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Kimpa Vita (1)

Kimpa Vita (1)

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Published by: Joao Portelinha da Silva on Mar 12, 2012
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 De João Portelinha d`Angola
Dona Beatriz Kimpa Vita, a guerreira esquecida
(c. 1682 a 1706)
ala-se muito das Amazonas da Grécia, das Américas, da Europa e da Ásia... Foram ou nãouma realidade? E as amazonas angolanas? Aquelas mulheres guerreiras que derrubarampreconceitos e cada dia lutaram contra a dominação colonial, contra invasões estrangeiras, contra acultura, política e religiões impostas, que se notabilizaram e não são muito faladas... Que cessem asamazonas e as musas do sábio Grego e do Troiano. Da fama e das vitórias que tiveram; que eucanto o peito ilustre afro-angolano a quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a MusaAntígua canta que outro valor mais alto se levanta!Entre as guerreiras gloriosas, de que a humanidade guardará a eterna e agradecidamemória, avulta a Dona Beatriz Kimpa Vita, sacerdotisa popular no reino do Congo, umaprecursora das figuras proféticas das igrejas independentes e a criadora de um movimento queutilizava os símbolos cristãos, mas revitalizou as raízes culturais tradicionais do CongoNão usou espada, nem armas, não derramou uma gota de sangue humano, não escravizouninguém, sequer. No entanto, encetou muitas batalhas na segunda metade do século XVII contra adesintegração cultural e um desarranjo político no reino Congo (território que hoje faz parteAngola, Zaire e Congo). As forças do reino do Ndongo haviam vencido o Congo
 
Vita, só não étão famosa em Angola como é a Njnga Mbandi por seu reino ter sido fragmentado entre váriospaíses e por não ter tido a sorte de ter um António Cavazzi de Monteccuolo como seu biógrafo!
 
No final de seiscentos, o Congo possuía três reis, sendo Dom Pedro IV o mais poderosodeles, aparentemente, e talvez o único capaz de levar adiante um projeto de reunificação congolês.Dentro desse vácuo cultural e político, diversos profetas messiânicos surgiram para proclamar suasvisões sócio religiosas. A mais importante entre eles foi Kimpa Vita, uma jovem moça queacreditava estar possuída pelo espírito de Santo António de Pádua, um santo católico popular erealizador de milagres. Na realidade a cristandade de Kimpa Vita já havia caído no sincretismo,uma mistura do cristianismo com as religiões tradicionais africanas...Em
M’Banza
Congo, capital do reino do Congo, o primeiro galo cantara, quando o
manicongo
(soberano do reino) Dom Pedro IV, se levanta e convoca os mais velhos para umareunião importante na
embala (sede do governo)
cuja pauta principal é debruçarem-se sobre asituação caótica que vive o reino...-
Para além de sermos agora vassalos do reino do Ndongo, meus caros amigos, ainda temos umgrande problema - o começo das secas! Não são nada benéficas as calamidades públicas queassolam a nossa terra... Quando o sol -
apontando um dedo em sua direção
-, que deve reanimar anatureza, mata as plantas e os viventes; quando os crepúsculos assemelham-se a fornalhas decobre candente que abrasam os caminhos e os campos; e a fome e a morte levantam-se das plantações que torram, das fontes sem água como órbitas vazadas, do fumo que ondula em espirais fantásticas das matas que se incendeiam, o nosso povo e os seus sacerdotes devem refugiavam-seaos nossos antepassados, com o fim de obter deles a intervenção ancestral e divina no sentido deresolvermos os problemas que assolam o nosso reino
!
 – 
Falou manicongo aos seus súditos.-
E a Cristo e a Santo António também, Majestade!
 
