá, periodicamente, construir e reconstruira norma, segundo o valor justiça
11
.Assim, a cláusula geral constitui uma disposiçãonormativa dirigida ao juiz, para que diante do casoconcreto crie, complemente ou desenvolva normas jurídicas que tenham como centro irradiador dosprincípios a serem observados, o texto constitucional.O princípio da eticidade pode ser vislumbradoem diversos dispositivos do Código Civil
12
.A ética é a projeção da moral no comportamentohumano. É o atuar concreto de um humano emace de outro, de um
eu
perante outro
eu
em umrelacionamento dinâmico dialético axiológico em queazem valer a determinabilidade livre e consciente deconduzir-se em sociedade em exigibilidades mútuas.Por m, o princípio da eticidade encontrasustentáculo na valorização da pessoa humana evisa imprimir ecácia e eetividade aos princípiosconstitucionais da dignidade da pessoa humana,da cidadania, da personalidade, da conança, daprobidade, da lealdade, da boa-é, da honestidade nasrelações jurídicas de direito privado.
mantenha a sua ecácia social e possa solucionar problemasinexistentes ao tempo da edição do Código Civil.”
10
TEPEDINO, Gustavo.
Crise de ontes normativas e técnica legislativana parte geral do Código Civil de 2002
.
11
FARIAS,
ob. cit 
., p. 25.
12
No art. 113, segundo o qual “os negócios jurídicos devem serinterpretados conorme a boa-é e os usos do lugar de suacelebração”, nota-se a valorização da conduta ética e da boa-éobjetiva. O art. 187 prevê a sanção para a pessoa que contrariara boa-é. Por m, o art. 422, que também valoriza a eticidade,prevendo que a boa-é objetiva deve azer parte da execução e aconclusão do contrato.
Revista do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, v. 23, n. 9, set. 2011

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