Welcome to Scribd, the world's digital library. Read, publish, and share books and documents. See more
Download
Standard view
Full view
of .
Save to My Library
Look up keyword
Like this
5Activity
0 of .
Results for:
No results containing your search query
P. 1
GENTILI E A INTELIGÊNCIA DO SÉCULO XXI

GENTILI E A INTELIGÊNCIA DO SÉCULO XXI

Ratings:

5.0

(1)
|Views: 2,131 |Likes:
Versão final!
Versão final!

More info:

Published by: Walter G. R. Lippold on Feb 02, 2012
Copyright:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as RTF, PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

04/12/2013

pdf

text

original

 
1
GENTILI E A INTELIGÊNCIA DO SÉCULO XXI
Por Walter Günther R. Lippold
 
Ultimamente temos visto nas redes sociais textos antigos serem revividos e postados como sefossem atuais. Mesmo sendo de 2009 o texto de Gentili defendendo o uso do termo “macaco” em piadas sobre negros continua promovendo o debate tenso e cheio de provocações entre aquelesque se intitulam “defensores do politicamente incorreto” e também dos intitulados “patrulha politicamente correta[...]imbecil e superficial” (sic). Em primeiro lugar teremos que explorar osconceitos de raça, etnia e racismo, para, com propriedade, aniquilarmos as pseudoverdadesexprimidas por Gentili e pulverizar as bases paralógicas do séquito de inteligentes que odefendem.Quando me posicionei contra os argumentos do comediante Gentili a primeira coisa que mefalaram foi: “você não entendeu o texto, não entendeu o que ele quis dizer, lê de novo!” Bom eureli o texto e continuo contra. Estou acostumado a ler Sartre, Hegel, Marx, Feuerbach, Freud,MArcuse, Bakhtin, Fanon, Memmi, e penso que depois de 14 anos estudando profundamenteHistória, Filosofia, Antropologia, Sociologia e Psicologia posso ter um pouco de discernimento ede um básico rol de técnicas de análise de discurso. Um dos trabalhos do historiador é buscar ideias em textos, explícitas e ocultas, sendo que a textualidade não está somente no texto escrito.Será que o texto de Gentili possui uma complexidade acima de qualquer coisa que eu já li, parase fazer tão
obscurum per obscurius
?Quando - em uma sociedade racista - negamos que o racismo existe, ou pior, afirmamos quequem se assume como negro é racista, estamos reproduzindo-o de modo violento sem pensar nasconsequências de nosso ato. Eu como professor branco em escolas da periferia, Bairro Restinga,Porto Alegre, posso tranquilamente afirmar que mais da metade dos meus alunos possuemascendência africana. Alguns são considerados negros, outros morenos, alguns até brancos.Vivemos em uma sociedade onde o racismo é definido como assimilacionista, onde o negro édiluído em uma imensa gradação de cores do “preto-retinto” ao “moreno”, coisa que não ocorreno racismo segregacionista onde negro é negro e branco é WASP (
White Anglo-Saxon Protestant 
).É interessante ver que o negro só pode ser negro quando esta “alcunha maldita” o diferenciacomo inferior, quando o negro se levanta e reafirma a positividade de sua cultura milenar étaxado de racista. Gentili diz que passa por sua cabeça chamar um negro orgulhoso de sua “raça”de burro! Só passa em sua cabeça pois ele não teria coragem de fazer isso na frente de um negro.É típico da classe média racista brasileira, falam o que querem na internet, mas no olho no olhoguardam seu racismo para si por medo de serem racistas. Imagino Gentili chamando JamesBrown de burro ao cantar Say it Loud: I´m Black and Proud. E aqui James Brown diz sou preto etenho orgulho, orgulho de uma cultura milenar e diversa, orgulho de uma “raça” que “com o próprio sangue construiu o País”. O joguete de palavras de Gentili “preto”, “negro”, “macaco”não dá certo e acaba por autodestruir a sua tese, que sem sustentação acaba por cair. Podemossim debater os termos “preto” ou “negro” , qual seria correto, mas também sou contra o politicamente correto careta que esconde no palavreado rebuscado o seu racismo. Gosto de ler Angeli, Allan Sieber, Laerte e o finado Glauco. Gosto de Nelson Rodrigues, não me chamem de
 