 – 
Disse Vita, uma jovem aristocrata, nascida defamília nobre congolesa na década de 1680, batizada como Dona Beatriz, mulher que forasacerdotisa do culto de
 Marinda
(
nganga marinda
), embora educada no catolicismo. Kimpa Vitacontava entre 18 e 20 anos quando, cerca de 1702-1703, acometida de forte doença, disse terfalecido e depois ressuscitado como Santo António. E seria como Santo António que ela pregava àsmultidões do reino
 – 
daí o
movimento
ter ficado conhecido como
antonianismo
 
 – 
seguindo o rastode outras várias profetisas que lhe precederam na mesma tarefa, como a profetiza Matuta, em meioà crise que assolava o reino. DOM PEDRO:
Vita, minha filha, tu deves entender que existe uma união indissolúvel entrenós, simples mortais, os nossos antepassados e as gerações futuras! Este traço de união é que põeem movimento o ritmo dos tempos e das estações do nosso reino e do universo; ela faz a chuva;implora a lua e o sol. Ela possui o raio, o vento, a trovoada
... E continuou... -
Para nós, a religião católica trazida pelos maniputo (lusos) não se mostrou eficaz contra osinfortúnios que assolavam o nosso reino. Não estão vendo? Além disso, os nossos nobres resistemem aceitar a monogamia imposta pelos padres capuchinhos!
 Na realidade é um dos temas mais polêmicos na aceitação da nova religião, uma vez que aextensão da rede de solidariedades tecida pelos casamentos era e é peça fundamental nas relaçõesde poder tradicionais. . KIMPA VITA:
 Mas Majestade agora não somos todos católicos? Fomos batizados na religião domaniputo e com isso não devemos apenas fazer apelo aos nossos antepassados, a Cristo e a Santo
 
 António também! E finalmente, não vos posso dizer todas as coisas que podeis cometer em pecado; porque há vários modos e meios, tantos são que nem posso enumerara-los neste preciso momento,mas de uma coisa posso dizer-vos se não tomardes cuidado convosco mesmos e vossos pensamentos, vossas palavras, vossas obras e não observardes os mandamentos de Cristo e nemcontinuardes tendo fé, certamente perecerás no inferno!
-
 Mas Vita o Deus do maniputo não fala connosco ao contrário dos nossos antepassadosque são onipresentes?-
Questionou Dom PedroO culto aos antepassados constituía como que a síntese da vida religiosa dos congoleses. -
 Manicongo, se nós unicamente atendermos as coisas que se veem e se ouvem, certamente nãoteremos a misericórdia de Deus e a ressurreição; porque as coisas que se veem e se ouvem sãotemporais, enquanto as que não se veem e não se ouvem são eternas!
 
 – 
Retorquiu Kimpa Vita, a jovem mais bela congolense.DOM PEDRO:
 Não entendi muito do que falas, Vita... E a ressurreição?
 KIMPA VITA:
Tu, manicongo, melhor do que ninguém, sabes que existe! Eu mesmo com os 18anos acometida de forte doença morri e depois de falecido ressuscitei!
 DOM PEDRO:
Porque dizes falecido e não falecida? Tu não és uma mulher? 
KIMPA VITA:
Porque ressuscitei como Santo António, Majestade! E é como Santo António que euvos falo e prego às multidões do nosso reino!
 DOM PEDRO:
 Mas eis que tomarei estas tuas palavras que contêm profecias e revelações e pô-las-ei eternamente em minha memória porque me são preciosas; e sei que serão preciosas também para o nosso povo, minha querida Vita!
Embora ele não concordasse em tudo com D. Beatriz Vita, tinha muito respeito pela suaautoridade. Foi ela quem o proclamou Rei do Congo em troca da sua adesão ao antonianismo.Assegurou-se ainda, por meio de vários acordos, da aliança de famílias nobres adversárias de D.Pedro, a exemplo dos grupos de Kimpanzu, especialmente da família Nóbrega, enraizada no sul daprovíncia de Nsoyo. Embora a sua pregação possuísse forte conotação política. Pois, preconizava oretorno da capital a São Salvador e a reunificação do reino, chegando mesmo a envolver-se naslutas facciosas da época. No entanto, as alianças estabelecidas por Kimpa Vita, metamorfoseada emSanto António, não eram, porém resultado de mero cálculo político. Suas teorias ancoravam-senuma cosmologia complexa e peculiar; uma modalidade remodelada e completamente africanizadado cristianismo. Com efeito, para a profetiza congolense existia uma unidade significativamente
organizada, de modo que Cristo, apesar de ser totalmente “OUTRO” não aparecesse como alguém“FORA” do contexto cultural a conhecer apenas at
ravés dos seus atributos, mas na totalidade de sere da vida. Certamente encontramos aqui a ideia de
ligame
entre o homem e
 Zambi
, o Cristo. Para

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