2
 patrulha do politicamente correto, amo Dead kennedys e George Clinton, não me venhamalcunhar de moralista, estou longe bem disso. Mas preciso dizer que, mesmo nas piadas pesadase sujas raciais o que víamos na obra destes artistas politicamente incorretos , era a crítica ao
establishment 
, ao
 status quo
vigente, e não uma defesa ferrenha do pensamento mais tacanho emedíocre.Eis a essência do racismo assimilacionista brasileiro: em uma pesquisa perguntaram duasquestões: 1)Você é racista? 98% dos entrevistados disseram que não. A segunda pergunta: 2)Você conhece algum racista? 100% afirmaram que conhecem alguém racista. Agora meexpliquem como pode 98% não serem racistas e 100% conhecerem racistas? Onde estão osracistas do Brasil? Esta pesquisa prova a materialização do racismo brasileiro, um racismo que seesconde através de mitos de mestiçagem e democracia racial, um racismo perverso, difuso,diferente do segregacionista nos Estados Unidos, onde pelo menos, formou-se uma classe médianegra e onde o branco racista assume abertamente sua posição. Lá o negro sabe quem é o seuinimigo. Aqui no Brasil é como o Mano Brown afirmou em um rap antigo: “No meu País o preconceito é eficaz, te cumprimentam na rua, te dão um tiro por trás!”.O conceito de raça é bastante contraditório, temos que explorá-lo para combater dois tipos deracismo: o racismo biológico do século XIX, do qual convivemos com resquícios ainda hoje, e oracismo assimilacionista que diluí o negro numa gradação de cores. Mas atualmente um novofenômeno se apresenta: o dos que afirmam que raças não existem, pois já que todos são iguais, políticas afirmativas são racistas.Em termos de teorias pseudocientíficas racistas temos o maior representante em Gobineau. Oracismo biológico tem suas bases teóricas fundamentais na
eugenia
, onde se defende que as“raças superiores” não devem se misturar com as “inferiores” pois isso degeneraria a cultura dos“superiores”. O mais conhecido teórico racista do século XIX foi o Conde de Gobineau,diplomata e etnólogo que externou suas idéias tacanhas no seu
 Ensaio sobre a Desigualdade das Raças Humanas
de 1853. Nessa obra o autor defendia a supremacia biológica da raça branca,mais precisamente a ariana, que deveria continuar “pura” para não perder seus “gens decivilização”. O nazismo bebeu diretamente nessa fonte pútrida e, o Brasil, também foiinfluenciado por essa teoria, atras da nossa ideologia do branqueamento, defendida principalmente por Oliveira Vianna, onde se afirmava que o Brasil devia importar força detrabalho européia para diluir o “sangue negro” existente aqui para que, desse modo, o País sedesenvolva.O Conde de Gobineau esteve no Brasil em 1870, e era
[...] amigo de D. Pedro II e contrário à miscigenação, uma vez que via omiscigenado como um produto degenerado. Como solução para umadegeneração genética, que ele previa ocorrer no Brasil em menos deduzentos anos, devido à mistura de raças, pregava a “purificação” com osangue europeu. Gobineau escreveu que, excluindo D. Pedro II “todomundo é feio aqui, mas incrivelmente feios; como
macacos
( CHIAVENATO, 1986 apud SILVA, 1995)
FEIOS COMO MACACOS!
Preciso continuar explicando, amigos inteligentes?
 
3
 
Em uma coisa concordamos com o defensores de Gentili: raça biologicamente não existe, masisso não quer dizer que ideologias, constructos sociais de diferenciação não existam. Seriarídiculo afirmar que as castas indianas são biológicas... mas também seria de extrema idiotiaafirmar que as castas não existem pois não são biológicas!!! Quanto ao racismo,segundo o Dr.Munanga devemos levar em conta as diferenças entre A) ideologia racista, B) preconceito raciale C) discriminação racial: A, B e C formam o racismo, estão interligados. A) é uma doutrina,uma filosofia da história, uma concepção de mundo; B) uma atitude, uma opinião verbalizada ounão; C) comportamento coletivo observável (MUNANGA, 1998, p.47).Gentili utiliza as armas da luta contra o racismo ( de que não existem raças, muito menossuperiores e inferiores) para perpetuar a discriminação racial através de apelidos depreciativosque, eu como
professor
, ouço na sala de aula e ele como
comediante
não sabe o estrago quecausam no
locus
escolar, as feridas nas crianças negras alcunhadas de “macacas”, “cabelo ruim”“picolé de pinche”, etc. Ele não sabe.
Eu sei!!!
Como professor, eu tenho autoridade para falar sobre isso, eu vivo isso todos os dias.A palavra negro foi criada pelo branco, tanto que os índios eram chamados de “negros da terra” pelos portugueses. Negro é maldito, é escuridão, tudo que é ruim é negro. Quando Noéamaldiçoou seu filho CAM, este se tornou negro, segundo a leitura medieval da Bíblia. Mas oque é o branco, o amarelo e o vermelho senão construções ideologizadas como tais como onegro? O negro e o branco são invenções, ideais que se materializaram na realidade, se fizeramcoisas, são
vergegenständlichung 
,
entäusserung 
(objetivações, externações) segundo Hegel, paracitarmos um filósofo eurocêntrico, e não sermos “taxados” de afrocentristas. Assim o africano,na diversidade gigantesca do continente, não se considerava negro, mas sim de sua etnia: ele erakhosa, zulu, Bakongo, Ambundo, uolóf, ewe-fon. Mas quando o branco os chamou, todos, denegro, uma categoria colonial de diferenciação, com o tempo o africano assumiu a palavra negroe a resignificou do negativo ao positivo. Este é o primeiro passo de libertação do colonizado,segundo o judeu tunisiano Albert Memmi, da negatividade extrema se vai a positividadeextrema e por fim a
aufhebung 
, a supra-sunção.Voltando ao tema eugenia e racismo pseudocientífico do século XIX temos que demonstrar aorigem do termo macaco aplicado ao negro. Vamos citar o racista colonialista do século XVIJuan Ginés de Sepulveda que combateu a ideais de humanidade dos índios contra o FreiBartolomé de las Casas:
Os espanhóis têm todo o direito de exercer seu domínio sobre estes bárbaros do Novo Mundo e ilhas adjacentes, os quais em prudênciainteligência e toda espécie de virtudes e sentimentos humanos são tãoinferiores aos espanhóis quanto as crianças com relação aos adultos, asmulheres em relação aos homens, pessoas cruéis e desumanas comrelação a pessoas mansas, pessoas desequilibradas com relação a pessoasequilibradas; e,
enfim, estou prestes a admitir que com relação aosespanhóis estão na posição de macacos em relação a homens.[
...] Sãocomo porcos: estão sempre olhando pro chão, como se nunca tivessevisto o céu.[...]Tudo isto não prova que eles são escravos de natureza?[...]Esses homenzinhos tão bárbaros, tão incultos, tão desumanos...”(tiradas de uma obra de Alejandro Lipschutz, chamada
 El problema

Activity (5)

You've already reviewed this. Edit your review.
1 hundred reads
1 thousand reads
Tami Fróes liked this
Kaue Catalfamo liked this

You're Reading a Free Preview

Download
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->